França: O temor se propaga pela Europa

Paris, 10/11/2005 – Os atos de violência praticados por jovens em regiões da Alemanha e Bélgica com grande população de imigrantes alertam políticos e especialistas europeus que temem uma propagação dos distúrbios das últimas semanas na França por toda a Europa. A preocupação aumentou depois que grupos de jovens incendiaram veículos nas cidades alemãs de Berlim e Bremen e na belga Bruxelas. O prédio de uma escola e um estabelecimento comercial também foram incendiados na localidade de Huchting, perto de Bremen. As áreas onde ocorreram esses distúrbios, como no caso dos registrados em Paris, têm uma grande população de origem estrangeira, especialmente árabe, turca e africana.

Um porta-voz da polícia alemã desmentiu as semelhanças entre esses distúrbios e os iniciados na capital francesa, mas um adolescente que participou desses atos em Huchting admitiu que ele e seus amigos se inspiraram nos jovens franceses. O ministro do Interior do Estado alemão da Baviera, Gunter Beckstein, entrevistado por uma emissora de rádio, advertiu que fatos de violência semelhantes aos registrados em cidades da França poderiam acontecer na Alemanha. "Não estamos protegidos contra esse tipo de instabilidade. A integração dos imigrantes em nossa sociedade não foi um sucesso completo", afirmou.

Por sua vez, o chefe de governo do Estado de Renânia-Palatinado, Kurt Beck, concordou que os jovens imigrantes alemães poderiam sentir-se tentados a seguir o exemplo dos manifestantes franceses. "Devemos prestar muita atenção a esta grande concentração de população jovem que parece não ter nenhum tipo de oportunidade", disse aos jornalistas. Por outro lado, Margot Kaessmann, bispa na cidade alemã de Hanover, alertou que a segregação dos imigrantes provoca o surgimento de sociedades paralelas.

Uma pessoa morta, outras 200 feridas, mais de seis mil veículos incendiados e aproximadamente 1.300 manifestantes detidos é o saldo dos violentos protestos de quase duas semanas por parte de jovens imigrantes e filhos de imigrantes em várias cidades francesas. Os distúrbios começaram no dia 27 de outubro, depois que dois adolescentes imigrantes morreram acidentalmente em uma estação elétrica de alta voltagem de Clichy-sous-Bois, um distrito pobre situado 30 quilômetros a nordeste de Paris. Ao se espalhar o boato de que os adolescentes haviam se escondido nesse lugar porque fugiam da polícia – versão negada pelas autoridades – explodiu a fúria dos imigrantes. A situação se agravou com as declarações do ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, que qualificou os jovens de "escória".

Bülent Arslan, líder do Fórum Turco-Germano, do Estado alemão da Renânia do Norte-Westfalia, considera impossível que na Alemanha ocorram fatos de violência semelhantes aos da França. Os imigrantes e seus filhos somam em território alemão cerca de oito milhões de pessoas, isto é, 10% da população do país. A comunidade turca é maioria. Peter Stech, trabalhador social de Huchting, afirmou que os últimos incidentes em várias cidades francesas não foram uma expressão de instabilidade social e descartou a ocorrência de incidentes semelhantes na Alemanha. "Muitos jovens dizem: " 'Oh, que bom, Hutching também sai nos noticiários?, mas não há a intenção política por trás dessas ações isoladas", afirmou. Na Alemanha, "não vejo grupos com cem integrantes, como na França", acrescentou.

"O modelo de integração francês não teve o mesmo êxito com as gerações de imigrantes mais jovens que apresentou no passado", disse na segunda-feira o primeiro-ministro francês, Dominique de Villepin, em entrevista na televisão. "Conversei com muitos jovens imigrantes e eles me expressaram seu sofrimento pelo que consideram discriminação", acrescentou. Villepin afirmou que a sociedade deve responder a esses sentimentos propiciando oportunidades de educação e trabalhos para os imigrantes. O líder da Confederação Francesa de Trabalhadores Democráticos, François Chérèque, reuniu-se na segunda-feira com o primeiro-ministro e disse em entrevista coletiva que as manifestações de jovens eram o preço que a França tinha de pagar por "mais de 20 anos de negligência nos distritos mais pobres do país". (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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