Ambiente: Sudeste asiático unido contra o tráfico de flora e fauna

Bangcoc, 25/11/2005 – Os governos do sudeste da Ásia instalarão armadilhas virtuais transfronteiriças para pegar traficantes de fauna e flora, que colocam em risco de extinção numerosas espécies em troca de um punhado de milhares de milhões de dólares. A Rede de Agências de Segurança de Flora e Fauna da Asean (Aseanwen) já é considerada por organizações conservacionistas internacionais a maior do mundo em seu tipo. "Será a maior rede em quantidade de países envolvidos, mais do que as existentes na Europa, África e América", disse à IPS Tim Redford, diretor na Tailândia da organização WildAid. A Asesan (Associação de Nações do Sudeste Asiático) está integrada por Birmânia, Brunei, Camboja, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Cingapura, Tailândia e Vietnã.

No contexto da nova rede, as autoridades policiais encarregadas de investigar crimes contra a flora e fauna de seus respectivos países poderão trabalhar diretamente com seus pares na região para reprimir o tráfico ilegal de animais e vegetais. "Isto reduzirá as restrições que hoje limitam a investigação policial desses crimes. A prática predominante é que os policiais de países distintos estabeleçam contato somente através das chancelarias", explicou Redford. O plano inclui maior intervenção das aduanas na repressão a esse tráfico. Dentro dos seis meses posteriores à reunião prevista para o final do mês, "haverá novas barreiras para esse tráfico na Asean".

Grande quantidade de animais da região está em risco de extinção por causa da cobiça dos grupos de traficantes ativos há décadas. "Seus integrantes não são apenas das populações locais, mas também alheias a estas", disse á IPS o chefe de cientistas da União Mundial para a Natureza (UICN), Jeffrey McNeely. "Agora há mais pressão sobre a vida silvestre do Vietnã do que durante a guerra. Existe um grande mercado na China, e o sudeste asiático é o principal centro de fornecimento para essa demanda", afirmou o especialista. O Banco Mundial chamou a atenção para esta tendência em julho, ao divulgar um informe intitulado "Vai… vai… foi: Tráfico ilegal de flora e fauna no leste e sudeste da Ásia".

"O comércio e a caça ilegais atingiram níveis críticos na medida em que a popularidade da medicina tradicional chinesa se amplia, em parte pelo aumento da riqueza pessoal e pelo status que confere o consumo de espécies raras e exóticas", segundo o relatório. Os animais e vegetais em estado natural ou suas partes são procurados pela população local e pelos turistas para fazer pratos e engrossar coleções ou como mascotes, troféus, elementos de decoração, bijuteria e medicamentos tradicionais.

Somente no Vietnã, este tráfico foi estimado em US$ 66,5 milhões em 2002. No ano passado, as autoridades chinesas confiscaram a pele de 31 tigres, avaliadas em mais de US$ 1,2 milhão, segundo o informe do Banco Mundial. "Estima-se que hoje se encontram em estado natural apenas 50 tigres na China", prossegue o documento. E mais de 50 foram mortos a cada ano na ilha indonésia de Sumatra entre 1998 e 2002, acrescenta. Também os pangolins, mamíferos desdentados cobertos de escamas que costumam rolar para se defender, são alvo de intensa caça, mas tendo como destino a América. Entre 1993 e 2003, mais de 80 desses animais foram traficados do Laos especialmente para Estados Unidos e México, segundo o documento.

A UICN confirmou que várias espécies estão muito perto da extinção, apesar das advertências emitidas, em alguns casos, há quase três décadas."O rinoceronte de Sumatra e o Kouprey (ou boi cinza, ou da boi da floresta) já quase não existe", disse McNeely. As manadas de rinoceronte de Java e de búfalo de água foram "seriamente reduzidas", acrescentou. Hoje, a população remanescente de koupreys está reduzida a 250 animais, segundo a última "Lista vermelha de espécies ameaçadas" da UICN. "A caça, tanto de subsistência quanto para o tráfico de carne e partes, como chifre e crânio, é a maior ameaça ao kouprey", advertiu a organização.

Não restam dúvidas de que os conservacionistas aplaudem a era de cooperação internacional no sudeste asiático. "Os elementos criminosos que controlam o comércio ilegal de fauna e flora ganharam por muito tempo", disse John Sella, especialista em tráfico do órgão que controla o cumprimento da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Flora e Fauna Silvestres (CITES). Ao se concentrar o tráfico, a Aseanwen têm chances de liderar uma resposta coordenada que desmantele as organizações de traficantes, ressaltou Sellar. (IPS/Envolverde)

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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