Lashkargah, Afeganistão, 20/12/2005 – Ao mesmo tempo em que o Afeganistão assistia nesta segunda-feira a abertura do novo parlamento em Cabul, toda a atenção estava voltada para a legisladora Malalai Joya, de 27 anos, consolidada como crítica implacável dos "senhores da guerra" que controlam este país. Em 2003, Joya, que trabalhava na alfabetização e atenção médica para mulheres, aproveitou uma reunião pública para dar sua opinião sobre a nova Constituição e denunciar os líderes das diferentes facções como "criminosos" que deviam ser levados a julgamento perante o Tribunal Internacional Penal. Logicamente, seu discurso lhe valeu numerosos inimigos.
Apesar de sua imensa popularidade, que a levou a vencer por esforço próprio nas eleições parlamentares de setembro, pela província de Farah, Joya raramente viajava sozinha. Em geral, era acompanhada por, no mínimo, 12 seguranças pessoais (houve, pelo menos, quatro tentativas de assassiná-la) e em público sempre veste a burca (Traje tradicional das mulheres que as cobre desde a cabeça, incluindo o rosto, até os pés). Mas em determinadas ocasiões mostra seu rosto, como pode-se ver em seu site http://www.malalaijoya.com/index1024.htm
Além da contínua violência exercida pelos senhores da guerra em boa parte do país, o Afeganistão continua ocupado militarmente pelos Estados Unidos, e uma força militar e policial multinacional atua na capital e arredores. "A violência contra as mulheres é algo constante e generalizado", diz um relatório da Anistia Internacional, de maio. A expectativa de vida das mulheres afegãs é de apenas 45 anos. "As mulheres e as meninas afegãs vivem sempre sob risco de serem seqüestradas e violentadas por indivíduos armados, forçadas a casar contra sua vontade e trocadas para resolver disputas e saldar dívidas. Devem enfrentar a discriminação diariamente por parte de todos os segmentos sociais e das autoridades estatais", diz o documento.
A agência independente de notícias Pajhwok Afghan News informou no último dia 6 que os crimes violentos contra as mulheres continuavam em alta tanto na província do sudeste de Helmand (Lashkargah é sua capital) quanto em Kapisa, no norte do país. Em alguns casos, as mulheres foram golpeadas até à morte por seus maridos ou parentes masculinos. Também há muitas denúncias de torturas ocorridas em vários distritos de Halmand, incluídos Baghran, Baghni, Nad Ali e Washir. A maioria das vítimas foi entregue como esposa à moda de "swara" para resolver alguma disputa familiar, uma prática cruel muito comum entre as tribos do Afeganistão e de seu vizinho Paquistão.
Bibi Shirinai, de 65 anos, residente no distrito de Marja, lembra a tragédia de uma vizinha sua, que foi entregue pelo pai para resolver um desacordo. "Seu marido a tortura", conta. "Agora seu sofrimento é duplo. Seu marido se casou com outra mulher". Rahmato, da área de Kart-i-Lagan, vizinho a Lashkargah, contou à agência Pajhwok que seu marido e os dois irmãos dele casaram suas duas filhas menores de idade sem lhe contar nada. "A família de meu marido maltratava e batia em uma de minhas filhas", disse a mãe. "Quando ficou doente, não a levaram ao hospital. Quando seu estado de saúde se agravou, a trouxeram para minha casa. Morreu dois dias depois no Hospital Bust", acrescentou.
Abdul Ghani, residente na aldeia de Ubaidullah, no distrito de Nad Ali, contou que havia entregue sua filha aos seus inimigos para salvar a vida de um filho homem. "Tudo esteve bem por três meses. Mas depois já não deixavam que ela me visitasse e cinco meses mais tarde fiquei sabendo que seu sogro a assassinara". A tragédia de Ghani foi confirmada pelo subchefe do escritório contra crimes da delegacia provincial, Mohammad Hashem Haibat, que anunciou ter detido um homem chamado Mohammad Rasool pelo assassinato da nora. O acusado está detido na prisão central.
Na província de Kapisa, no último dia 10, um homem acusado de ter assassinado sua mulher matou um primo que denunciou o crime. "Asadullah matou meu irmão Shukrullah só porque condenou o assassinato de Samia, de 25 anos, como um ato brutal", disse à Pajhwok o irmão da vítima. O chefe de polícia da área, coronel Atta Mohammad, informou que o homem havia enterrado sua mulher dentro da casa depois de decapitá-la. Para ocultar o crime, Asadullah espalhou o boato de que Samia o havia abandonado depois de roubar seus pertences. A investigação policial confirmou o crime contra a mulher. "Meu pai lutou com minha mãe, lhe deu um soco e depois a decapitou", contou o filho do casal, Nauman. Asadullah desapareceu depois de cometer seu segundo assassinato e continua foragido.
A diretora do Departamento para Assuntos das Mulheres do Afeganistão, Fauzia Uloomi, afirmou que o analfabetismo e a ignorância são as principais causas dos ataques contra as mulheres. "Existe um elevado analfabetismo nas zonas mais isoladas do país. Os homens afegãos são alfabetizados. Sempre buscam lutar com outros homens, e descarregam sua fúria contra suas companheiras", afirmou.
Para a maioria das afegãs, pouco mudou desde que o movimento islâmico Talibã foi desalojado do poder pelos Estados Unidos em 2001. O índice de alfabetização entre as mulheres é de apenas 14%, contra 50% entre os homens. Muitos afegãos acusam de inoperância o Departamento para Assuntos da Mulher. Os funcionários desse departamento "recebem altos salários por nada. Seu único dever é se reunir uma vez por mês, e isso é tudo", disse um professor da província de Lashkargah que não quis se identificar. Alguns líderes religiosos saíram em defesa das mulheres. Maulvi Mohammad Sadiq Haqqani exortou todos os homens do país a respeitarem suas mulheres.
"Se uma mulher desobedece ao marido, o homem deve resolver o assunto de maneira cordial, em lugar de usar a força", afirmou Sadiq. Os ataques contra as mulheres têm de acabar, disse a relatora especial da Organização das Nações Unidas sobre violência contra a mulher, Yakin Ertürk, durante uma conferência realizada em Cabul, no mês de agosto. "Devem ser adotadas ações para proteger as mulheres e salvar vidas. A situação atual é uma oportunidade única que não se deve perder", afirmou, às vésperas das eleições de setembro. Agora, o futuro das mulheres afegãs está em mãos dos novos parlamentares, entre eles Joya. (IPS/Envolverde)
(*)(IPS/Pajhwok)

