China: Os modelos econômicos não são confiáveis

St. Augustine, 23/11/2005 – O Prêmio de Economia 2005 do Banco da Suécia, comumente conhecido como Prêmio Nobel de Economia, foi concedido recentemente a Robert Aumann, da Universidade Hebraica de Israel, e a Thomas Schelling, da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, ambos matemáticos e teóricos do jogo. A profissão econômica adotou métodos da teoria do jogo porque oferecem percepções mais profundas sobre o comportamento humano. O tradicional modelo de homo economicus, esse sempre racional indivíduo que leva ao máximo seu próprio interesse na competição com os demais, agora é considerado pouco realista. Este desolador modelo do comportamento humano que ocupa o centro da economia está se mostrando cada vez mais equivocado, segundo muitos outros cientistas.

Economista é uma poderosa profissão que ostenta uma posição dominante nas políticas públicas e na tomada de decisões no setor privado. Entretanto, muitos economistas admitem que seus modelos não são dignos de confiança, raramente predizem os rendimentos e resultados econômicos e fracassaram quanto ao desenvolvimento econômico. Por isso me pergunto como o Banco da Suécia fez em 1968 para persuadir o Comitê do Prêmio Nobel a aceitar conceder um prêmio de US$ 1 milhão para a ciência econômica? Peter Nobel, descendente de Alfred Nobel e advogado especializado em direitos humanos, acredita que foi um esforço de relações públicas para legitimar a economia como uma ciência. Nobel acrescentou em recente entrevista que fiz com ele: "Não penso que a economia seja uma ciência e espero que o Prêmio do Banco da Suécia seja desvinculado do Prêmio Nobel".

Em 2004, quando o prêmio foi dado a outros dois economistas da Escola de Chicago, Finn Kydland e Edward Presciott, pelo ensaio no qual pretendiam demonstrar (com matemáticas de fantasia) o motivo de os bancos centrais ficarem livres de vigilância política, muitos matemáticos manifestaram seu desacordo. Os últimos ganhadores do prêmio, Aumann e Schelling, são hábeis pesquisadores do comportamento humano e dos jogos, embora, como os economistas, enfoquem seus trabalhos principalmente nos conflitos e na competição. Esta pré-disposição tanto na economia quanto na teoria do jogo trata inadequadamente a metade mais cooperativa, participativa e altruísta do comportamento humano. A prova do predomínio da cooperação nos êxitos da humanidade agora é confirmada por novas pesquisas científicas sobre os hormônios, incluindo a oxitocina (que permite a vinculação afetiva) e as células "espelho" nos cérebros humanos, que são uma base para a empatia com outros seres humanos.

Não é surpreendente que o Prêmio 2005 do Banco da Suécia tenha ido para teóricos do jogo. Os modelos matemáticos de Schelling se voltavam para os conflitos e foram usados sem sucesso durante a guerra do Vietnã pelo Pentágono para tentar romper a resistência do Vietcong. Aumann também trabalhou durante a Guerra Fria e assessorou os Estados Unidos sobre a estratégia militar da União Soviética. Entre 1965 e 1968, Aumann colaborou com o Pentágono sobre como jogar o "jogo de pôquer" armamentista com os soviéticos. Mas tentar usar modelos matemáticos para calar mais fundo no comportamento humano pode ser tão inapropriado quanto usá-los na economia.

As novas pesquisas feitas por outras ciências mostram o quanto é complexa a realidade do comportamento humano. A maior parte das disciplinas que estudam as sociedades e as interações humanas abarcam todo o repertório do comportamento humano, desde os conflitos e a competição até a cooperação, a participação, a compaixão e, inclusive, o altruísmo. Como é que a economia e a teoria do jogo se entusiasmaram com a competição? Uma explicação é que as teorias de Charles Darwin foram pirateadas pelas elites da Grã-Bretanha vitoriana que viram na "sobrevivência do mais apto" a justificativa para o sistema de classes.

Uma explicação mais profunda é simplesmente a psicologia masculina. A economia sempre foi patriarcal em seu núcleo. Sua definição de "comportamento racional" com a potencialização competitiva do próprio interesse implica que os comportamentos cooperativo, participativo e compassivo, bem como as atividades do voluntariado, são "irracionais". De acordo com esta lógica, a economia ignora todo o trabalho não retribuído (que constitui, pelo menos, 50% de toda a produção na maioria dos países), ao mesmo tempo em que trata como "antieconômico" o trabalho das mulheres que criam seus filhos, cuidam do orçamento da casa e cultivam alimentos para sua família (o que chamo de "economia do amor").

Os teóricos do jogo enfocam tais jogos competitivos de "ganhar-perder" ou de "perder-perder" como o "dilema do prisioneiro", no qual a falta de confiança entre dois acusados de um crime leva a cada um deles o pior resultado para ambos. Entretanto, uma recente pesquisa sobre questões femininas mostrou que as mulheres rejeitam o "dilema do prisioneiro" e obtêm maior resultado (um jogo de "ganhar-ganhar") porque confiaram umas nas outras. (IPS/Envolverde)

(*) Hazel Henderson, economista norte-americana, autora de Beyond globalisation e produtora da série de televisão Ethical Market.

Hazel Henderson

Hazel Henderson, futurist, evolutionary economist, is author of ''Beyond Globalisation'' and other books (www.hazelhenderson.com).

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