Pretória, 03/11/2005 – Recentemente, a humanidade inteira se uniu para aplaudir as personalidades e instituições distinguidas com o Prêmio Nobel em diferentes campos do saber, cobrindo áreas relevantes do conjunto do conhecimento humano. Os desenvolvimentos tecnológicos e de outros tipos reduziram as distâncias que separam nações, países e continentes, e também levaram à entrega de prêmios de caráter internacional, incluídos os Nobel, confirmando a universalidade da condição humana e de sua experiência, bem como as interdependências da família humana.
Cerca de três semanas antes do anúncio dos prêmios, nós, sul-africanos, realizamos nossa própria cerimônia de prêmios nacionais, que acontece a cada dois anos em Pretória, para homenagear 24 figuras de destaque tanto da África do Sul quanto do estrangeiro. Entre elas estavam dois sul-africanos ganhadores do Nobel: o químico Aaron Klug e o novelista J. M. Coetzee. Recordando como em seu discurso ao receber o Nobel de Literatura de 2003, no qual afirmou a importância do pensamento original para as pessoas comuns, Coetzee perguntou: "E por que fazemos coisas que levam até ao Prêmio Nobel se não por nossas mães? Por que nossas mães devem ter completado 99 anos e já estar há muito tempo enterradas antes que possamos ir correndo para casa com o Prêmio que compensaria as vicissitudes pelas quais as fizemos passar?"
Os ganhadores do Nobel de Medicina deste ano, Robin Warren e Barry Marshal, se viram forçados a comprovar, uma vez mais, que questionar verdades aceitas significa que suas denúncias se convertem em um permanente fastídio público. Sua própria curiosidade, representativa do urgente impulso humano por saber mais, os levou a se envolverem na tarefa de "desembaraçar os mistérios do mundo natural", como disse Klug. Tão cedo quanto em 1982, suas pesquisas os levaram a provar que as úlceras pépticas são causadas por uma infecção bacterial (o micróbio Helicobacter Pylori). Esta descoberta contradizia a verdade "estabelecida" de que as úlceras têm origem, sobretudo, pelo estresse e estilo de vida. O professor Terry Bolin caracterizou o trabalho de Warren e Marshall como "a descoberta mais revolucionária no campo da gastroenterologia do último quarto de século".
E foi somente em 1994, 12 anos depois dessa descoberta, que o mundialmente famoso Instituto Nacional da Saúde dos Estados Unidos (NIH) aceitou a origem bacterial das úlceras, e deu sua aprovação para que os pacientes infectados com H. Pyroli fossem tratados com antibióticos. Dois anos depois, em 1996, a Administração de Alimentos e Medicamentos norte-americana aprovou o primeiro tratamento com antibióticos para úlceras. O Prêmio Nobel demoraria 23 anos para chegar – provavelmente muito depois que fosse possível aos filhos de mães com 99 anos irem correndo para casa com o prêmio que compensaria as vicissitudes que as fizeram passar seus agora famosos filhos.
Em uma entrevista para a Australian Broadcasting Corporation (ABC), Warren, Marshall e outros cientistas explicaram alguns dos obstáculos que se interpuseram à uma rápida aceitação de sua descoberta salvadora. Nesse programa foi dito que no momento em que aconteceu a descoberta de Warren e Marshall, as maiores companhias farmacêuticas haviam colocado no mercado internacional remédios para a redução de ácidos. Por sua vez, os dois cientistas haviam demonstrado que uma simples aplicação de antibiótico poderia curar até 90% destes casos.
Marshall comentou: "Um laboratório farmacêutico quer vender-lhe remédios que você tome durante o resto de sua vida: um medicamento para o colesterol, outro para diabetes. São bons vendedores. Se eles te oferecem um remédio que vai curá-lo, só precisará tomar uma vez ou por uma semana e, assim, como poderiam fazer com que estes produtos lhes rendam bons lucros?". Warren constatou que "esses medicamentos ficaram fora de circulação porque nós detivemos a bactéria, de modo que já não eram necessários".
Para ganhar a batalha que leve à vitória de verdades científicas que salvam vidas contra a poderosa combinação da força da inércia e do lucro do dinheiro, Warren e Marshall chegaram ao ponto de se infectarem eles próprios com a bactéria e utilizarem antibióticos. A desesperada oposição geral à verdade exigia medidas extremas para garantir a aceitação da nova descoberta, que serviu para "desembaraçar os mistérios do mundo natural". O que sabemos é que os dois cientistas ampliaram o espaço epistemológico que permite à humanidade obter conclusões válidas a partir do que até agora acreditávamos, multiplicando, assim, nossas possibilidades de antecipar o futuro. (IPS/Envolverde)
(*) Thabo Mbeki, presidente da África do Sul, escreveu este artigo na qualidade de presidente do Congresso Nacional Africano (ANC).

