Clima: Menos palavras e mais ação

Toronto, 30/11/2005 – Na qualidade de anfitrião de duas reuniões sobre mudança climática, o Canadá assumiu o papel de líder na tentativa de colocar em marcha o Protocolo de Kyoto. Assim, pressiona outros governos para que reduzam drasticamente suas emissões de gases causadores do efeito estufa. Entretanto, a situação canadense é embaraçosa, pois suas próprias emissões chegaram a 24,2% entre 1990 e 2003, enquanto a de outros dois grandes emissores, Alemanha e Grã-Bretanha, caíram, segundo informou este mês a Organização das Nações Unidas.

A XI Primeira Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática e a Primeira Reunião das Partes do Protocolo de Kyoto começaram em Montreal nesta segunda-feira e se estenderão até o próximo dia 9. O informe mostrou que nos países industrializados as emissões de gases que provocam o efeito estufa (responsáveis pelo aquecimento do planeta) diminuíram, em média, 5,9%. Mas essa proporção se explica, principalmente, pela significativa redução das emissões na Alemanha (18,2%) e Grã-Bretanha (13,3%).

Por outro lado, o aumento de 24,2% das emissões canadenses superou inclusive os 13,3% dos Estados Unidos, apesar de o presidente George W. Bush ter retirado a assinatura do governo norte-americano do Protocolo de Kyoto. Isto significa que, se o Canadá pretende cumprir seus compromissos de Kyoto, até 2008 deverá reduzir em 35% suas emissões, um número muito ambicioso a julgar pelo que foi feito até agora. A maioria dos cientistas atribui o atual ciclo de aquecimento do planeta à ação humana, especialmente à geração de gases causadores do efeito estufa em razão da queima de combustíveis fósseis, como petróleo, gás e carvão em processos industriais, de transporte e domésticos. O Protocolo de Kyoto estabelece metas de redução das emissões desses gases para os países do Norte industrializados.

"Apesar dos fortes compromissos públicos, a falta de ação do Canadá joga por terra sua credibilidade", disse Dale Marshall, analista de política de mudança climática da não-governamental Fundação David Suzuki, do Canadá. Dessa forma, "outros países questionam a liderança canadense a respeito da mudança climática", disse Marshall. Consideradas as reuniões sobre mudança climática mais importantes desde a de Kyoto, em 1997, as de Montreal têm o objetivo de implementar os primeiros instrumentos para a redução de emissões de acordo com o Protocolo e para abrir as negociações com vistas a reduções mais profundas depois de 2012. O Protocolo de Kyoto entrou em vigor em fevereiro, quando a Rússia o ratificou.

No entanto, Kyoto foi só o começo. São necessárias reduções muito maiores para impedir uma mudança climática perigosa e imprevisível, disse Marshall. Muitas organizações ambientais concordaram. "As últimas descobertas científicas indicam que um aumento superior a dois graus na temperatura mundial é um ponto crítico com conseqüências potencialmente catastróficas", disse Matthew Bramley, do não-governamental Instituto Pembina. Na semana passada, esta organização ambientalista apresentou propostas de mecanismos para conseguir profundas reduções nas emissões de gases que causam o efeito estufa. As temperaturas globais médias aumentaram cerca de 0,7 graus nos últimos cem anos, mas o ritmo está se acelerando.

A União Européia também aprovou o limite de dois graus. Como o aquecimento tem maior impacto no hemisfério norte, esse limite quase seguramente significará temperaturas quatro ou seis graus mais elevadas no Canadá setentrional, capazes de derreter gelos. O Canadá necessita reduzir em 25% suas emissões em relação aos índices de 1990 até 2020, e 80% até 2050, disse Bramley à IPS. "Um ponto percentual a menos e o Canadá fracassará em sua tentativa de influir internacionalmente", disse, acrescentando que todos os países industrializados terão de fazer reduções semelhantes.

Porém, mais do que reduções obrigatórias das emissões, como as impostas em Kyoto, os sinais dados por várias delegações em Montreal indicam um alento aos investimentos em novas tecnologias e acordos de adaptação e reduções voluntárias. Profundas reduções nas emissões da ordem de 60% a 80% para 2050 se tornam necessárias em muitos países, concordou Alex Manson, diretor-geral do Escritório Ambiental de Mudança Climática no Canadá. Mas, antes de tudo, este país tem o grande desafio de cumprir seus compromissos assumidos em Kyoto em 1997, quando concordou em reduzir suas emissões anuais em 6% com relação a 1990, e antes de 2012.

Nos últimos anos, o Canadá se converteu no maior fornecedor de petróleo dos Estados Unidos, o que está por trás de boa parte do aumento nas emissões, explicou Manson. Com 2,1 milhões de barris por dia, o Canadá fornece aproximadamente 10% do consumo norte-americano. Mais da metade do petróleo canadense procede de areias com alcatrão. O processo de extração requer a delimitação de faixas de solo e rochas de centenas de milhares de hectares e depois, com água fervendo, separa-se o alcatrão. É um processo caro e intensivo do ponto de vista energético. Um barril de petróleo enviado aos Estados Unidos a partir de areias com alcatrão gera 25% mais de gases causadores do efeito estufa do que um barril procedente da Arábia Saudita.

Pretende-se que a expansão multimilionária em dólares do setor da areia petrolífera atenda a contínua demanda dos Estados Unidos, bem como as exportações para outros países sedentos, como Japão e China. Isso fará com que as emissões sejam ainda maiores. No início deste ano, o Canadá anunciou um plano de US$ 10 bilhões para cumprir seus compromissos assumidos em Kyoto. Mas críticos do "Projeto Verde" disseram que se coloca a carga das reduções sobre os ombros dos contribuintes canadenses. Os grandes emissores de gases que levam ao aquecimento global, como a indústria do petróleo e gás, são responsáveis por cerca da metade das emissões do país, mas seu objetivo de concretizar as reduções fica em apenas 12% do total necessário.

O Projeto Verde reconhece a pouca disposição canadense em reduzir as emissões internas e destina milhares de milhões de dólares para a compra das chamadas compensações ou créditos de carvão. Por exemplo, pelo Protocolo de Kyoto o Canadá pode reflorestar partes da Costa Rica, ganhando créditos para compensar algumas de suas emissões em seu próprio território. Por esse motivo, concretizar a redução interna de emissões estimada pode custar aos canadenses entre US$ 1 bilhão e US$ 3 bilhões anuais. Esta redução pode aumentar facilmente se os muitos programas de redução voluntária não funcionarem tão bem quanto o governo espera, disse Marshall.

Gastar milhares de milhões na compra de créditos no exterior não só causarão uma erosão no forte apoio público a Kyoto, como também pouco fará para ajudar o Canadá a transformar sua economia para que possa fazer as profundas reduções necessárias nas próximas décadas, acrescentou. Será necessária uma mudança transformadora da economia canadense, concordou Manson. As novas tecnologias, que capturam o dióxido de carbono das usinas de carvão e outras fontes e as bombeiam subterraneamente serão necessárias para poder fazer profundas reduções nas emissões, disse. "No futuro, o Canadá, como todos os demais, terá de emitir 15% menos de gases causadores do efeito estufa do que hoje". O desafio é como fazer isso e ter um produto interno bruto que seja comparável com o que o país tem agora, afirmou. (IPS/Envolverde)

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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