Sana?a, 23/12/2005 – A dirigente Sumayah Alí Raja anunciou que se candidatará à presidência do Iêmen nas eleições de setembro próximo. Mas mesmo seus simpatizantes demonstram cautela, devido aos obstáculos enfrentados pelas mulheres no tradicionalista mundo árabe. Raja, presidente do Fórum Iêmen-França, anunciou sua intenção perante as 300 participantes de uma conferência de mulheres do mundo árabe, Europa e Estados Unidos, realizada em Sana?a. Sua candidatura melhorará as perspectivas de respeito pleno aos direitos legais e constitucionais de todas as iemenitas, segundo ela mesma assegurou na reunião internacional.
"Minha candidatura aumentará a participação das mulheres em diferentes áreas e melhorará seu papel político", ressaltou, exortando os partidos políticos e organizações da sociedade civil, em particular das femininas, a apoiá-la. "Sei que enfrentarei dificuldades, mas as mulheres devem sinalizar a todos que podem exercer o poder", disse Raja à IPS. O atual primeiro-ministro do Iêmen, Abdul-Qader Ba-Jammal, incentivou as mulheres a lutarem por seus direitos, ao abrir a conferência, intitulada "Direitos femininos no mundo árabe: das palavras aos fatos". Ba-Jammal recordou que o Iêmen foi um país de rainhas, em referência à rainha Bilquis (também conhecida com Rainha de Sabá), 530 anos antes de Cristo, e à rainha Arwa, no ano 1065 da era cristã.
O primeiro-ministro prometeu que seu governo levaria em conta as recomendações da conferência e se comprometeu a cumprir todas as convenções internacionais sobre os direitos femininos já ratificadas pelo Iêmen. Nesse sentido, pediu urgência aos partidos políticos na adoção de um sistema de cotas que dê às mulheres pelo menos 15% das vagas no parlamento, e prometeu que o governante Congresso Geral do Povo aplicaria esse princípio nas próximas eleições parlamentares. Entretanto, Ba-Jammal, e como muitos outros dirigentes políticos iemenitas, não esperava o anúncio de Raja, integrante de União de Mulheres do Iêmen.
Observadores notaram que se tratou da oportunidade ideal para o anúncio, mas alertaram que a candidatura enfrentará grandes desafios nos campos político, social e religioso. A dirigente da União de Mulheres Iemenitas, Nadya al-Hadrama, disse à IPS que considera difícil convencer a sociedade sobre o papel da população feminina nela e sua capacidade de participar da tomada de decisões, o que inclui a aceitação de uma presidente. "Mas vamos à prova", acrescentou. A população iemenita e a elite política do país parecem compartilhar um ponto de vista tradicional sobre a participação política das mulheres: acreditam que elas podem ocupar algum cargo de destaque no governo, mas não posições de grande poder.
A conferência realizada na semana passada em Sana?a concluiu que o mundo árabe necessita melhorar a participação das mulheres em todos os campos, tanto no político quanto o econômico, social e cultural. A declaração final do encontro alerta que "a violência contra as mulheres e a desigualdade de oportunidades no mundo árabe ainda prevalecem tanto em áreas urbanas como em rurais". As participantes pediram aos governos árabes que ainda não ratificaram a Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher para que o façam com urgência. Também criticaram alguns países que a ratificaram por aprovarem leis contraditórias com os princípios da Convenção.
Este tratado internacional foi adotado em 1979 pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, às vésperas da Conferência Mundial pela Década das Mulheres, realizada em Copenhague no ano seguinte. A conferência em Sana?a, organizada pelo Ministério de Direitos Humanos do Iêmen e financiada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e governos ocidentais, exortou os governos árabes a "promulgar leis que fortaleçam os direitos femininos e revogar todas as normas discriminatórias". A declaração mencionou leis nacionais em matéria de família e cidadania como exemplos de normas discriminatórias no mundo árabe.
A conferência também pediu a tomada de "ações necessárias" para garantir maior representação feminina no processo político de tomada de decisões, tais como sistema de cotas nas eleições e designação de mulheres para cargos executivos e judiciais. Para o cumprimento desses objetivos, a declaração recomenda melhoria na educação das mulheres e o fim do alto analfabetismo feminino através do ensino gratuito e obrigatório, tanto na áreas rurais quanto nas urbanas. Também na semana passada em Sana?a, a União de Mulheres Árabes realizou um simpósio para reativar a organização, com as presenças de representantes do Iraque, da Síria, do Líbano, da Palestina e da Jordânia.
"As mulheres árabes, que gozaram de seus direitos desde o início do Islã, agora sofrem a injustiça devido às circunstâncias políticas, sociais, culturais e econômicas que as reprimem", disse à IPS a presidente da União de Mulheres da Síria, Suad Bakour. "Devemos superar muitos obstáculos, tradicionais e legais, que nos impedem de participar da vida política", disse à IPS a nova secretária-geral da União de Mulheres Árabes, a iemenita Ramzya al-Eryani. (IPS/Envolverde)

