América Latina: Como enfrentar as graves ameaças da mudança climática

Washington, 29/11/2005 – Katrina e Rita nos mostram uma nova face dos furacões. A cobertura dos meios de comunicação foi além das casas e negócios prejudicados ou dos litorais arrasados e se concentrou nas perdas de vidas humanas. Claramente, os furacões gêmeos se constituíram em terríveis acontecimentos, mas não foram os únicos registrados recentemente. Durante os mesmos dias do furacão Rita, o tufão Damrey atingiu o Vietnã e o sul da China e centenas de milhares de pessoas tiveram de abandonar ou perderam suas casas e meios de sustento. Uma semana depois, o furacão Stan causou grandes deslizamentos de terra que sepultaram mais de mil aldeias e povoados na Guatemala e provocaram o deslocamento de outras dezenas de milhares de pessoas.

Ao avaliar as consequências destes desastres torna-se evidente que em todas as partes as comunidades pobres são as mais vulneráveis e que os prejuízos atingem mais duramente os que possuem menos rercursos. Os custos humanos e econômicos de tais desastres sao tremendos. Na década passada, 2,5 milhões de pessoas dos países subdesenvolvidos foram afetadas por desatres climáticos. As estimativas sobre as seqüelas de um único furacão, o Katrina, indicam que os danos em casas, estabelecimentos comerciais e infra-estrutura oscilam entre US$ 100 bilhões e US$ 200 bilhões, com dezenas de milhares de milhões mais de reclamações em matéria de seguros.

É de se imaginar, então, as conseqüências dos desastres climáticos em países com menos capacidade para enfrentar o problema, com instituições frágeis e rudimentares sistemas de emergência. Segundo uma pesquisa do Banco Mundial, cerca de US$ 4 bilhões anuais dos investimentos do próprio banco estão expostos a riscos relacionados com o clima e devem ser gastos cerca de US$ 500 milhões ao ano para enfrentar esse tipo de desastre.

Segundo os especialistas em clima, vários dos últimos anos foram os mais quentes já registrados. Mudaram os padrões das chuvas, os níveis dos mares aumentaram e a maioria das geleiras não polares estão derretendo. No ano passado, as inundações devastaram partes da Europa Central, Ásia Central, Índia e sul da China, enquanto secas prolongadas assolaram partes dos Estados Unidos, Europa Ocidental e leste da África. Todos estes acontecimentos climáticos extremos, apesar de serem fundamentalmente imprevisíveis, representam uma tendência de intensidade crescente que os cientistas haviam previsto há anos como resultado do aquecimento global. Prevê-se que nosso clima mudará ainda mais nas próximas décadas.

Em resumo, o que estamos vivendo é apenas o começo. Essas mudanças se devem, majoritariamente, às nossas próprias atividades. Portanto, a amplitude do aquecimento do planeta dependerá em parte do caminho que escolhermos para o desenvolvimento. Devemos empreender rapidamente ações para reduzir nossas emissões de gases causadores do efeito estufa. Segundo os líderes do G-8, devemos nos dirigir para uma economia de baixo carbono e nisso a atividade comercial tem de desempenhar um papel central. Há oportunidades para fazer negócios de modo saudável, competitivo e lucrativo tanto nos países ricos quanto nos pobres, mediante a descoberta e implementação de medidas para reduzir as emissões desses gases.

Tornar-se mais eficiente em matéria energética é claramente positivo para todos, já que menores custos em energia equivalem a maiores lucros. As companhias estão se dando conta disso, e também de que ignorar a mudança climática pode ser um erro grave. Um relatório de setembro passado da Carbon Disclosure Project, uma coalizão de investimentos institucionais com mais de US$ 21 bilhões em ativos, mostrou que mais de 90% das 354 companhias pesquisadas disseram que a mudança climática apresenta riscos comerciais e/ou oportunidades. Também revelou que 63% dessas empresas estão avaliando os efeitos da mudança climática e as estratégias institucionais para reduzir as emissões de gases que causam o efeito estufa.

Recentemente, a General Electric anunciou seu novo programa, denominado Ecomagination, para fabricar produtos com emissões reduzidas desses gases que, segundo estima, lhe renderá US$ 20 bilhões de lucro até 2010. Intel e Deutsche Telekom economizam US$ 10 milhões ao ano através da conservação de energia, sendo que a Intel publicou recentemente suas próprias metas em matéria de redução de emissões. Muitos empresários no Brasil e na Índia analisam o mercado de comercialização de emissões de gases, e por meio de reduções voluntárias de suas próprias emissões esperam poder vender milhares de milhões de dólares dos chamados créditos de carbono.

Mais de 42 companhias participam de um programa do Banco Mundial que lhes permite comprar reduções de emissões em países sócios. O programa entrega créditos de carbono a empresas das nações desenvolvidas para que possam cumprir seus compromissos ambientais, enquanto se fornece benefícios sustentáveis aos países mais pobres. As companhias podem ajudar a transformar os setores energéticos e industriais nos países em desenvolvimento por meio da transferência de tecnologias limpas e a gerar créditos de carbono comercializáveis. Também pode ajudar a limitar as atividades com emissões de carbono em sistemas florestais e agrícolas e ainda a formar associações para desenvolver as tecnologias e a capacidade para controlar as emissões.

É uma combinação ganhadora, com melhoria para os de baixo, reduções dos gases que levam ao efeito estufa e uma contribuição para o desenvolvimento sustentável no mundo em desenvolvimento. Ao fazer isto, aproveitaremos o melhor do melhor que temos: nossa capacidade criadora para conceber soluções práticas que permitam conciliar o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental. (IPS/Envolverde)

(*) Warren Evans é diretor do Departamento de Meio Ambiente do Banco Mundial, e Julie Fox Gorte é vice-presidente do Calvert Group Ltd.

Correspondentes da IPS

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *