Washington, 24/11/2005 – O vice-presidente dos Estados Unidos, Dick Cheney, assumiu a tarefa de defender seu chefe, o presidente George W. Bush, atacando os críticos que reclamam cada vez com maior força a retirada das tropas do Iraque. Cheney disse na segunda-feira no auditório do centro de estudos neoconservador American Enterprise Institute que a sugestão de "alguns senadores" de que Bush "enganou" de propósito o povo norte-americano" antes da guerra no Iraque é "desonesta e repreensível". "Qualquer insinuação de que a informação anterior à guerra foi distorcida, exagerada ou fabricada pelo lide da nação é completamente falsa", afirmou o vice-presidente em sua segunda aparição pública em menos de uma semana. "Este revisionismo é do tipo mais corrupto e desavergonhado", concluiu.
Porém Cheney tentou, em geral, concentrar seu discurso de segunda-feira nas desastrosas conseqüências que, segundo ele, teria a retirada dos Estados Unidos do Iraque. Nesse caso, previu, a rede terrorista Al Qaeda tomaria o poder nesse país. "Os Estados Unidos e outras nações livres estariam melhor ou pior com Abu Musaba al-Zarqawi, Osama bin Laden e Ayman al-Zawahiri controlando o Iraque?", perguntou. "Estaríamos mais ou menos seguros com o Iraque governado por um homem que pretendia destruir nosso país?". Cheney se retirou do American Enterprise Institute sem responder perguntas, algo raro em se tratando da audiência mais amigável possível para o vice-presidente.
Nos últimos meses, a aprovação da gestão de Cheney caiu, segundo as pesquisas, de maneira mais abrupta e acelerada do que a de Bush: apenas 19% dos entrevistados disseram ter uma opinião favorável sobre ele. Ex-funcionários do governo Bush e legisladores do opositor Partido Democrata identificaram o escritório do vice-presidente como um centro de manipulação de dados de inteligência com o fim de fabricar argumentos para a guerra no Iraque. O vice-presidente também se opôs com força ao projeto legislativo que proibiria funcionários norte-americanos de cometer atos de tortura e desumanos em território estrangeiro, o que fez cair sobre ele críticas tanto de republicanos quanto de democratas.
A aparição pública de Cheney foi a última de uma nutrida série de altos funcionários do governo, incluindo o próprio Bush, o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, e o conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Stephen Hadley. A intenção foi dupla. Em primeiro lugar, procuraram refutar as acusações sobre manipulação de dados de inteligência antes da guerra no Iraque, para convencer a população norte-americana de que o regime de Saddam Hussein mantinha programas de armas de destruição em massa e ligações com a Al Qaeda. Em segundo lugar, tentaram se contrapor à pressão sobre o Congresso para que retire uma quantidade substancial de soldados norte-americanos do Iraque antes das eleições legislativas do próximo mês.
Os dois assuntos não têm ligação direta. Mas as pesquisas indicam que uma porcentagem semelhante dos entrevistados acredita que houve engano antes da invasão e que as tropas devem se retirar mais cedo do que mais tarde. O governo foi pego com a guarda baixa no começo da semana passada. Uma maioria dos senadores republicanos uniu-se aos democratas para votar em favor da norma que estabelece prazos para a transferência das funções de segurança no Iraque durante o próximo ano. Essa votação foi interpretada como um sinal de pouca confiança no oficialismo quanto à condução da guerra por parte do presidente Bush.
Mas o pior para o governo chegou quanto a semana terminava e o representante democrata John Murtha reclamou a retirada dos 150 mil soldados norte-americanos do Iraque no prazo de seis meses a partir das eleições de 15 de dezembro. Segundo o plano de Murtha, permaneceria no país do Golfo uma força de reação rápida composta por fuzileiros navais para impedir que Al Qaeda ou associados tomem o poder ou usem o território iraquiano. O governo e os legisladores republicanos reagiram com fúria e acusaram Murtha, ele mesmo um fuzileiro naval condecorado, de "bater e fugir" e de ajudar o inimigo.
Depois de um intenso debate na Câmara de Representantes na semana passada, os dirigentes do Partido Republicano pareceram se dar conta de que atacar uma figura como Murtha foi um erro, a ponto de o próprio Bush ter no domingo saído a público e qualificá-lo de "homem fino e bom". Cheney fez o mesmo perante a American Enterprise Institute: "Murtha, afirmou, é "um homem bom, um fuzileiro, um patriota, e tem uma posição clara em uma discussão legítima". Mas depois se lançou ao ataque dos que afirmam que seu governo influiu nos argumentos para ir à guerra e daqueles que cometem um ato de "pessimismo contraproducente" de promover a retirada das tropas.
"A única chance de vitória dos terroristas é que fujamos da luta. Eles desprezam nosso valores, duvidam de nossas forças e acreditam que os Estados Unidos perderão a coragem e baixarão a guarda", afirmou. O vice-presidente citava uma carta supostamente escrita pelo número dois da Al Qaeda, Ayman al-Zawahiri, destinada ao líder da organização no Iraque, al-Zarqawi, e, segundo o governo Bush, interceptada por forças norte-americanas em julho. "Mas esta nação decidiu não recuar diante da brutalidade e nunca viver à mercê de tiranos ou terroristas", afirmou. Cheney também argumentou que tanto democratas quanto republicanos autorizaram no Congresso ações militares contra Saddam Hussein em outubro de 2002, ao considerar que os supostos programas armamentistas iraquianos constituíam uma "ameaça".
Mas desta vez o vice-presidente não garantiu – como em ocasiões anteriores – que os legisladores teriam, então, examinado os mesmos dados de inteligência que o governo possuía antes da guerra. Essa afirmação foi rechaçada por democratas, boa parte da imprensa e, inclusive, alguns republicanos. Por outro lado, em sua intervenção perante o American Enterprise Institute Cheney se concentrou na questão das armas, sem se referir em nenhuma oportunidade aos também desmentidos vínculos estreitos entre o regime de Saddam e a Al Qaeda.
De todo modo, as referências à rede terrorista sugerem que Cheney e seus aliados neoconservadores se consideram a última barreira ao colapso total da política norte-americana no Iraque. O mesmo asseguraram nos últimos dias importantes figuras do setor neoconservador do governo, como Richard Perle e Bill Kristol. "Perder contra os terroristas no Iraque seria intolerável. A retirada imediata do Iraque é a receita da catástrofe", escreveram a quatro mãos Kristol e o também neoconservador Robert Kagan, no editorial da revista The Weekly Standard desta semana. Visto de outra perspectiva, a intensa atividade dos defensores da guerra em torno desse argumento testemunha a abruta mudança do clima político em Washington. (IPS/Envolverde)

