Aids: A prevenção continua em falta

Buenos Aires, 23/11/2005 – A prevalência do vírus da deficiência imunológica adquirida (HIV) continua em alta na América Latina e no Caribe, embora tenha diminuído em zonas urbanas do Haiti e em pequenas ilhas vizinhas. A razão central do avanço da aids é a falta de políticas adequadas de prevenção. As boas e más notícias sobre a doença na região e no mundo constam do relatório "Situação sobre a Epidemia de Aids 2005", elaborado pela Organização Mundial da Saúde e pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids (Onusida), apresenta na segunda-feira em Buenos Aires para os países da língua hispânica.

Laurent Zessler, coordenador da Onusida para Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai, afirmou que a prevenção é chave para frear a expansão da pandemia e considerou, nesse sentido, que os Estados e os organismos da sociedade civil "não estão dando a solução adequada". O informe indica que a quantidade de portadores de HIV, causador da aids, na região passou de 1,6 milhão para 1,8 milhão entre 2003 e 2005. Também foi informado que 66 mil pessoas morreram no último ano vítimas da aids e que existem 200 mil novos infectados neste ano.

"Não vemos uma resposta excepcional que este problema requer", alertou Zessler, e apontou a grande quantidade de adolescentes latino-americanos sem acesso à informação sobre como se prevenir da doença nem a preservativos para evitar o contágio. Os maiores contribuintes para a epidemia na América Latina são três países grandes: Brasil, Argentina e Colômbia. Só o Brasil, com 184 milhões de habitantes, tem um terço dos infectados da região. O contágio se dá principalmente pelas relações sexuais sem proteção, um comportamento passível de ser modificado por meio de campanhas, segundo os especialista.

Entretanto, é nos pequenos países da América Central e do Caribe onde se registram as maiores porcentagens de infectados. Em Belize, Guatemala e Honduras, entre 1% e 2% dos adultos estão infectados, uma porcentagem elevada mesmo em relação à média regional de 0,6%, destacou Zessler. Dentro desse panorama geral negativo, o coordenador da Onusida comemorou o fato de a taxa da pandemia ter baixado nos países pobres da África, como Zimbábue, Burkina Faso e Quênia, bem como no Haiti, o país de menor desenvolvimento da América Latina e do Caribe, como também em Barbados, Bahamas, Bermuda, República Dominicana e em regiões de Cuba.

Apesar da pobreza e da acentuada instabilidade política no Haiti, entre 1993 e 2004 a prevalência do HIV caiu de 9% para 3,7% em mulheres das zonas urbanas do país. Essa tendência também foi observada em zonas rurais, embora em menor proporção. "O governo e a sociedade civil melhoraram suas respostas no Haiti, apontando para uma mudança no comportamento sexual", disse Zessler à IPS. Segundo o estudo, apresentado em preparação ao Dia Mundial de Combate à Aids, comemorado em 1º de dezembro, uma maior proporção de adultos desse país hoje se abstém de relações sexuais (de 7% a 11% em 10 anos) e também há uma porcentagem maior de pessoas com um único companheiro ou companheira (o índice passou de 37% para 45% entre os homens e de 20% para 32% entre as mulheres).

Por outro lado, ainda há muito a ser feito para adiar o primeiro contato sexual e estender o uso de preservativos. Os jovens do Haiti se iniciam sexualmente um ano e oito meses antes do que o faziam há seis anos. Junto a isso, também diminuiu o uso de preservativos na faixa etária de 15 a 24 anos. Em conversa com a IPS, José Maria Di Bello, coordenador do Programa HIV/aids da Cruz Vermelha argentina, considerou que é difícil adaptar a receita aplicada no Haiti para reduzir os índices da epidemia em toda a região, principalmente por razões culturais, mais do que de orçamento.

"Acreditamos ser impossível recomendar a abstinência e a fidelidade na América Latina porque isso implica um perfil ideológico que a maioria da sociedade rejeitaria", disse Bello. Entretanto, considerou muito importante centrar todas as campanhas no uso do preservativo. O ativista disse que em vários países da região também se deve batalhar contra o machismo. "Em nossas sociedades, o HIV/aids é uma epidemia que avança muito entre as mulheres, e isto se deve ao fato de muitas não se animarem a negociar o uso do preservativo", destacou.

Esta tendência à feminilização da epidemia na região também foi apontada como "alarmante" por Silvia Rucks, presidente do Grupo Interagencial do Sistema das Nações Unidas para HIV/aids na Argentina. Em Honduras, por exemplo, essa doença é a principal causa de morte entre mulheres. A doutora Lorena Di Giano, representante da Rede Argentina de Pessoas Vivendo com HIV/aids, exortou no sentido de levar o tema da educação sexual e da prevenção às escolas através de uma campanha constante."Se não informarmos as crianças e os adolescentes, estaremos violando seus direitos", afirmou.

A médica advertiu que no Brasil, Argentina, Chile, Cuba, México, Uruguai e Venezuela a cobertura para tratamento dos doentes estão mais estendidas do que em outros países da região. Porém, até agora não está garantido o acesso de todos os pacientes aos remédios necessários para a terapia. Sobre esta questão, alertou que nas capitais e grandes cidades o acesso é melhor do quem em localidades menores ou povoados, onde "as pessoas também se contagiam", disse. Entretanto, as autoridades locais ou provinciais não fazem nada para prevenir nem para dar assistência aos doentes. A especialista expôs a necessidade de "sensibilizar os empresários". Também afirmou que já não é por medo do contágio que se discrimina portadores de HIV, mas por "uma forma sub-reptícia de discriminação", disse, como o medo de que os tratamentos possam reduzir a produtividade da empresa. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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