Londres, 10/11/2005 – Um comitê do parlamento britânico recomendou que seja dada aos casais liberdade para escolher o sexo de seu bebê em determinadas circunstâncias, o que desata temores devido à preferência de algumas comunidades por filhos homens. A prática de determinar o sexo da criança para abortar no caso de ser menina já é comum em várias regiões da Ásia e África. A novidade é que tecnologias avançadas permitem aos casais escolherem o sexo de seus filhos antes da concepção. A recomendação dividiu o comitê parlamentar. "A escolha do sexo é hoje tecnologicamente possível e deveria ser admitida em determinadas circunstâncias", disse à IPS o presidente do comitê, Ian Gibson, do governante Partido Trabalhista.
"Surge todo tipo de dúvidas a respeito de certas comunidades procedentes de outras regiões do mundo, mas a opção existe", disse Gibson, para que a escolha do sexo do bebê deve ser admitida desde que estabelecido "algum tipo de regulamentação". De todo modo, "não creio que alguém possa simplesmente dizer "gostaria de ter um menino", "gostaria de ter uma menina" e isso é tudo", acrescentou. "Não acredito que isto venha a se converter em algo essencial neste país. Não vejo uma grande preferência por um ou outro sexo em nossa sociedade, mas sei que a situação é muito diferente na Índia e na China, por razões culturais", prosseguiu. No entanto, existe perigo de a tecnologia fugir do controle pelas mãos de médicos do setor privado, cujos serviços podem ser procurados por quem pode pagá-los?
"A menos que os tornemos ilegais, naturalmente que é possível", respondeu Gibson. "Quem sabe o que está acontecendo agora em Harley Street e outros lugares", acrescentou, referindo-se à rua de Londres onde se concentra boa parte das clínicas particulares da capital britânica. A nova tecnologia poderia ser mal utilizada se o governo permitisse sua aplicação sem controle, o que seria ilegal, reconheceu o legislador. "Quem sabe o que acontecerá em outras partes do mundo enquanto a tecnologia se expande pela Europa e lugares como Índia, China, Coréia… Em matéria de técnicas genéticas, ocorrem coisas estranhas em todo o mundo. Eu não descartaria nada, nunca", afirmou Gibson.
A possibilidade de escolher o sexo do bebê poderia causar problemas nas comunidades asiáticas, alertou Shiv Pandey, ex-integrante do Conselho Médico Geral, o órgão que regulamenta a prática da medicina na Grã-Bretanha. "É um grande avanço médico. Mas conhecendo nossa sociedade, alguém se aproveitará indevidamente", disse à IPS. "Há uma grande quantidade de implicações". A escolha do sexo – disse – equivaleria a "algo como um bebê encomendado". Poderia ser útil, por exemplo, no caso de uma família "ter três ou quatro meninas e querer um menino. É um costume social que não podemos mudar da noite para o dia", reconheceu.
E se "dentro de um contexto legal alguém tomasse alguma decisão e recebesse ajuda médica profissional para implementá-la deveríamos aceitar, porque penso que não há nenhum dano", afirmou Pandey. Mas o Conselho Médico Geral adotará uma posição "séria" quanto aos profissionais ajudarem os pais a escolherem o sexo de um bebê sem justificativa, ressaltou. Também o farão os especialistas em embriões, bem como haverá muitas garantias contra o mau uso das novas tecnologias, previu. Entretanto, Pandey admitiu que "sempre há quem consiga abusar do sistema. Não neste país, porque tenho bastante confiança na ética da fraternidade médica britânica, mas é possível" que estas técnicas sejam utilizadas em controle em outros países do mundo, afirmou.
O prefeito do distrito londrino de Hounslow, Darshan Grewal, disse que permitir aos casais escolher o sexo de seus filhos poderia devastar as famílias. "Uma lei como esta é totalmente inaceitável", afirmou à IPS. A concepção "é algo natural, é um presente de Deus, e se formos contra isso seria totalmente injusto e desumano", ressaltou. "Estamos jogando contra a natureza e isso é perigoso. O projeto de lei não deve ser aprovado. Os legisladores devem refletir", afirmou o prefeito. Em países como Índia e Paquistão, prosseguiu, todos querem filhos homens. "Então, de onde tiraremos as mulheres, como se sucederão as gerações? Isto seria um desastre", ressaltou Grewal. (IPS/Envolverde)

