Aids: Remédios gratuitos também reduzem o estigma

Peshawar, Paquistão, 04/01/2006 – Raheela, beneficiária do Programa Nacional de Controle da Aids do Paquistão, sente o alívio de finalmente contar com terapia anti-retroviral gratuita neste país, onde as pessoas com o vírus HIV são vistas mais com suspeitas do que com simpatia. Este programa, implementado com a colaboração da Organização Mundial da Saúde (OMS), começou a fornecer esse tipo de tratamento sem custo a um número reduzido de pessoas.

"Agora posso ter esperança de viver mais alguns anos e cuidar do meu filho, que tem apenas 3", disse Raheela, cujo marido foi deportado dos Emirados Árabes Unidos depois que um exame constatou que havia contraído o HIV (vírus da imunodeficiência, causador da aids) e finalmente morreu. "Estabelecemos quatro centros de tratamento em Islamabad, Peshawar, Lahore e Karachi, e a cada um deles foram enviados medicamentos para 30 pacientes. Os médicos e as enfermeiras já foram treinados na Índia", disse Quaid Saeed, médico e funcionário do programa da OMS, que afirma serem necessárias terapias anti-retrovirais para as 3.077 pessoas até agora registradas, e se aspira reduzir o risco da transmissão.

"Durante muito tempo pedimos para o governo iniciar o programa anti-retroviral, e finalmente o fez", disse Nigat Kamdar, que dirige uma organização não-governamental nesta cidade próxima da fronteira afegã. Kamdar afirmou que os pacientes nestas regiões enfrentavam o estigma social, e que os médicos não estavam preparados para admiti-los nos hospitais. Houve casos de mulheres grávidas forçadas a dar à luz em corredores de hospital por serem proibidas de serem atendidas na sala de partos. "Agora, esperamos melhores tratamentos para os pacientes com aids", disse à IPS, explicando que o programa de terapia anti-retroviral indiretamente ajudava para uma melhor compreensão social da doença.

Os medicamentos anti-retrovirais reduzem a proliferação do HIV no organismo, diminuem os perigos de contágio, retardam o progresso da infecção e melhoram a qualidade de vida, e ainda têm a capacidade de converter uma segura sentença de morte em uma enfermidade crônica por toda a vida, disse Saeed. O Paquistão está deixando rapidamente de ser um país de baixa prevalência do HIV/aids para um país com uma epidemia pairando no ar, e tem uma população de alto risco composta por usuários de drogas injetáveis e trabalhadores sexuais masculinos que necessitam de atenção, afirmou.

Segundo Saeed, uma vigilância inadequada, o dominante estigma social, a falta de conhecimento da população, em geral, e dos que praticam a medicina, além da limitada quantidade de centros de assessoramento psicológico e realização de exames de HIV podem contribuir para que se subestime os números reais da epidemia. "Preparamos um plano pelo qual os programas de prevenção e tratamento devem seguir lado a lado. Infelizmente, demora para surgirem os primeiros resultados, e o comportamento sexual de alto risco não se muda facilmente", acrescentou o especialista.

Através de modelos matemáticos, o Programa Nacional de Controle da Aids calculou que atualmente poderiam existir cerca de 36 mil pessoas infectadas com HIV no país. "Considerando que 20% destes pacientes estarão aptos para começar o tratamento com anti-retrovirais nos próximos três anos, teremos de atender cerca de 7.200 pacientes", afirmou Saeed. "Portanto, não estamos focando no desenvolvimento e na ampliação da capacidade do pessoal e da infra-estrutura sanitária, tal como centros de diagnósticos, apoio ao tratamento e serviços com base no lar, antes de aumentar a quantidade de terapias", explicou.

"Uma vez que os centros de tratamento e cuidados estejam em plena operação, a demanda adicional de terapias anti-retrovirais será gerada através do assessoramento psicológico e tratamento voluntários, da mobilização das pessoas que vivem com HIV/aids e por um melhor acesso aos cuidados exigidos pelo vírus", acrescentou. O custo dos três medicamentos genéricos utilizados no tratamento oscila entre US$ 300 e US$ 500 anuais por paciente, enquanto o orçamento anual para atender todos os casos registrados é de US$ 1,5 milhão. A maioria dos 40 milhões de pessoas com HIV vive no mundo em desenvolvimento e não tem acesso a terapias. Estima-se que apenas 8% dos que tem aids no Sul podem receber estes tratamentos.

Yasin Malik, encarregado de um centro de terapias anti-retrovirais em Peshawar, disse que no último mês havia admitido seis pacientes. Dois deles morreram e os demais estavam em boas condições. "Vi cinco mil pacientes na Índia. Todos recebiam tratamento e se sentiam bem", disse, acrescentando que na cidade indiana de Mumbai manteve contato com pessoas que estavam há 15 anos sob tratamento anti-retroviral. O Paquistão tem uma oportunidade maravilhosa de atuar com energia e ampliar este tipo de terapias, os programas de prevenção ao HIV e uma campanha para a mudança de condutas de risco, afirmou Malik. (IPS/Envolverde)

Ashfaq Yusufzai

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