Buenos Aires, 04/01/2006 – Desde o Rio Grande, no norte, até a Patagônia, no sul: desde Lima a Caracas, passando por La Paz depois da eleição de Evo Morales como presidente da Bolívia, um pano de fundo de humanidade está novamente descendo sobre o continente latino-americano. Curiosamente, o que é intencionalmente uma recriação da famosa frase com que Winston Churchill procurava descrever a descida do pano de fundo de aço sobre a Europa do pós-guerra, se converteu em um pânico para Washington e outros centros de poder na América Latina. Sentem-se impotentes por esta recorrente "rebelião das massas". Pode ser casualidade, mas significativamente ocorre no 75º aniversário da primeira edição do famoso livro homônimo de Ortega e Gasset.
O insólito do escândalo é que não é a primeira situação de ascensão e ameaça apresentada pelo chamado populismo, o mais genuíno e emblemático movimento político latino-americano. Nem tampouco, inexoravelmente, será a última. Como os recorrentes ciclos de desdém e intervenções dos Estados Unidos no sul, o populismo é como uma ave migratória. Ciclicamente retorna através de uma conjunção de fatores. Entre estes destacam-se, sobretudo, os méritos obtidos precisamente pelos que depois se escandalizam com sua ressurreição e apenas atinam a enfrentá-lo com a repressão, pretendendo que se esfumace com o desaparecimento do líder carismático e incômodo de plantão.
O problema reside no fato de o caudilho populista latino-americano, que parece ser o sinal de identidade do continente, não ser a causa primordial do fenômeno, e sim mais um ator. Simplesmente aproveita o contexto que lhe surge como uma oferta que não pode rejeitar. Necessitado de uma massa, demonstra a ela que na realidade são os "descamisados" e "os debaixo" os que não são ninguém sem sua liderança onipresente e messiânica. Desprezadas e marginalizadas, assim as massas ficam convencidas, capturadas pelo canto da sereia.
Certamente, isso já foi visto por Ortega e Gasset na Europa de entre-guerras, que lançaria o continente ao suicídio através do abraço ao nazismo e fascismo, com o totalitarismo marxista como alternativa. Era exatamente nos anos precedentes ao surgimento das sucessivas edições de "A rebelião das massas", quando os conglomerados que anteriormente não eram considerados nas sociedades passam a ter um impacto decisivo.
Enquanto na Europa a mudança acontece com a Revolução Soviética, na América Latina o toque de alerta foi dado pela Revolução Mexicana, que situa pelo menos a maioria mestiça na sociedade, embora o sistema continue sendo regido como durante a época dos astecas, Cortés, a colônia, Maximiliano e o porfiriato, segundo genialmente descreveu Octavio Paz em um ensaio instigante. Mas na América Latina, onde as desigualdades se mantiveram incólumes, os alarmes só foram disparados quando a Revolução Cubana se tornou persistente e perigosa.
Sua trágica sobrevivência se deve a uma lamentável mistura de caudilhismo, oportunismo da Guerra Fria e a inépcia de Washington. Diante do câncer cubano, optou-se pragmaticamente por uma variante da política de contensão. Tratava-se, simplesmente, de evitar uma segunda Cuba, a qualquer preço. Inclusive, isso consta do discurso em que Kennedy pede aos norte-americanos para não perguntarem o que o país poderia fazer por eles, mas o que eles poderiam fazer pelo país.
"Qualquer preço" significava que se olhava com condescendência a neutralização de todos os excessos (Chile) e se cobria a ameaça mediante o apoio tácito ou implícito a todo governo autoritário militar. Nem mesmo se soube ler com sabedoria a lamentável experiência militar do Peru nos anos 60, que precedeu um populismo de novo perfil que surgiria com força na Venezuela.
O indigenismo de salão da primeira parte do século passado, protagonizado predominantemente por intelectuais brancos, se apresentou com uma cara intrigante no século atual. Agora já não parece que um líder branco de origem italiana como Perón fale pela boca dos "cabecinhas negras", mas que um indígena que vacila em algumas palavras do espanhol faça tremer a ordem estabelecida, ameaçando nacionalizar os recursos naturais e converter a produção de coca em um pesadelo multinacional.
Agora, com o alarme do triunfo de Evo Morales, se comprova que se perdeu miseravelmente o tempo e que é preciso começar de novo. Já não parece que se possa optar pelas meias-medidas combinando uma linguagem com ressonâncias democrata-cristãs (justiça social) e as demandas socialistas, mas que se propõe o protagonismo da maioria que aparentemente conta com legado apenas com os produtos estratégicos das entranhas da terra.
Enquanto a Europa se reconciliou compartilhando inicialmente carvão e aço, a perspectiva de um Mercado Comum latino-americano combinado o gás boliviano e o petróleo venezuelano já tira o sono de muitos. O dilema é como parar o que vem de cima. (IPS/Envolverde)
(*) Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Européia da Universidade de Miami (jroy@miami.edu).

