Rússia: A Duma contra o "extremismo religioso"

Moscou, 29/11/2005 – O parlamento da Rússia prepara leis para controlar organizações religiosas de caráter missionário ou proselitista, por considerá-las suspeitas de propagarem o extremismo. "A crescente tendência em direção ao extremismo religioso se deve, sobretudo, à expansão de religiões estrangeiras", disse à IPS Vladimir Kulitchesky, membro do Comitê sobre Organizações Sociais e Religiosas da Duma (câmara baixa do parlamento). Nos últimos 10 anos, a quantidade de organizações religiosas estrangeiras registradas na Rússia aumentou de 20 para 69, afirmou. O Ministério da Justiça, por seu lado, examina medidas radicais para garantir o controle sobre estas instituições, informou o jornal Vedomost. As normas sobre vistos para missionários estrangeiros ficarão mais rígidas e será facilitado o fechamento de centros religiosos, informou a publicação.

O projeto apresentado ao Comitê da Duma em outubro assegura em sua exposição de motivos que a Rússia está exposta a uma "expansão religiosa estrangeira", e para fundamentar esta afirmação recorre a um informe oficial de janeiro de 2000 que traça os vínculos entre esse fenômeno e a espionagem internacional. O presidente Vladimir Putin havia advertido nessa oportunidade contra "a influência negativa das organizações religiosas e de missionários estrangeiros", e ainda da "expansão cultural-religiosa dentro de território russo". Desde então, as autoridades expulsaram muitos ativistas religiosos, entre eles mórmons, budistas, judeus, testemunhas de Jeová, evangélicos e membros de grupos missionários ocidentais.

Religiosos e organizações de direitos humanos alertam que tais medidas violariam a liberdade de associação pacífica e de credo, garantidas pela Constituição russa. A Igreja dos Santos dos Últimos Dias (mórmons) sofre intensas pressões. Funcionários do governo manifestaram apreensão a respeito dos missionários desta igreja, ativos na maior parte do território russo. Os mórmons estão presentes na Rússia desde 1989, e desde então gozaram de um constante crescimento. "As autoridades não limitam diretamente nossas atividades porque possuímos registro legal e nosso trabalho se concentra em pessoas angustiadas, às quais proporcionamos valores sociais", disse à IPS o porta-voz desta igreja, Andrey Filimonov.

A Sociedade Internacional Budista, que conta com um milhão de filiados, considerou que a iniciativa em estudo na Duma destruirá o tecido moral da sociedade. "Tanto nós quanto a sociedade civil seremos afetados", disse à IPS o líder da Sociedade, Sanjai Lama Balgerof. "Em um país moderno e democrático como a Rússia não é necessário impor tais restrições", acrescentou. Para garantir a liberdade religiosa é preciso levar em conta as minorias, acrescentou. Um informe do governo norte-americano destinado ao Congresso em Washington adverte que as autoridades federais e locais da Rússia impuseram normas ou políticas que supõem uma discriminação contra as minorias religiosas. O Kremlin rechaçou esta afirmação.

"A chancelaria está desconcertada pela insistência com que o Departamento de Estado norte-americano tenta rotular este país como nação com problemas para garantir a liberdade religiosa", disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mikhail Kamynin. "Nossa posição a respeito é bem conhecida", acrescentou. "Em várias ocasiões demos explicações a nossos pares norte-americanos em diversos níveis sobre as críticas feitas contra a Federação Russa, expressas ano após ano pelo Departamento de Estado. No entanto, o informe não desacredita por completo as autoridades russas. "Estamos minuciosamente a par deste informe. Devo dizer que embora suas conclusões me despertem sérias dúvidas, creio que a seção analítica é muito positiva", disse o chefe do Rabinato da Rússia, Berel Lazar.

O informe reconhece melhorias nas liberdades religiosas na Rússia, e "isso, é claro, a respeito de todos os credos tradicionais (cristão ortodoxo, islã, judaísmo e budismo) bem como no tocante a outros grupos e comunidades religiosas", afirmou. Segundo o estudo do Departamento de Estado, os regulamentos que permitem a proscrição de organizações religiosas muito raramente são aplicadas, mesmo quando se trata de igrejas e seitas que mantêm conflito com autoridades locais. A restituição de propriedades a comunidades religiosas também mereceu uma nota positiva no informe. "De todo modo, me surpreendem as conclusões que se deduz desta análise", afirmou o rabino Lazar.

"É difícil entender como o Departamento de Estado pinta a situação como desfavorável quando admite que as dinâmicas são tão positivas se, em 15 anos, a Rússia se elevou de uma ditadura de ateísmo agressivo até converter-se em um Estado que reconhece a necessidade de restaurar a espiritualidade religiosa e que dá liberdade a milhares de comunidades", concluiu Lazar. Mas se for aprovada, a nova legislação imporá controles mais férreos sobre essas comunidades. (IPS/Envolverde)

Kester Kenn Klomegah

Kester Kenn Klomegah is the IPS Moscow correspondent. He covers politics, human rights issues, foreign policy and ethnic minority problems. His research interests include Russian area studies and Russian culture. Kester has worked for several years with the Moscow Times. He has studied social philosophy and religion and spent a year at the Moscow State Institute of International Relations. He is co-author of ‘AIDS/HIV and Men: Taking Risk or Taking Responsibility’ published by the London-based Panos Institute. In 2004, he was awarded the Golden Word Prize for excellence in journalism by the Russian Media Union, a non-governmental media organisation in Moscow.

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