Iraque: Pesadelo e ressurreição de uma feminista

Nações Unidas, 23/11/2005 – A iraquiana Zainab Salbi, que tinha 11 anos quando seu pai foi recrutado como piloto pessoal de Saddam Hussein, presenciou aterrada desde a primeira fila os delitos cometidos pelo regime contra as mulheres. Seu pai transportava regularmente Saddam de Bagdá para Tikrit, seu povoado natal. Salbi garante que sua família esteve sob controle total do ditador e recria com fatos essa sensação em suas memórias, publicadas com o título "Betwenn Two Worlds: Growing Up in the Shadow of Saddam" (Entre dois mundos: crescendo à sombra de Saddam). No livro, editado este ano por Gotham Books, Salbi recorda o clima de medo predominante no Iraque durante o regime de Saddam Hussein (1979-2003), especialmente a violência que o Estado patrocinava contra as mulheres.

Quando Salbi completou 20 anos, sua mãe a enviou aos Estados Unidos para um casamento "arranjado". Mas sua intenção real era afastá-la do crescente interesse que Saddam manifestava por ela. De qualquer maneira, o casamento se tornou outro pesadelo. Em 1993, Salbi fundou a Women for Women International, organização sem fins lucrativos que ajuda as mulheres a reconstruírem suas vidas em regiões devastadas pelas guerras. Sua experiência nesse sentido remonta à conflagração entre Iraque e Irã (1980-1988). Seu programa de maior êxito é uma rede que liga mulheres de 33 países com outras que sobreviveram a guerras. A cada mês, as participantes trocam cartas e as que podem enviam algum dinheiro para as que precisam mais.

Ao apresentar seu livro em Nova York, Salbi recordou da "violação maciça de mulheres xiitas na medida em que eram deportadas para a fronteira do Iraque". Ela descreve como a violação era usada como forma de castigo, bem com a chantagem que as mulheres sofriam para poderem ser recrutadas no serviço secreto com a missão de espionar seus familiares. "Tínhamos um Dia do Povo, no qual as pessoas podiam pedir pessoalmente a Saddam Hussein uma solução para seus problemas", contou Salbi. "E se ele gostasse das mulheres que conhecia nessas audiências, as levava para um quarto e as violava", acrescentou.

A ativista quer chamar a atenção para o que aconteceu no Iraque sob o regime de Saddam Hussein, mas também manifesta sua grande preocupação pela situação atual das mulheres em seu país. "Mulheres profissionais e trabalhadoras foram assassinadas. Sei de uns 20 casos", disse. "Diariamente vemos corpos de mulheres nas margens do Tigre e do Eufrates. Salões de beleza foram alvo de bombardeio e universitárias são seqüestradas e violadas". A organização de direitos humanos Anistia Internacional afirmou em fevereiro que as iraquianas continuam convivendo com a violência e o medo. "O vazio legal e o recrudescimento das matanças, os seqüestros e as violações que se seguiram à queda do governo de Saddam restringem a liberdade de movimento das mulheres e sua capacidade de estudar e trabalhar", diz o relatório da Anistia.

O estudo indica que a mutilação genital feminina, os crimes de honra e a violência doméstica também aumentaram nesse contexto de violência generalizada. Salbi acredita que o mundo deve prestar mais atenção à voz das mulheres, especialmente nas zonas que mais sofrem os conflitos armados. "Elas são aproximadamente 60% da população nessas áreas, e não podem ser marginalizadas da tomada de decisões no debate sobre a construção nacional", afirmou. A ativista destacou a coragem das mulheres da Bósnia-Herzegovina e de Ruanda que denunciaram as violações em massa cometidas em seus países. "Não teríamos mudado as leis internacionais para processar a violação em massa como crime de genocídio" se não fosse por elas, ressaltou.

Apesar da situação no Iraque, uma pesquisa da Women for Women International indica que 90% das entrevistadas nesse país estão "muito otimistas sobre o futuro". Para Salbi, "isto é algo muito importante e não deve ser menosprezado". O estudo também mostra que 94% das mulheres são "inflexíveis" na convicção de que seus direitos legais devem ser protegidos. E isto tem de ser feito "não só pelo bem das mulheres, mas pelo bem do país. Se não conseguirmos, podemos perdê-las para forças mais fundamentalistas", advertiu Salbi.

Por outro lado, a ativista também considera essencial utilizar o julgamento de Saddam Hussein para iniciar "um processo dizer nossa verdade, documentando nosso passado no Iraque". Mas Salbi teme que o ditador "seja acusado somente por um punhado de delitos, e insistiu na oportunidade de incluir seus crimes contra as mulheres. "Este é um ponto muito importante em termos de estabelecer precedentes para futuros governos do Iraque e para a sociedade em conjunto, no sentido de que a violência contra as mulheres não será tolerada. Este julgamento é uma oportunidade histórica", afirmou Salbi. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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