Guatemala: A confraria do narcotráfico

Washington, 25/11/2005 – Cartéis que inundam os Estados Unidos de drogas recebem assistência e treinamento militar de membros dos antigos esquadrões da morte da Guatemala, que nos anos 80 gozaram do aval de Washington e massacraram cerca de 200 mil pessoas. A Patrulha Fronteiriça norte-americana esteve alerta desde julho. Suspeitava que soldados de elite guatemaltecos, tanto da reserva quando da ativa, treinavam narcotraficantes em território mexicano, em frente à cidade de McAllen, no Estado do Texas. A unidade guatemalteca, cujos 30 membros se autodenominam Os Kaibiles, em homenagem ao príncipe maia Kaibil Balam, é uma das forças militares mais temidas da América Latina. A eles são atribuídos muitos massacres que esse país centro-americano sofreu em 36 anos de guerra civil. Em setembro, as autoridades mexicanas anunciaram a prisão de sete kaibiles.

Entre os presos figuravam quatro membros ainda em atividade no exército. As autoridades mexicanas disseram que os kaibiles planejavam se integrar às Zetas, bando de soldados expulsos das forças especiais do México convertidos em narcotraficantes. Além de ser vizinha do México, "a Guatemala é o ponto de trânsito centro-americano preferido para o embarque de cocaína para os Estados Unidos", informa o Departamento de Estado desde 1999 em seus relatórios anuais enviados ao Congresso norte-americano. No início deste mês, representantes das autoridades antidrogas dos Estados Unidos na embaixada da Guatemala disseram à Associated Press que 75% da cocaína que chega ao território norte-americano é enviada daquele país. Mas o que é mais importante talvez é que a instituição dominante na Guatemala – o Exército – está ligado a esta atividade ilegal.

Nas últimas décadas, a agência antidrogas de Washington, a DEA, acusou militares guatemaltecos de todas as patentes e de todas as armas de introduzirem droga nos Estados Unidos, segundo documentos do governo obtidos pelo jornal The Texas Observer. O governo do presidente George W. Bush revogou há pouco o visto dos ex-comandantes da inteligência militar da Guatemala, os generais da reserva Manuel Antonio Callejas y Callejas e Francisco Ortega Menaldo, após acusá-los de narcotráfico. Ambos também foram os fundadores de um obscuro clube do comando de inteligência da Guatemala chamado La Cofradía, segundo informes secretos da inteligência norte-americana recentemente de "desclassificados". A Cofradía esteve encarregada de planejar parte da repressão das guerrilhas marxistas da Guatemala.

A Comissão da Verdade, criada depois da guerra civil pela Organização das Nações Unidas no contexto dos acordos de paz, constatou que as práticas desse grupo e dos tristemente célebres esquadrões da morte incluíam "atos de genocídio", como o massacre ou deslocamento da população de, pelo menos, 440 aldeias maias. Desde então, os mesmos comandos de inteligência converteram suas estruturas clandestinas em grupos organizados de criminosos, segundo a DEA e outros organismos de inteligência dos Estados Unidos. Suas atividades incluíam a importação de aparência legal na Guatemala de automóveis roubados nos Estados Unidos e a introdução de droga nesse país. Até agora, nem um único funcionário foi processado em nenhum dos dois países por crime internacional algum.

Altos funcionários de inteligência e legisladores de muitos países latino-americanos são suspeitos de operar clandestinamente com o crime organizado. Mas o que diferencia a Guatemala do resto é que os militares são acusados não só de proteger as grandes máfias, mas de liderá-las. A impunidade na qual os militares guatemaltecos acusados escapam à justiça começou durante a Guerra Fria. "Há uma longa história de impunidade na Guatemala", disse o legislador norte-americano William Delahunt, do opositor Partido Republicano e integrante do Subcomitê do Hemisfério Ocidental da Câmara de Representantes. "Os Estados Unidos contribuíram com isso de um modo muito desagradável em 1954 e também nos anos 80", afirmou.

Delahunt se referia ao apoio da Agência Central de Inteligência (CIA) ao golpe de Estado de 1954 contra o presidente democraticamente eleito Jacobo Arbenz, e também ao apoio encoberto dado ao exército pelo governo de Ronald Reagan (1981-1989), no pior momento da repressão. Funcionários guatemaltecos consideraram que Washington promoveu durante a guerra civil a estratégia de "drenar o mar para matar o peixe", pois ajudava militares e paramilitares que atacavam civis suspeitos de apoiar as guerrilhas de esquerda e não os próprios guerrilheiros. Desde então, equipes forenses exumaram numerosos cadáveres, inclusive de mulheres e crianças. Mais de 200 mil pessoas foram assassinadas na guerra civil da Guatemala, o conflito mais sangrento da América Central durante a Guerra Fria.

A violência deixou o exército firmemente no comando da Guatemala, e não demorou muito até que esse domínio chamou a atenção das máfias colombianas do narcotráfico. "Escolheram a Guatemala porque está perto do México, que é um óbvio ponto de entrada para os Estados Unidos e porque os mexicanos têm uma máfia de longa data", explicou um especialista legal andino. "Também é melhor para o trânsito e armazenamento de drogas do que El Salvador, por oferecer mais estabilidade e ser mais fácil de controlar", acrescentou. Os agentes especiais da DEA começaram detectando militares guatemaltecos que traficavam drogas já em 1986, segundo documentos secretos dessa agência de acordo com a Lei de Liberdade de Informação dos Estados Unidos.

Foi então que Menaldo ocupou o lugar Callejas como chefe da inteligência militar da Guatemala. Nos nove anos seguintes, segundo os documentos norte-americanos, agentes especiais da DEA detectaram pelo menos 31 funcionários envolvidos em atividades de narcotráfico. "Todos os caminhos levam a Menaldo", disse um especialista norte-americano no assunto. "Os funcionários hoje em atividade têm vínculos com os da reserva, que são seus mentores". Em 2002, o governo Bush foi pressionado para tomar medidas contra altos militares guatemaltecos envolvidos no narcotráfrico, incluída a revogação do visto de Menaldo. Na época, o general havia rechaçado a acusação norte-americana e lembrava a jornalistas que o entrevistaram na Guatemala que nos anos 80 havia colaborado tanto com a CIA quanto com a DEA.

A CIA, através de seu porta-voz, Mark Mansfield, se negou a fazer comentários para o presente informe. Oito meses depois de revogar o visto de Menaldo, Washington voltou a esgrimir suspeitas de tráfico de drogas para revogar o visto de Callejas. Entretanto, mais do que fazer frente à impunidade de que gozam os militares guatemaltecos para traficar drogas, muitos funcionários do país parecem ir em direção oposta em tempos de democracia. Não muito depois de o governo Bush ir contra Menaldo e Callejas, legisladores da Frente Republicana Guatemalteca, partido de direita, hoje na oposição, fundado pelo também general da reserva Efraín Ríos Montt, propuseram projetos de lei para eliminar o controle civil sobre os militares acusados perante a justiça penal.

"Isto seria um novo mecanismo de impunidade", disse José Zeitune, da Comissão Internacional de Juristas, organização com sede em Genebra, autor de um informe realizado sobre a justiça guatemalteca. Montt foi o líder do golpe de Estado com o qual tomou a Presidência em 1982, precisamente quando os membros da La Cofradía começavam a atacar seu poder. O atual vice-presidente do Subcomitê do Hemisfério Ocidental da Câmara de Representantes dos Estados Unidos é o republicano Jerry Weller III, casado com uma filha de Montt e legisladora guatemalteca Zury Ríos Sosa. Ao contrário de outros membros do Subcomitê, Weller, através de seu porta-voz, Telly Lovelace, se negou a fazer comentários para o presente informe.

Além disso, Montt é o mentor do ex-presidente guatemalteco Alfonso Portillo (2000-2004), hoje foragido no México, tendo fugido tão logo deixou o cargo para evitar ser preso por malversação de fundos e outras acusações de corrupção. Hoje, as obscuras estruturas dos comandos de inteligência da Guatemala estão tão inseridas no crime organizado que o governo Bush requereu a intervenção das Nações Unidas. Deixando de lado suas habituais críticas a esse fórum mundial, Washington apóia a criação na Guatemala da chamada Comissão Para a investigação de Organizações Armadas Ilegais e do Aparelho de Segurança Clandestino.

Até agora, a única nação disposta em ceder sua soberania para permitir à ONU uma função investigadora é o Líbano, onde membros da ONU investigam o assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri. O plano proposto pelas Nações Unidas para a Guatemala também tem o apoio do presidente, Oscar Berger, um rico fazendeiro e advogado respeitado pelo governo dos Estados Unidos. Mas a idéia encontra resistência entre políticos da FRG, com Zury Ríos Sosa.(IPS/Envolverde)

(*) O jornalista independente Frank Smyth investiga o narcotráfico guatemalteco desde 1991. É colaborador do projeto Crimes de guerra (http://www.crimesofwar.org), junto com outros destacados jornalistas, advogados e acadêmicos. Costuma publicar seus artigos no site http://www.franksmyth.com . Uma versão mais extensa deste informe foi publicada este mês pelo jornal The Texas Observer.

Correspondentes da IPS

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