Religião: Muçulmanos exigem seu lugar na bandeira russa

Moscou, 17/01/2006 – Organizações muçulmanas da Rússia exigem a retirada dos símbolos cristãos do pavilhão nacional e de outros emblemas pátrios. "O uso de cruzes e símbolos cristãos no escudo de armas nacional e outras divisas significa que o Estado aprova e promove uma religião e que discrimina outras", disse à IPS o presidente do Conselho Espiritual dos Muçulmanos da Rússia Asiática, Nafigulla Ashirov. Os novos emblemas foram aprovados pela Duma (câmara baixa do parlamento russo) há apenas cinco anos. As exigências se inscrevem nos movimentos de grupos muçulmanos em busca de maior peso na sociedade, na cultura e na política do país.

Estas entidades, entre as quais o Conselho Eclesiástico Muçulmano Nizhny Novgorod e o Centro Cultural dos Muçulmanos Russos, reclamam inclusive que seja reservado o cargo de vice-ministro para alguém de fé muçulmana. As demandas se inspiram nas manifestações de defesa do Islã feitas pelo próprio presidente Vladimir Putin, na decisão do governo de se aproximar da Organização da Conferência Islâmica e na cooperação técnica com o Irã e outros países islâmicos. Ashirov acredita que a remoção dos símbolos da cristandade ortodoxa permitirá a aceitação da bandeira e do escudo nacionais por todas as denominações religiosas. "Penso que os emblemas pátrios não devem ter nenhum símbolo religioso", afirmou.

Porém, o porta-voz do Patriarcado da Igreja Cristã Ortodoxa de Moscou, arcipreste Vsevolod Chaplin, advertiu que as reclamações dos muçulmanos apenas servirão de incentivo a grupos que promovem o conflito entre religiões. "Ninguém se beneficiará com este conflito, e menos ainda os muçulmanos, que já são vítimas de uma injusta islamofobia", afirmou Chaplin. Para o arcipreste, estas exigências "apenas beneficiam os grupos que recebem dinheiro do exterior para semear hostilidade na Rússia e ainda radicalizará a Ummah (comunidade) Islâmica".

"As reclamações no sentido de descristianizar a Rússia, seus símbolos e sua história, seu presente e seu futuro, certamente não podem gerar uma resposta negativa por parte dos crentes cristãos ortodoxos. Isto é o que provavelmente buscam os organizadores", acrescentou Chaplin. Por sua vez, a Federação de Comunidades Judias da Rússia considerou que a remoção dos símbolos cristãos da heráldica nacional é impossível. "Os símbolos cristãos constam dos emblemas nacionais de qualquer país europeu", disse o porta-voz do grupo, Borukh Gorin, ao jornal Rossiskaya.

"Apesar de toda esta grande discussão sobre a separação entre Estado e religião, é claro que a religião está tão estreitamente mesclada com a história, a psicologia, a ética e os códigos morais dos diferentes sistemas sociais que é impossível removê-la completamente", acrescentou. Do mesmo modo que o uso dos símbolos muçulmanos nos países islâmicos não significa uma violação da constituição, não é nada escandaloso que a cruz ortodoxa figure nos novos emblemas nacionais da Rússia, disse Gorin. "Obviamente, em qualquer país, a história nacional está relacionada principalmente, e antes de tudo, com a população nativa", acrescentou.

O diretor do Instituto de Pesquisas Políticas, Sergey Markov, apontou grupos extremistas por trás dessas reclamações. "O país sempre esteve unido em torno da religião ortodoxa russa, e o emblema reconhecido constitucionalmente em absoluto entra em conflito com as normas e a ética muçulmanas", disse Markov à IPS. "Trata-se de uma provocação de algumas organizações islâmicas e nacionalistas cuja meta é minar a paz entre as religiões na Rússia". Esta não é uma reclamação da maioria dos muçulmanos, embora "certamente eles se sentissem muito satisfeitos se os símbolos islâmicos tivessem maior destaque", acrescentou.

Alexey Arbatov, do Centro Carnegie de Moscou, disse que algumas organizações utilizam o Islã para colocar em cena uma "medição de forças". Não se deve permitir que a religião, especialmente em sua versão mais radical, entre na política, afirmou. A oposição aos símbolos cristãos da bandeira "demonstra claramente uma postura religiosa que pode estar conectada ao terrorismo, mesmo quando algumas pessoas digam que a religião e a política são coisas diferentes", disse Arbatov. "Isto não é apenas um ataque religioso, mas também pode gerar uma irritação política. Devemos deixar muito claro que na Rússia não permitiremos uma repetição da situação da França", acrescentou, em uma referência aos distúrbios registrados no ano passado na periferia de Paris. (IPS/Envolverde)

Kester Kenn Klomegah

Kester Kenn Klomegah is the IPS Moscow correspondent. He covers politics, human rights issues, foreign policy and ethnic minority problems. His research interests include Russian area studies and Russian culture. Kester has worked for several years with the Moscow Times. He has studied social philosophy and religion and spent a year at the Moscow State Institute of International Relations. He is co-author of ‘AIDS/HIV and Men: Taking Risk or Taking Responsibility’ published by the London-based Panos Institute. In 2004, he was awarded the Golden Word Prize for excellence in journalism by the Russian Media Union, a non-governmental media organisation in Moscow.

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