Davos, Suíça, 30/01/2006 – Nem privadas, nem públicas. As formas de gestão da água que agora se aplicam na Bolívia têm mais a ver com uma maneira de maior sentido social de acesso a esse recurso, derivada dos ensinamentos dos povos indígenas, segundo a ativista Tania Quiroz. Os problemas da escassez de água potável, de sua distribuição e do sistema de propriedade foram analisados na semana passada em cenários confrontados, na reunião anual do Fórum Econômico Mundial (FEM), em Davos, na Suíça, em Zurique, na conferência sobre "O outro Davos", convocada pela Attac Suíça.
Quiroz, da Coordenadora da Água e da Vida, da Bolívia, expôs a militantes de organizações populares, congregadas no Outro Davos, as experiências vinculadas com os protestos sociais que explodiram nesse país a partir de 2000 e que precipitaram a rescisão dos contratos de exploração da água que estava em mãos de duas multinacionais. No Fórum de Davos, que anualmente reúne líderes empresariais, especialistas e governantes, foi analisada a importância crucial do elemento da sobrevivência humana. Lester R. Brown, presidente do Instituto de Políticas da Terra, observou que a humanidade sobreviveu séculos sem petróleo. Somente duraríamos uns poucos dias sem a água, advertiu o líder da organização que tem sede nos Estados Unidos.
Com previu a Organização das Nações Unidas, a expansão da população mundial e das conseqüentes atividades produtivas aumentam a pressão sobre a água e a escassez que se registra em muitas áreas do planeta, afirmou-se na reunião do FEM. Por exemplo, o rápido crescimento da China e da Índia dispara a demanda de água, porque as populações desses países adotam dietas mais ricas em proteínas. Assim, o abastecimento adequado do elemento é vital para um crescimento econômico sustentável, deduziu o empresário Jamshid Godrej, presidente da companhia indiana Godrej %26 Boyce.
O presidente da multinacional Nestlé, Peter Brabeck-Lethmathe, comentou que a produção de carnes e de outras proteínas dominantes nas dietas modernas requer maior quantidade de água. Talvez bebamos alguns poucos litros desse líquido por dia, mas "comemos" até 15 mil litros no mesmo tempo, afirmou. A média dos humanos necessita beber entre quatro e cinco litros de água diariamente para sobreviver, embora sejam preciso entre dois mil e três mil a cada dia para produzir as calorias que a sobrevivência da mesma pessoa exige. O diretor da agência de desenvolvimento e cooperação do governo suíço, Walter Fust, descartou que a privatização seja a resposta aos problemas do abastecimento de água.
A provisão de água tem a ver com a eficiência e com a maneira que melhor possamos distribuí-la ao menor custo possível. Zoltan Doka, da organização não-governamental Socorro Operário Suíço, disse à IPS que o escritório governamental dirigido por Fust propicia um sistema de associação pública e privada para o manejo da água. Enquanto essas formas de exploração tiverem por objetivo principal o povo, e não o lucro, não me oponho às associações do setor estatal com o privado, disse o ativista da ONG vinculada aos sindicatos suíços, que participou da conferência O Outro Davos. A modalidade da privatização da água chegou à Bolívia pelas mãos do Fundo Monetário Internacional (FMI), que em 1997 a impôs como condição para entregar ajuda a esse país, recordou Quiroz.
Entretanto, além da água, a onda de privatizações do petróleo, eletricidade, assistência social, fundos de pensão, terra e serviços, se estendeu por todos os países da América Latina convertida em um "saque" virtual, disse a ativista boliviana. Quiroz identificou os dois grupos transnacionais que intervieram no negócio da água. A Companhia Águas do Tunari, uma fusão das empresas Bechtel, Edison e Abengoa, manejou os serviços na cidade de Cochabamba, enquanto Águas de Illimani, propriedade do grupo Suez, fez o mesmo em el Alto, uma área vizinha a La Paz. O retrocesso das privatizações só foi possível na Bolívia porque o movimento social se deu conta de que estas multinacionais não solucionaram o problema do acesso à água pelas pessoas pobres, afirmou Quiroz.
Inicialmente, as privatizações pareciam uma solução para o mau serviço prestado pelas empresas públicas, mas não foi assim, pois tanto em El Alto quanto em Cochabamba, sobretudo nas zonas periféricas, foram adotadas iniciativas para obter água através da construção de poços. As pessoas estendiam suas próprias redes de água aonde o serviço municipal não chegava. Agora, é certo que é preciso fazer de uma forma mais ordenada para aproveitar bem a água, recomendou a ativista.
O indígena Evo Morales, do esquerdista Movimento ao Socialismo, assumiu neste mês o governo da Bolívia com promessas de aprofundar esta política referente à gestão e distribuição da água potável no país. Mas é evidente que na Bolívia "estão sendo dadas formas sociais" para atender aos problemas do acesso. Estão recuperando toda a sabedoria e os conhecimentos herdados como ensinamentos dos povos indígenas, disse Quiroz. "É um processo que está "agora mesmo" em construção, em propostas, realmente em etapa de recuperação, porque destes serviços auto-geridos não se falava. E, na verdade, tampouco fazia-se muita força para defender o de cada um, acrescentou Quiroz. (IPS/Envolverde)

