Direitos Humanos-EUA: Novas denúncias de tortura no Afeganistão

Washington, 20/12/2005 – Os Estados Unidos tiveram até 2004 uma prisão secreta no Afeganistão, onde supostos terroristas eram acorrentados por vários dias na escuridão, sem água nem comida, afirmou a organização de direitos humanos Human Rights Watch. O centro de detenção clandestino, que funcionou desde 2002 até pelo menos 2004, era conhecido pelos presos como a "prisão escura". Ali, entre outras torturas freqüentes, eram continuamente obrigados a ouvir música a todo volume e sem interrupção, disse a HRW. Presos com grilhões, nunca podiam deitar no chão ou dormir, e os interrogatórios, ao que parece feitos por pessoal civil – presume-se que por funcionários da Agência Central de Inteligência (CIA) -, incluíam socos e bofetadas.

A maior parte dos guardas da prisão era de afegãos, segundo o relatório divulgado nesta segunda-feira. A HRW informou que representantes do Comitê Internacional da Cruz Vermelha nem de outras agências independentes não tiveram acesso à prisão. "Não estamos falando de tortura como algo abstrato, mas real. O pessoal e os oficiais norte-americanos envolvidos podem ser acusados criminalmente. É necessária uma investigação por parte de um promotor especial", disse John Sifton, da HRW. O relatório, baseado no testemunho de advogados de sete atuais prisioneiros da base militar de Guantânamo, em Cuba, foi divulgado no momento em que o presidente George W. Bush e seu vice, Dick Cheney, negam insistentemente ao público terem autorizado a aplicação de torturas a suspeitos de terrorismo.

O governo rechaça os maus-tratos aos presos, assegurou o presidente Bush na quinta-feira passada, na Casa Branca, ao senador John McCain, do governante Partido Republicano. McCain convenceu Bush em sua visita a não vetar a emenda constitucional aprovada pelo Congresso que proíbe a tortura na chamada "guerra mundial contra o terror". Bush afirmou que "estamos contentes por trabalharmos juntos (com McCain) para conseguir um objetivo comum. E isso é para deixar claro ao mundo que este governo não tortura e que aderimos á Convenção Internacional contra a Tortura onde quer que seja, dentro ou fora do país", ressaltou. Porém, essa posição é cada vez mais difícil de sustentar diante do freqüente vazamento para a imprensa e para o Congresso de informações sobre abusos contra presos.

De fato, espera-se que esta semana o Senado aprove uma resolução exigindo do governo informes detalhados a cada 90 dias sobre os centros de detenção clandestinos instalados e administrados pelos Estados Unidos no exterior, bem como sobre o tratamento dado a cada prisioneiro. Essas instalações secretas também são motivo de atritos entre Washington e seus aliados europeus. A União Européia, como bloco, e alguns países-membros, de maneira individual, iniciaram investigações depois que o jornal The Washington Post informou, sobre a base de dados da HRW e de outras organizações de direitos humanos, que a CIA tinha prisões secretas na Europa oriental, especialmente na Polônia e Romênia.

Depois da revelação do jornal, as prisões na Europa teriam sido fechadas e os presos levados a outros cárceres na África setentrional. Presume-se que a CIA mantém em reclusão secreta em diferentes pontos do planeta entre 24 e 36 terroristas de "alto valor", incluindo Khalif Shaikh Mohammed, o suposto cérebro por trás dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 em Washington e Nova York. Estes suspeitos foram distribuídos em diferentes pontos desta rede de prisões, entre as quais se destacava a "prisão escura".

A HRW, instituição que em várias ocasiões teve negado seu acesso à prisão de Guantânamo, não pôde entrevistar diretamente nenhum preso. A informação que possui foi fornecida por seus advogados, mas é suficientemente consistente e crível para se iniciar uma investigação oficial, afirmam os ativistas. A maioria dos prisioneiros da "prisão escura" teria sido presa na Ásia e no Oriente Médio. Alguns eram levados a outras prisões secretas, e finalmente todos foram levados à principal prisão norte-americana no Afeganistão perto da base aérea de Bagram. Nenhum ficou na "prisão escura" por mais de seis semanas.

Um dos presos, cujo advogado pediu que fosse identificado apenas por suas iniciais, M. Z., disse que ficou na prisão cerca de quatro semanas. M. Z. estive em prisão solitária em uma cela "totalmente escura" e era interrogado em um quarto com luz estroboscópica enquanto permanecia acorrentado ao solo. O prisioneiro denunciou que um dos interrogadores ameaçou violentá-lo. Outro preso, Benyam Mohammed, etíope que morou na Grã-Bretanha desde sua infância, disse ao seu advogado que esteve na "prisão escura" no ano passado.

"Era completamente escura, sem luzes nos quartos a maior parte do tempo. Me penduraram. Permitiam que dormisse poucas horas no dia seguinte e depois me mantinham pendurado novamente por dois dias", contou. Durante 20 dias consecutivos todas as celas foram bombardeadas com música rap e heavy metal a todo volume. "O pessoal da CIA cuidada dos prisioneiros, incluindo eu, dia e noite. Muitos perderam a razão. Podia-se ouvir alguns batendo a cabeça contra paredes e portas, e gritando", contou Mohammed ao seu advogado.

Outro prisioneiro, cujo nome não foi divulgado a pedido de seu defensor, disse que os presos "gritavam e choravam o tempo todo". Outros quatro detidos, agora na prisão de Guantânamo, fizeram relatos muito semelhantes. A Human Rights Watch disse que a informação dada por estes prisioneiros é consistente com a fornecida por outros quatro que conseguiram escapar da prisão de Bagram em julho e que reforçaram as evidências com um vídeo, depois adquirido pela rede de notícias norte-americana ABC e pela pan-árabe Al Arabiya. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *