Agricultura-Brasil: Reforma agrária, eterna polêmica

Rio de Janeiro, 22/12/2005 – A redistribuição de terras está paralisada no Brasil, segundo os 45 movimentos sociais e organizações não-governamentais do Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo. A ação do atual governo nessa área se reduziu a "um mero programa de assentamentos" em quantidade inferior à prometida, que não muda o quadro brasileiro de concentração da terra nem expande a agricultura familiar e camponesa, afirmou o Fórum em seu balanço de fim de ano, divulgado esta semana. Isso não é verdade, já que "este foi o melhor ano da reforma agrária na história do Brasil", respondeu o secretário-executivo do Ministério de Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel.

Foram entregues terras a 111.200 famílias desde o início do ano e até segunda-feira, e nesta semana esse número chegará a 115 mil, o que constitui a meta estabelecida com os movimentos camponeses, disse Cassel à IPS. O governo está usando "das mesmas fraudes" da administração anterior, contando como novos assentamentos a simples regularização de famílias já assentadas ou a substituição das que abandonaram as terras recebidas, disse o dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, João Pedro Stédile. Além disso, a maioria das famílias ficou isolada na Amazônia, "vivendo em péssimas condições", sem possibilidade de produzir nem de vender suas colheitas, acrescentou.

Stédile criticou o fato de não estarem sendo cumpridos os principais pontos acertados em maio entre o governo e o MST, como a meta quantitativa e a prioridade para os grupos familiares que vivem acampados. Segundo o Movimento dos Sem-Terra, há atualmente 140 mil famílias de camponeses sem terra vivendo em acampamentos precários, em tendas de plástico negro, à margem de estradas ou em edifícios ocupados, à espera de que o governo lhes destine uma parcela de terra. Cassel respondeu que cerca de 20 mil famílias assentadas este ano provêm dos acampamentos controlados pelos movimentos camponeses. A quantidade de acampados é inflada pelo MST, e não deve superar as 70 mil famílias, afirmou.

A reforma agrária faz parte dos compromissos reiterados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que prometeu terras e condições de produção e de vida digna para 400 mil famílias camponesas nos quatro anos de governo do Partido dos Trabalhadores. Nos dois primeiros anos, 2003 e 2004, o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) anunciou o assentamento de 117.555 famílias. Mesmo cumprindo a cota deste ano, restarão mais de 160 mil famílias para ser atingida a meta em 2006, o que constituiria uma façanha. Durante os oito anos de governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) foram assentadas oficialmente 524 mil famílias, um dado também questionado pelo MST.

Mas do governo do PT se esperava uma política mais decidida de redistribuição de terras e estímulos à agricultura familiar. No entanto, as expectativas foram frustradas, segundo o Fórum pela Reforma Agrária, que reúne sindicatos, organizações religiosas, movimentos indígenas e femininos. Este governo não consegue promover uma verdadeira reforma agrária porque dá mais importância ao agronegócio exportador, e se submete aos grandes latifundiários e adota uma política que favorece o setor financeiro, as multinacionais e a grande agricultura de monocultivos, disse Stédile. Neste governo há pelo menos três ministérios favoráveis a essa política, e somente o Ministério de Desenvolvimento Agrário em defesa da agricultura familiar, lamentou o dirigente.

No meio rural brasileiro se desenvolve uma "disputa" entre a grande produção agroindustrial, para a qual são prioritárias as exportações e a tecnologia, que provocam desemprego e aumentam os lucros, e a "agricultura familiar e camponesa", que abastece de alimentos o mercado interno e emprega mais de 85% da mão-de-obra rural, segundo o fórum. Cassel considerou um "absurdo" duvidar dos dados do atual governo, porque todas as famílias assentadas são identificadas com "nome e sobrenome" de seus responsáveis na documentação, e esses dados são enviados aos movimentos sociais como o MST. Na Amazônia, ou mais precisamente na região norte do Brasil, foram assentados 40% do total de famílias, porque ali está a maior quantidade de terras públicas e porque "a reforma agrária é um destino melhor do que a apropriação ilegal" dos latifundiários, argumentou.

Para obter terras nas regiões mais desenvolvidas do País, como o sul, seria necessário atualizar o índice de produtividade que define se uma propriedade é improdutiva e pode ser expropriada para fins de reforma agrária, de acordo com a Constituição. O índice usado data de 1975, quando se considerava produtiva uma fazenda com meia rês por hectare. Agora, as novas tecnologias permitem criar três ou quatro reses em um hectare e produzir quase o dobro de soja ou outros grãos, observou Stédile, neste caso apoiando o Ministério do Desenvolvimento Agrário e contra a pasta da Agricultura que resiste a mudanças na forma de medir a produtividade.

Cassel respondeu aos críticos dizendo que, além de entregar terras para uma "maior quantidade de famílias em um só ano", o governo quadruplicou o crédito subsidiado do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar. Os créditos concedidos passaram de R$ 2,3 bilhões em 2002 para R$ 9 bilhões este ano. Os investimentos em compras e expropriação de terras também foram recorde, acrescentou Cassel. Apesar de tudo, o governo decepcionou os camponeses, por isso 2006 será um ano de muita mobilização, especialmente em março, disse Stédile à IPS.

Entre os dias 7 e 10 de março, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) promoverá a Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural, em Porto Alegre. Também em março, entre os dias 20 e 31, acontecerá a Oitava Conferência das Partes no Convênio Mundial sobre a Diversidade Biológica, em Curitiba. Nessa ocasião, serão discutidas duas questões que interessam diretamente aos camponeses, a aceitação ou a rejeição dos cultivos Terminator, uma modificação genética que deixa estéreis os embriões de plantas em desenvolvimento e impede o uso de sementes em uma próxima colheita, e também a exigência de rótulos informativos nos produtos exportados contendo componentes transgênicos. (IPS/Envolverde)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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