Washington, 22/11/2005 – A "guerra contra o terror" cria novas oportunidades de emprego para os norte-americanos. Importantes empresas se dedicam a contratar pessoal para realizar interrogatórios nas prisões iraquianas. O negócio enche muitos bolsos e preocupa os ativistas pelos direitos humanos. Neste verão (boreal), dezenas de pessoas seguiram para a desértica cidade de El Paso, no Estado norte-americano do Texas, a caminho das prisões iraquianas, onde permanecerão durante seis meses. Mas eles não vão na qualidade de presos, mas de interrogadores, caminhando por uma fina linha legal através das Convenções de Genebra, que protegem os prisioneiros de guerra.
Só por assinarem o contrato receberam um cheque de US$ 2 mil de uma empresa que rapidamente está se convertendo em uma empregadora-chave no mundo da inteligência, a Lockheed Martin. Após uma semana de orientação e procedimentos médicos, voaram para Tampa, na Flórida, com destino a algumas tristemente célebres prisões iraquianas, entre elas as de Abu Ghraib, Camp Cropper, localizada no Aeroporto Internacional de Bagdá, e Camp Whitehorse, perto da cidade iraquiana de Nasíria.
Conhecidos na comunidade de inteligência como "os 97 ecos", ("97E" é o número do curso de interrogatório ministrado nas escolas militares), estes mercenários trabalharão lado a lado com os interrogadores militares. Utilizarão 17 técnicas para interrogar prisioneiros, que vão desde o "amor de camaradas" até a "severa atemorização", que consiste em jogar o preso violentamente ao chão. Os que estarão sujeitos a estas medidas são dezenas de milhares de homens e mulheres detidos em prisões militares dirigidas pelos Estados Unidos sob suspeita de ligação com o terrorismo.
Um emprego deste novo nicho de trabalho começa com um telefonema ou um e-mail ao tenente-coronel da reserva Marc Michaelis, no pitoresco povoado de moinhos de farinha de Ellicott, no Estado de Maryland, a uma hora de automóvel de Washington. Michaelis, o principal ponto de contato dos novos interrogadores, chegou à Lockheed Martin em fevereiro, depois que a companhia comprou sua ex-empregadora, a Sytex, por US$ 462 milhões. A Sytex, e, portanto, a Lockheed, parece ter se transformado em um dos maiores recrutadores de torturadores privados. Somente em junho, a Sytex publicou anúncios procurando 11 novos interrogadores para o Iraque, e em julho havia solicitado outros 23 para trabalharem no Afeganistão.
Anúncios publicados em vários sites freqüentados por militares da ativa e da reserva ofereciam salários de US$ 70 mil e US$ 90 mil, bonificação de US$ 2 mil na assinatura do contrato, US$ 1 mil para licença na metade da missão e outros US$ 2 mil ao completar o período de contrato regular de seis meses. Quem voltar para um segundo período receberá o dobro das bonificações no início e no final do contrato. Em troca, espera-se que os contratados trabalhem até 14 horas por dia, sete dias por semana.
A questão dos interrogadores privados veio à luz em meados de 2004, quando uma investigação militar revelou que vários deles na prisão de Abu Ghraib eram empregados civis de uma empresa chamada CACI, com sede no Estado norte-americano de Virgínia. O resultado é que ninguém sabia o que diziam as leis sobre contratados comprometidos nas torturas no Iraque, ou se eram, de fato, responsáveis perante alguma autoridade ou passíveis de sofrerem procedimento disciplinar. Organizações defensoras dos direitos humanos são abertamente críticas desta nova tendência. "O uso que o Exército faz dos interrogadores por contrato são uma experiência fracassada", disse Deborah Pearlstein, diretora do Programa e Leis e Segurança da organização norte-americana Human Rights First.
"Baseando-se nas próprias investigações do Pentágono (Departamento de Defesa) e outros relatórios que já são públicos, parece claro que os contratados já não são bem treinados nem controlados, e são mais difíceis de acusar do que os soldados por coisas que saem erradas", disse Pearlstein. A ativista alertou que, "a menos que os interrogadores por contrato possam ser elevados, pelo menos, aos padrões de treinamento e disciplina esperados para nossos soldados, os Estados Unidos estão melhor sem os seus serviços".
"O problema não é o uso de contratados civis", disse em uma mensagem de correio eletrônico um ex-interrogador do Exército com mais de 10 anos de experiência. "O que se necessita é um meio ativo de supervisão e vigilância sobre todos nossos recursos no campo, não só os civis. Se alguém examinar as muitas investigações das atividades de inteligência militar encontrará tantos indivíduos uniformizados infringindo as lei quanto contratados", afirmou. Entretanto, Susan Burke, advogada de presos iraquianos que disseram ter sido torturados em Abu Ghraib, questionou a legalidade de contratar civis para realizarem os interrogatórios.
"Os interrogatórios sempre foram considerados uma função inerente ao governo por razões óbvias. É irresponsável e perigoso utilizar contratados para essa tarefa, já que há uma longa história de repetidos abusos dos direitos humanos cometidos por eles", disse Burke. A advogada de Filadélfia alega que o uso de contratados é ilegal. "O Congresso dos Estados Unidos aprovou leis (as Regulamentações de Aquisições Federais) que impedem o Poder Executivo de delegar "funções inerentemente governamentais" a privados", explicou Burke.
Consultada sobre os detalhes dos contratos para os interrogatórios, a Lockheed se negou a fazer comentários. Joseph Wagovich, porta-voz da divisão de tecnologia da informação da empresa, que inclui a Sytex, disse inicialmente que a companhia tinha apenas um papel menor no negócio dos interrogatórios e que havia concluído seu contrato nessa área para a base militar norte-americana de Guantânamo, em Cuba. Mas confirmou que a Lockheed ainda fornecia outros tipos de "analistas de inteligência" ali. A Sytex também gosta de manter um perfil baixo. "A maioria das organizações dedicadas a fazer cumprir a lei, bem como as outras que podemos estar apoiando, logo poderão não ter seus nomes impressos", disse Raplh Palmieri Junior, encarregado de operações da empresa, a Congressional Quarterly em 2004.
O alcance e a influência da empresa vão muito além do militar. Um perfil da companhia publicado pelo jornal The New York Times no ano passado começava com a frase: "Lockheed Martin não dirige os Estados Unidos. Mas ajuda a dirigir uma impressionante parte dele". Na "última década, a Lockheed, maior contratante militar da nação, construiu um formidável império de informática que agora se estende desde o Pentágono até o escritório do Correio", escreveu Tim Weiner. "Classifica suas correspondências e soma seus impostos. Corta os recibos do seguro social e contabiliza (os resultados) do censo dos Estados Unidos. Dirige vôos espaciais e monitora o tráfego aéreo. Para fazer com que tudo isso funcione, a Lockheed possui mais códigos de informática do que a Microsoft".
O jornalista especializado em segurança nacional do The New York Times explicou com a Lockheed obtinha seus negócios: "Os homens que trabalham, pressionando (a favor de) e defendendo legalmente a Lockheed ocupam os cargos de secretário da Marinha, secretário de Transporte, diretor do complexo nacional de armas nucleares e diretor da agência Nacional de satélites espiões". Bill Hartung, do Instituto de Política Mundial de Nova York, acredita que "dar a uma empresa tanto poder em assuntos de guerra e paz é tão perigoso quanto antidemocrático". Também afirmou que a Lockheed Martin estava em posição de se beneficiar economicamente de cada plano da "guerra contra o terror", desde o objetivo até a intervenção e desde a ocupação até os interrogatórios.
(*) Pratap Chatterjee é diretor-geral da organização não-governamental CorpWatch.

