África: União Africana prepara exército continental

Nações Unidas, 11/11/2005 – A União Africana (UA) prepara a implementação, no próximo ano, de um exército do qual participarão os 53 países do bloco, num momento em que recrudesce a crise humanitária em Darfur, no Sudão, e parece avizinhar-se uma nova guerra entre Eritréia e Etiópia. A Força de Reserva Africana (FRA) contará com apoio logístico e financeiro de países ricos e será projetada para desenvolver missões militares e de pacificação, em um continente assediado por guerras. O presidente da organização não-governamental norte-americana TransAfrica Forum, Bill Fletcher Jr., concorda com a necessidade de formar um exército de pacificação sob comando da UA o mais rápido possível.

Fletcher alertou que a institucionalização dessa força dependerá do apoio logístico e financeiro dos países industrializados do Norte. Mas, segundo disse à IPS, "a ajuda não deve ser um mecanismo para manipular o objetivo dessa força". Para ele, um exército de pacificação não deve se converter em uma força de ocupação neocolonial a serviço de interesses de países e instituições que desejam subverter a soberania das nações africanas", acrescentou. Quando estiver preparada para operar, a FRA se somará, ou substituirá, às forças de paz da Organização das Nações Unidas hoje atuando na África, incluindo a disputada fronteira entre Etiópia e Eritréia, disse à IPS um diplomata africano.

Das 16 missões de paz da ONU hoje no mundo, oito estão na África: em Serra Leoa, República Democrática do Congo, Libéria, Costa do Marfim, fronteira entre Eritréia e Etiópia, Burundi, Sudão e Saara Ocidental. O comandante da Missão das Nações Unidas na Etiópia e Eritréia, general Rajender Singh, advertiu na semana passada sobre uma possível guerra entre estes dois países. "Uma situação potencialmente volátil poderia detonar uma nova guerra", disse. A ameaça surge menos de cinco anos depois de encerrada a guerra anterior. A FRA, cuja criação foi prevista pela cúpula da UA em 2002, se encarregará não só de apoiar missões de paz, mas também intervirá militarmente para impedir a escalada do conflito. Porém, a assembléia geral do bloco deverá apoiar qualquer decisão neste sentido.

Espera-se que os 53 países do continente, todos membros da UA, tomem medidas para formar seus próprios contingentes de soldados reservistas preparados para participar das missões de paz. O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, disse em setembro, por ocasião da Cúpula Mundial 2005 em Nova York, acreditar que a FRA estará em funcionamento no próximo ano. O núcleo desta nova força militar poderia ser os mil soldados da UA que hoje estão no Sudão, acrescentou. "Embora nesse país o problema continue sendo extremamente crítico, estaria bem pior sem eles. Um exército africano efetivo permitiu criar um espaço político para lançar e fazer andar um processo de paz", afirmou Blair. O primeiro-ministro insistiu na oportunidade que "as forças de pacificação africana têm de estar prontas em um ano".

Tanto os Estados Unidos quanto os 25 países que formam a União Européia prometeram apoio financeiro – mas não adiantaram cifras concretas – para a criação da FRA. As nações ricas não devem usar o apoio financeiro ou logístico que derem aos esforços de paz da UA como um salvo-conduto para lavarem as mãos na hora de responder a uma crise na África, disse Ann-Louise Colgan, diretora de análise política da organização norte-americana África Action. "Se se pretende que as forças de paz africanas reforcem seu poderio e ampliem suas operações, nos próximos anos necessitarão do apoio internacional", disse Colgan à IPS.

Entretanto, o apoio internacional à paz e à segurança do continente pode adotar muitas formas, incluindo o compromisso diplomático, a ajuda financeira e medidas institucionais que fortaleçam as iniciativas africanas, acrescentou a ativista. "Poder responder aos grandes conflitos e às correspondentes crises humanitárias, seja na África ou em qualquer outra parte, sempre será necessário o compromisso e a cooperação de toda a comunidade internacional, e a ONU e outros organismos internacionais continuam sendo chave", disse Colgan. A primeira fase da formação da nova força terminou em junho, e a segunda e última deve se completar em junho de 2010.

No caso de Darfur, a UA mostrou capacidade de liderança ao atender a crise iniciada em fevereiro de 2003, mas não teve os meios para evitar a morte de mais de 20 mil pessoas, no que o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e outras personalidades qualificaram de genocídio. Na semana passada, mais de cem membros do Congresso norte-americano acusaram Bush de apoiar o governo do Sudão, acusado de cumplicidade com o massacre. Colgan disse que a missão da UA em Darfur, composta por seis mil observadores, não é uma força de paz, pois carece de capacidade de comando, de soldados suficientes e da logística necessária para proteger a população civil de Darfur, cujo território é semelhante ao da França. Porém, a projetada FRA contará com essas características, previu.

"Se as nações ocidentais estão verdadeiramente comprometidas com a missão de salvar vidas em Darfur, devem reforçar a missão da UA no Sudão enviando uma força internacional com capacidade de por fim ao genocídio", afirmou a ativista. "Recordemos que o genocídio não é apenas um problema da África, mas também um crime contra a humanidade. Em conseqüência, exige uma resposta internacional urgente. Infelizmente, esta ajuda não chegou e a situação continua se deteriorando", ressaltou. O Tribunal Penal Internacional contra crimes de guerra, contra a humanidade e atos de genocídio, com sede na cidade holandesa de Haia, realiza uma investigação sobre o caso de Darfur. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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