Colômbia-Equador: Pânico na fronteira

Bogotá, 02/02/2006 – "As cápsulas e balas caíam como granizo" no fronteiriço povoado equatoriano de Barranca Bermeja durante uma incursão da força aérea da Colômbia, contaram aterrorizados habitantes do lugar. Para Quito, "o ataque foi premeditado". O governo do Equador entregou a Bogotá a terceira nota de protesto desde novembro por incidentes relacionados com a guerra civil colombiana, e desde segunda-feira ativou sua defesa antiaérea. Enquanto isso, o governo de Álvaro Uribe espera o relatório de uma comissão militar binacional para responder à queixa.

Segundo fontes presentes à região, no ataque de sábado ao povoado, com 70% de seus habitantes de origem colombiana, participaram três helicópteros Black Hawk, dois aviões de guerra e um avião-radar. Estes equipamentos fazem parte do Plano Colômbia e de sua fase militar, o Plano Patriota, duas operações financiadas pelos Estados Unidos. Na região são combatidas as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), com quase 42 anos em armas.

O Equador se declarou neutro quanto à guerra interna colombiana e suas autoridades militares asseguraram que não autorizaram as forças armadas do país vizinho a ultrapassar a fronteira quando há enfrentamentos, o que em termos bélicos é conhecido como "perseguição a quente". No ataque, um helicóptero e um avião metralharam em várias oportunidades uma lancha que seguia pelo limítrofe rio San Miguel, na altura da desembocadura do rio Bermeja. Na embarcação viajavam civis integrantes do Comitê Binacional dos Povos da Fronteira do Equador e da Colômbia, que representa 250 organizações de base da província equatoriana de Sucumbíos e 240 "veredas" (vizinhança rural) da zona limítrofe dos departamentos colombianos de Putumayo e Nariño.

Diretores do Comitê estavam na região para verificar uma denúncia anterior sobre violação do espaço aéreo equatoriano por parte de militares da Colômbia. Os aviões militares colombianos "começaram a dar voltas sobre a embarcação e os disparos atingiram a água a poucos centímetros dos dois lados da lancha", diz um comunicado do Comitê distribuído pela agência equatoriana Altercom. "Ao ver e ouvir os disparos, as crianças que viajavam até uma propriedade próxima começaram a chorar desesperadamente, o que nos obrigou a encostar na margem colombiana do rio, porque do lado equatoriano havia muitos disparos", prossegue o relato.

"Nesse momento uma senhora saía com uma menina nos braços, gritava desesperadamente e ao ouvir o barulho da lancha pediu ajuda", porque a margem colombiana também estava sendo metralhada. Ao regressarmos para o Equador, a embarcação apresentou um defeito mecânico e "ficamos parados por um bom tempo, suportando o fogo de metralhadora", diz o documento. "Diante do medo e pânico, decidimos tirar as roupas de cor branca e agitá-las em sinal de paz, a fim de demonstrarmos que éramos civis, o que não foi suficiente, pois continuaram nos atacando", afirma o comunicado.

"Apoiados na força da corrente do rio e agitando panos brancos, seguimos rio abaixo, mas o assédio das aeronaves continuou até chegarmos a Barranca Bermeja", segundo os membros do Comitê. "Quando regressamos a Barranca, comprovamos que a população havia fugido apavorada para Santa Rosa, um povoado mais ao centro do país", disse à IPS o advogado Ernesto García, membro do Comitê Binacional e que estava na lancha. "Os tiros de metralhadora atingiram o teto da casa de Ciro Tapieiro, onde funcionava um humilde serviço de refeições", disse o Comitê.

"Não havia irregularidades entre os colombianos, pelo menos entre 10 da manhã e duas da tarde, quando estávamos presentes", acrescentou García. Tampouco os moradores registraram combates na Colômbia antes dessa hora de sábado. Segundo um comunicado de La Comuna, organização social em Quito, entre 9 e 11 horas local o exército colombiano teria desembarcado entre 220 e 360 unidades aerotransportadas em território equatoriano, utilizando 11 helicópteros Black Hawk, para realizar uma "operação de rastreamento", supostamente contra as Farc. "Isso é o que comentam os moradores de Barranca. Eu não constatei nada", disse García.

"Barranca foi bombardeada em uma área de aproximadamente cinco quilômetros. Como prova disso, temos cerca de 50 cápsulas" de metralhadora Ponto 50, cujos projéteis são quase tão grandes quanto uma mão humana, acrescentou. Os fatos aconteceram entre um setor águas acima dos rios Bocachica e Bermeja, e na desembocadura deste último sobre o limítrofe rio San Miguel, onde fica o povoado de Barranca Bermeja. O rio San Miguel tem, nesse local, 80 metros de largura. "O que nos faz presumir que com absoluto critério, conhecimento, vontade e premeditação foi planejado nesse sentido um ataque aéreo", disse o chanceler equatoriano, Francisco Carrión. "Uma ilegalidade (a guerrilha) não pode ser combatida com outra", disse o ministro da Defesa do Equador, Oswaldo Jarrín, à emissora colombiana La W.

O exército equatoriano chegou às 14 horas a Barranca, sete horas depois de iniciados os ataques contra civis no sábado, disse García ao desmentir as autoridades de seu país que afirmaram que o exército se dirigiu imediatamente ao lugar. O Comitê Binacional dos Povos foi criado em outubro em Sucumbíos, em um fórum de habitantes de fronteira reunido "para lutar contra a violência da soberania, o tratado de livre comércio (que os dois governos negociam com os Estados Unidos) e as políticas referentes ao petróleo", acrescentou. (IPS/Envolverde)

Constanza Vieira

Constanza Vieira, la corresponsal de IPS en Colombia, ejerce el periodismo desde hace casi cuatro décadas. Desarrolló su carrera en medios internacionales, entre ellos Deutschlandfunk, Deutsche Welle, Water Report del Financial Times y National Public Radio. Si le preguntan por lo que más le gusta cubrir, contesta: "La pasarela de la moda de Milán", una forma de indicar que no es corresponsal de guerra y que, si se adentra en temas militares, es únicamente por la necesidad de describir los rostros poco contados del conflicto armado de decenios que afecta a su país. Por una búsqueda, parte de esa cobertura, entró a Twitter, donde hoy tiene dos cuentas: @ConstanzaVieira y @HeavyMetalColom, esta última asociada a su blog en IPS, Heavy Metal Colombia, titulado así "porque el plomo es un metal pesado, y en este país cada cual tiene asignada su dosis personal". ¿Su cuenta en Facebook? "Cuando tenga tiempo la cierro". Constanza trabaja para IPS desde agosto de 2003. En 2005 obtuvo el Premio "Richard de Zoysa" a la Excelencia en Periodismo Independiente, en la categoría Coberturas Peligrosas.

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