Havana, 24/11/2005 – Mais de cem jornalistas de 14 países formaram uma rede que tenta burlar a censura, colocar a igualdade de gênero nos meios de comunicação e promover o uso de uma linguagem não sexista. A Rede Internacional de Jornalistas com Visão de Gênero nasceu na cidade mexicana de Morelia como um mecanismo horizontal e includente que continua as experiências de outras semelhantes, locais e regionais, surgidas nos últimos 10 anos. Concebemos a rede "como um espaço no qual confluem jornalistas de forma individual ou coletiva, de diferentes lugares do planeta, com o propósito de promover um jornalismo com perspectiva de gênero", afirma a ata de constituição da rede.
As integrantes são mais de cem mulheres jornalistas e comunicadoras da Argentina, Alemanha, Espanha, Itália, Peru, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, República Dominicana, Guatemala, Cuba, Estados Unidos e México. Mas a idéia é manter a porta aberta aos jornalistas homens que favoreçam uma visão do mundo, e da notícia, não sexista e que estejam dispostos a contribuir para uma mudança nos meios de comunicação. "Excluir os homens não nos beneficia, não nos fará avançar mais rápido ou irmos mais longe", afirmou a jornalista cubana Mirta Rodríguez Calderón, coordenadora em São Domingo da revista de gênero e comunicação A Primera Plana (Primeira Página). A seu ver, "ao fazer uma informação de mulheres, entre mulheres e para mulheres, caímos em um círculo de mudança sem mudança".
Por isso, embora a rede nascida no último dia 12 pretenda criar uma página na Internet e saboreie o sonho da abertura de uma agência internacional de informação, a idéia fundamental é influir nos meios já estabelecidos. "Não há meios grandes nem pequenos. Todos são importantes e têm seu próprio leitor", afirmou a jornalista mexicana Lucía Lagunas, diretora da associação civil Comunicação e Informação da Mulher (Cimac). Fundada na capital mexicana em 1988, a Cimac conta com uma agência de notícias da mulher, promove redes de jornalistas, elabora estratégias de meios para diversos atores da sociedade civil e realiza cursos de jornalismo não sexista. Entre os usuários da informação de mulheres elaborada pela Cimac figuram quatro agências internacionais de imprensa, mais de 40 meios de alcance nacional ou regional no México e outros tantos serviços alternativos.
Para conseguirmos isso, "só nos resta ser jornalistas profissionais, de primeira página", disse Sara Lovera, fundadora da Cimac e atual coordenadora nacional de pesquisa sobre o feminicídio no México. "Vimos os meios se encherem de mulheres e isso não os tornou diferentes. É preciso falar com os diretores e fazer com que entendam que, ignorando a condição das mulheres, se perde a metade da informação", afirmou Lovera. Trata-se de converter em notícia sucessos muitas vezes marginalizados da crônica vermelha ou das revistas femininas: o assassinato de uma mulher por seu marido, a menina violada que é obrigada a dar à luz, ou a contribuição econômica da dona de casa. Embora sejam mais da metade da população mundial, as mulheres protagonizam apenas 18% da informação jornalística gerada em 102 países, segundo um estudo mundial de meios de comunicação realizado em fevereiro.
A Federação Internacional de Jornalistas diz que no mundo existem cerca de 300 mil mulheres nesta profissão. Entretanto, poucas vezes elas chegam aos postos de tomada de decisão ou conseguem influir nas políticas editoriais. O funcionamento em redes, no entanto, facilita o livre fluxo de informação, o intercâmbio de experiências, a realização de campanhas de denúncia ou defesa de direitos e a publicação de materiais antes censurados. A nova rede internacional terá uma coordenação itinerante, que nesta primeira etapa será assumida pela Cimac. O processo integra a Rede de Jornalistas da América Central, México e Caribe; a Associação de Mulheres Jornalistas de Cataluña; a rede Européia de Mulheres Jornalistas e a Associação de Mulheres da Comunicação. Também estão presentes as redes nacionais de jornalistas do México, com experiência de 10 anos, a de São Domingos e a hispânica, de recente criação no Estado norte-americano da Flórida.
Fabiola Calvo, jornalista colombiana radicada na Espanha e uma das principais promotoras da rede internacional, estima que este também pode ser um mecanismo de defesa dos direitos das mulheres jornalistas dentro dos meios de comunicação. A seu ver, não se trata apenas de visualizar as condições das mulheres em geral, mas também da realidade das jornalistas. Elas também são vítimas de discriminação e violência onde trabalham. Nesse caminho, as fundadoras da nova rede internacional estabeleceram trabalhar pela promoção das profissionais a postos de direção, na criação de bolsas de emprego para jornalistas, na capacitação em gênero e em novas tecnologias. (IPS/Envolverde)

