Drogas: Menos cultivos, mais fome

Bangcoc, 03/11/2005 – A Birmânia, segundo maior produtor mundial de ópio, depois do Afeganistão, conseguiu reduzir drasticamente seus cultivos de papoula, mas a um preço muito alto: agora, dezenas de milhares de ex-plantadores sofrem de fome. Segundo o relatório anual do Escritório contra a Droga e o Crime, das Nações Unidas (Unodc), publicado nesta quarta-feira, a ditadura militar birmanesa conseguiu reduzir em 26% a área dedicada ao cultivo do entorpecente, principalmente no nordeste do país. O cultivo dessa variedade de papoula, principal insumo dos opiáceos, como morfina, ópio e heroína, se estende ao longo de 32 mil hectares no ondulado território do Estado birmanês de Shan.

Em 2004, os cultivos ocupavam 44.200 hectares, segundo a mais recente Pesquisa de ópio de Myanmar (nome com o qual a ditadura governante designa a Birmânia). A produção total de ópio no país também caiu de 370 toneladas no ano passado para 312 em 2006, o que representa redução de 16%, acrescenta o informe do Unodc. A campanha contra o ópio em Shan começou depois de um acordo assinado entre Rangun e "as autoridades locais das áreas produtoras de droga" para liberar totalmente esta região do entorpecente até 2014. A campanha teve um impulso adicional em junho, quando barões da droga da Birmânia, ex-chefes rebeldes da etnia wa (montanhistas), declararam sua intenção de erradicar os cultivos de papoula nas áreas sob seu controle.

"Em termos de esforços de erradicação, Myanmar está a caminho de cumprir o prazo fixado", disse aos jornalistas Akira Fujino, diretor do escritório do Unodc para a Ásia oriental e Pacífico, durante a apresentação do relatório dessa agência da ONU. Mas os produtores rurais que dependiam desse cultivo para escapar da pobreza enfrentam uma crise alimentar e econômica, disse Fujino. "A maioria dos agricultores ainda não se beneficiou da ajuda do programa de erradicação de drogas", explicou. "A assistência é necessária para evitar uma crise humanitária". Para Hakan Tongul, subdiretor para a Birmânia do Programa Mundial de Alimentos (PMA) das Nações Unidas, "perder cerca de 60% da renda pela proibição de plantar papoula é uma enorme pressão nestas comunidades agrícolas".

"Muitos enfrentam grandes dificuldades para alimentar suas famílias o ano inteiro", acrescentou Tongul, que calculou que quase cem mil ex-plantadores necessitam de ajuda alimentar. "Se não se apresentar às comunidades opções de desenvolvimento, estas famílias se verão empurradas para uma indigência abjeta e a própria proibição ficará em julgamento", afirmou. Por outro lado, a Birmânia é alvo de duras sanções dos Estados Unidos e da União Européia devido à opressão da junta militar sobre a população. Os programas de desenvolvimento em comunidades agrícolas obrigadas a abandonar a papoula para buscar fontes de renda alternativas também foram afetados pelos esforços em isolar a Birmânia, como castigo por suas violações de direitos humanos.

"Sem estratégias de desenvolvimento de mais longo prazo, pode fracassar a concretização dos atuais planos de erradicação do ópio", disse Tongul à IPS. "se disse aos cultivadores que deixassem sua principal fonte de renda, sem lhes dar meios alternativos para ganhar a vida,". Segundo o Unodc, a renda anual média dos agricultores que plantam papoula é de US$ 292, dos quais mais da metade (US$ 152) procedem da venda dessa planta. "Isto confirma que a produção de ópio está ligada à pobreza". Estima-se que 193 mil famílias participam hoje do cultivo do entorpecente, o que supõe uma queda de 26% em relação a 2004, segundo a agência da ONU.

Mais da metade das famílias entrevistadas para o relatório – tanto as que cultivam ópio como as que não o fazem – admitiram problemas alimentares. "A deficiência alimentar é aguda na região autônoma do nordeste de Wa (onde se concentra a etnia de mesmo nome), com 89,5% de aldeões informando insegurança" nesse sentido. A Birmânia se esforça para ganhar respeito como cidadão global responsável através de sua campanha contra as drogas. Mas o país conquistou uma imagem totalmente inversa nos anos 80, quando era o principal produtor de ópio do mundo, quando produzia, em média, 700 toneladas.

A produção de ópio da Birmânia teve seus valores máximos em 1996, com 1.600 toneladas, disse o Unodc. Mas a participação do país nos cultivos mundiais do entorpecente baixou de 23%, em 2004, para 21% atualmente. "Em Myanmar, são os mais pobres entre os pobres que cultivam papoula. Para eles, a produção de ópio é um meio de sobrevivência", explicou Fujino. "Não podemos permitir que a papoula desapareça se, ao mesmo tempo, desaparecerem as comunidades", acrescentou. (IPS/Envolverde)

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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