Afeganistão: Comunidade internacional debate plantio ilegal da papoula

Cabul, 27/01/2006 – A luta contra o cultivo ilegal de drogas no Afeganistão será chave na agenda da conferência internacional de doadores, em Londres, da qual participarão representantes de 70 países, na próxima semana. A comunidade internacional, que analisará o curso dos acontecimentos nos dias 31 deste mês e 1º de fevereiro na capital britânica, injetou montanhas de dinheiro para colaborar na erradicação no Afeganistão de cultivos de papoula, principal insumo do ópio, morfina e heroína. O Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Delito (Onudd) comprometeu este ano US$ 70 milhões para o desenvolvimento de explorações agrícolas alternativas apenas na província de Nargarhar.

O cultivo de papoula é a base de 50% da produção interna afegã e de, virtualmente, todas suas exportações e das poucas fortunas pessoais e familiares existentes no país. Segundo a Onudd, 21% das terras cultiváveis no predominantemente montanhoso e desértico país estavam cobertas por papoula no ano passado. Quase 90% dos insumos de opiáceos de todo o mundo procedem do Afeganistão, e a maioria dessa colheita é usada na produção de heroína. No sábado, a Força Especial Antinarcóticos do Afeganistão invadiu laboratórios, depósitos de produtos químicos e de ópio em Nargarhar.

Na operação foram destruídos mais de 370 quilos de drogas e insumos e oito laboratórios com grandes quantidades de precursores químicos, informou o Ministério de Atividades Antidrogas. Também houve operações contra agricultores e traficantes nas províncias de Badghis, Laghman, Zabul, Helmand e Kandahar, entre outras. Os governadores de três províncias do sul, incluindo Helmand, acertaram no último dia 5, em Cabul, dedicar todas suas forças na luta contra o narcotráfico. O comandante das forças da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos que em 2001 derrubou o regime islâmico do Talibã, Col Owns, prometeu na reunião todo seu apoio.

A embaixadora britânica, Rosalind Marsden, que visitou a província no último dia 8, prometeu que "se os agricultores renunciarem ao cultivo da papoula receberão ferramentas, fertilizantes e sementes de qualidade no curto e longo prazo. Tentaremos encontrar mercados internacionais para seus produtos, ajudaremos a reanimar a indústria de Helmand e a reconstruir os sistemas de irrigação", acrescentou a diplomata. Muitos agricultores são veemente contra a decisão. Shah Jaehan, do distrito de Nad Ali, se comprometeu a "proteger os cultivos até à morte".

No ano passado foi colhido em Helmand mais ópio do que em qualquer outra província. Seus desertos estão no núcleo das redes de tráfico que se prolongam até Paquistão e Irã. Informes de imprensa desde a província sugerem que um revivido movimento Talibã estabeleceu vínculos com narcotraficantes e ameaçaram de morte agricultores de povoados distantes que não cultivaram papoula. Quando o Talibã governou com mão de ferro o Afeganistão, entre 1996 e 2001, condenou esse cultivo, considerando-o "antiislâmico". Agora, colhe benefícios econômicos com seu tráfico ilegal.

Por outro lado, agricultores de Badghis advertiram funcionários de segurança, depois das operações de destruição de cultivos nesse mesmo mês na província, que voltariam à papoula se as autoridades não lhes desse meios de sobrevivência alternativos. Um dos agricultores, que pediu para não ser identificado, afirmou: "Cultivei papoula em meus 13 acres. Resistirei ao governo, se não me derem uma alternativa". Por sua vez, Mulla Mirza, do distrito de Jond, afirmou: "O Departamento de Agricultura não nos ajudou nos últimos dois anos. O remédio é voltar ao ópio".

O chefe do Departamento de Agricultura, Shir Aqa Hotak, disse que 75 quilos de fertilizantes e 25 de trigo foram distribuídos entre os camponeses de Badghis, mas admitiu que davam apenas para 12 mil potenciais beneficiários. Segundo estimativas policiais, pelo menos 150 acres eram cultivados com papoula na província. O chefe de polícia, coronel Ghulam Rasool, advertiu que seriam tratados com "mão de ferro". Antes, informou que foram erradicados 70 acres nos distritos de Panjab e Bala-Murghab.

A Força Especial Antinarcóticos destruiu mais de 150 toneladas de ópio, mais de 45 precursores químicos e 191 laboratórios em blitze feitas em todo o país. Uma quantidade não precisada de pessoas foi presa. As autoridades buscaram ajuda dos clérigos islâmicos que se comprometeram a ajudá-los. O governador de Laghman, Shah Mahmood Safi, afirmou que os imãs convenceram muitos agricultores em seus serviços religiosos de sexta-feira. (IPS/Envolverde)

(*) Publicado pela IPS em convênio com a agência de notícias afegã Pajhwok Afghan News.

Ezatullah Zawab

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