Havana, 20/12/2005 – Apesar dos prognósticos pessimistas que se sucederam e das turvas relações políticas, o comércio entre Cuba e Estados Unidos aumentou este ano e as previsões para 2006 também são otimistas. Dados da Alimport, a empresa estatal cubana encarregada das transações comerciais externas, indicam que até meados de dezembro as compras de produtos agroalimentares norte-americanos chegavam a US$ 493,1 milhões. "Superaremos sem problemas os US$ 500 milhões nos próximos dias", assegurou à imprensa Pedro Alvarez, presidente da companhia. Caso isso ocorra, as atividades deste ano fechariam com crescimento superior a 5,4% em relação ao ano passado.
Mas as boas notícias nos negócios coincidem com o anúncio de que, por proibição de Washington, a equipe cubana de beisebol não poderá participar do primeiro Clássico Mundial desse esporte, que acontecerá em março, simultaneamente, nos Estados Unidos, no Japão e em Porto Rico. "Cuba continua dando prioridade à compra de alimentos nos Estados Unidos, como uma forma de ir abrindo brechas no bloqueio econômico decretado por Washington há mais de 40 anos", disse à IPS um economista que pediu para ficar no anonimato. "Estamos diante de uma operação econômica, mas também política", acrescentou.
A tendência de aumento foi confirmada no último dia 14, com a assinatura de uma carta de intenção entre a Alimport e a Associação de Trigo dos Estados Unidos para a compra 500 mil toneladas desse cereal de produtores norte-americanos em 2006. Paralelamente, representantes do governo do Estado da Virginia (EUA) fecharam um acordo de US$ 30 milhões, metade deles dedicada à compra de 60 mil toneladas de farinha de soja. Três dias antes, o governador do Maine, John Baldacci, havia assinado em Havana contrato de US$ 20 milhões que inclui venda de maçãs, sementes de batata, madeira, papel e gado.
Baldacci é o sexto governador norte-americano a viajar para esta ilha caribenha de sistema socialista desde que, em 2001, o Congresso dos Estados Unidos autorizou o envio de alimentos como exceção dentro do bloqueio imposto pouco depois de Fidel Castro ter chegado ao poder. "O que queremos é fazer negócios e construir uma relação melhor com Cuba", afirmou o governador, que mostrou sua confiança em uma aproximação "passo a passo" entre os dois países. Mas em fevereiro tudo apontava para o fim dos vínculos comerciais, depois da aprovação de novas restrições por parte do Escritório de Controle de Bens Estrangeiros (OFAC), do Departamento do Tesouro norte-americano.
A partir desse momento, Cuba deveria pagar suas importações antes que as compras fossem carregadas nos portos dos Estados Unidos. O efeito foi uma queda imediata das transações que só até abril registrava alta de 26%. O setor mais prejudicado foi o do arroz, cujas vendas caíram mais da metade, deixando de ser enviadas 200 mil toneladas. O arroz faz parte da dieta diária dos 11,2 milhões de cubanos e a produção da ilha, estimada em cerca de 260 mil toneladas anuais, é insuficiente para atender a demanda.
"Temos produtores de arroz para os quais o mercado cubano é importante, e o estão perdendo", garantiu Kirby Jones, presidente da Associação de Comércio Estados Unidos-Cuba. Estima-se que o embargo econômico à Cuba tenha causado perdas de US$ 3,1 bilhões na venda de arroz norte-americano não realizada nas últimas quatro décadas. Diante da pressão de um grupo de senadores liderados por Max Baucus, do opositor Partido Democrata, o Congresso norte-americano autorizou em julho que o pagamento das importações fosse depositado em países terceiros, o que reduziu ligeiramente as tensões.
Entretanto, os partidários de uma relação mais aberta com Havana receberam um novo revés em novembro, quando o Senado norte-americano retirou uma emenda que impediria a OFAC de usar fundos federais para aplicar as restrições contra Cuba. "Este fato demonstra uma enorme hipocrisia", afirmou a senadora Jo Ann Emerson, (republicana), ao se referir à postura da Casa Branca. "Eles dizem 'queremos mercados abertos?, mas por outro lado, aprovam regulamentações que impedem a abertura dos mercados", afirmou.
"Em lugar de expandir um mercado promissor, os agricultores norte-americanos estão pagando o preço de um enfoque que não é efetivo e é míope com relação a Cuba", garantiu o senador Baucus. Nesse mesmo mês, a Feira Internacional de Havana (FIHAV 2005) confirmou o interesse das empresas norte-americanas no mercado cubano. Mais de 170 companhias dos EUA viajaram à capital de Cuba para assinar convênios e cartas de intenções para a compra de cereais, grãos, leite, maçãs e frango congelado, entre outros produtos.
Somente o Estado de Nebraska, cujo governador, Dave Heineman esteve na feira, negociou com a Alimport a entrega para 2006 da produção total de fígado bovino dessa região, mais dezenas de milhares de toneladas de trigo e farinha de soja, tudo por um valor superior a US$ 30 milhões. Cuba passou a ocupar, em apenas quatro anos, o 26º lugar na lista de mercados para os produtos agrícolas norte-americanos, bem longe do 225º lugar que ocupava antes de 2001.
Desde de dezembro de 2001, Cuba contratou 6,6 milhões de toneladas em alimentos e insumos do setor agropecuário para empresas norte-americanas no valor de US$ 1,755 bilhão. Desta relação se beneficiaram 37 Estados e 157 companhias dos Estados Unidos. Dados do Ministério de Comércio Exterior de Cuba indicam que o país vizinho ocupa o quarto lugar entre os principais exportadores para a ilha, com 6% do total.
"Creio que comprar dos norte-americanos tem sido benéfico para nós, sobretudo pelo arroz e frango", disse à IPS Esteban Martinez, engenheiro mecânico, que recebeu em sua empresa uma caixa com mais de 15 quilos de frango "made in USA" como estímulo pelo fim de ano. Para as autoridades cubanas, a revogação de todas as restrições ao comércio bilateral incentivará o intercâmbio entre os dois países até US$ 20 bilhões anuais somente nos primeiros cinco anos. (IPS/Envolverde)

