Buenos Aires, 02/02/2006 – Não há indígenas, camponeses nem ninguém que cuide de seus recursos como nas florestas, selvas ou montanhas. O mar não tem quem o defenda, pelo menos na Argentina, com quatro mil quilômetros de costa oceânica e nenhuma reserva específica que proteja sua zona econômica exclusiva. Não é que a área seja pobre em recursos. Uma das maiores fontes de merluza e de lula está ao sul do oceano Atlântico, cujo litoral recebe milhares de turistas a cada ano para desfrutar de praias, avistar baleias e percorrer seus múltiplos santuários naturais onde há pingüins, lobos e elefantes marinhos.
Por essa razão, a Fundação Vida Silvestre (FVS), organização ambientalista que trabalha pela preservação dos recursos naturais, lançou esta semana uma campanha nas rádios de todo o país no sentido de conscientizar sobre a importância de cuidar do mar que banha a costa. "Queremos sensibilizar sobre um tema que, em geral, é ignorado, mas que tem um custo cotidiano quando as pessoas desfrutam das praias ou quando comem pescado ou mariscos", disse à IPS o diretor de Conservação da FVS, Marcelo Acerbi. Na Argentina existem 40 áreas protegidas de costas marítimas que são de jurisdição, local, provincial ou privada e cujo funcionamento, na maioria dos casos, é deficiente ou nulo.
Apenas uma reserva pertence ao Estado nacional, sem ser estritamente marinha, e não foi delimitada por vontade do governo, mas da FVS. Trata-se do Parque Nacional Monte Leon, na província de Santa Cruz, com 32 quilômetros de costa. A região protegida não é uma área costeiro-marinha. "A rigor, a Argentina não tem nenhum parque nacional marinho cuja finalidade seja exclusivamente o de proteger as águas", disse Acerbi. Não é o caso de seus vizinhos. O Brasil tem duas áreas marinhas protegidas e uma em vias de construção. O Chile também possui uma zona criada e outra em projeto. Justamente a existente no Chile foi tomada como exemplo em uma das peças publicitárias para as rádios da Fundação com parte de sua campanha.
"No mar, as áreas protegidas são como uma apólice de seguro para os pescadores porque asseguram a reprodução dos peixes", diz o anúncio. No Chile, a criação da reserva Punto El Lacho, há quatro anos, permitiu multiplicar por 10 a captura do "loco", um molusco do oceano Pacífico, acrescenta o aviso. O exemplo se repete nos Estados Unidos, Japão ou África do Sul, onde a valorização do mar e de seus recursos se expressa na criação de áreas protegidas que dependem do governo nacional. Em todos os casos, sua demarcação e administração contribuíram para melhorar a qualidade e quantidade dos recursos.
"Queremos que haja pesca para sempre. É necessário criar uma rede de áreas protegidas marinhas e não apenas provinciais, mas também federais", diz o anuncio da FVS, realizado em conjunto com a Associação de Radiodifusoras Privadas Argentinas. A Fundação não quer que a campanha aponte apenas para a conservação, mas também para a possibilidade de um uso sustentável das áreas marinhas, especialmente para o turismo e a pesca. Mas como fazer para delimitar e preservar uma zona marinha? "Sem dúvida, é mais complicado do que em terra", admitiu Acerbi. Primeiro se deve determinar quais são os recursos que se quer preservar e, depois, delineá-la através de coordenadas geográficas, explicou o especialista.
A vulnerabilidade é determinada em função de espécies que estejam ameaçadas ou pela necessidade de cuidar de um local aonde vão se alimentar. Mas também diz respeito à preservação de paisagens costeiras características de algumas regiões com afluência maciça de turistas como as praias da província de Buenos Aires. Uma vez estabelecida a reserva com base na informação científica executa-se a demarcação da área. A zona mais sensível se destina à conservação estrita, outra é dedicada à atividade humana sustentável e controlada, e uma terceira fica para usos científicos a fim de continuar conhecendo os segredos do mar, destacou Acerbi.
O manejo das reservas marinhas depende da jurisdição, mas a FVS acredita que o melhor é envolver todos os atores relacionados com o mar. Autoridades, nacionais, provinciais, locais, membros da Prefeitura Naval e também cientistas, ambientalistas, pescadores e empresários do setor de turismo. "São necessárias formas de manejo modernas e participativas", disse Acerbi. "É impossível, por exemplo, marginalizar o setor pesqueiro do manejo das reservas porque a conservação dos recursos da pesca é a garantia de sustentabilidade de seu negócio", acrescentou.
As áreas protegidas permitem delimitar até onde podem chegar os barcos pesqueiros, quanto podem permanecer na zona e em que época. O mesmo acontece com o setor de avistamento de baleias, que deve ser regulamentado com cotas de turistas e estabelecimento de uma distância prudente para não invadir a zona aonde chegam os cetáceos para sua reprodução. "Os baleeiros são aliados indispensáveis na proteção do mar, e muitos deles já estão trabalhando nessa direção", destacou o especialista. (IPS/Envolverde)

