Birmânia: Insurgência Karen não larga as armas

Bangcoc, 06/02/2006 – Os rebeldes armados da comunidade étnica Karen renovaram, ao completar 57 anos de sua luta pela autonomia, o compromisso de não se render diante da ditadura militar da Birmânia. A União Nacional Karen parece resignada a submergir em uma guerra de longo prazo, ignorada pela comunidade internacional e pela maioria dos meios de comunicação do mundo. Esta organização rebelde, uma das mais antigas da Birmânia, já não espera a atenção que a imprensa internacional dedica aos rebeldes do Movimento Aceh Livre, na Indonésia, ou aos Tigres Tamis, do Sri Lanka.

Ao celebrar um novo aniversário de sua criação, em seu bastião perto da fronteira com a Tailândia, a União Nacional Karen destacou, na terça-feira passada, sua determinação de não fraquejar na luta, porque, segundo afirmam seus dirigentes, a ditadura militar birmanesa não lhe oferece alternativa. "Render-se está fora de questão para nós", disse à IPS Mahn Sha Lah Phan, secretário-geral da organização, após a celebração em algum lugar da fronteira. A União Nacional Karen não descartou um diálogo político com a junta militar que governa o país, que se faz chamar de Conselho Estatal de Paz e Desenvolvimento. "Estamos preparados para um diálogo político significativo com o Conselho, mas eles não estão interessados", disse Lah Phan.

A organização rebelde exige a autonomia política da região que se estende ao longo da fronteira oriental da Birmânia, onde vivem sete milhões de membros da etnia Karen. O país tem um total de 50,5 milhões de habitantes. "Queremos igualdade nacional para os Karen e que nos reconheçam o direito à autodeterminação", afirmou o dirigente. "Isso pode ocorrer no contexto de uma federação dentro da Birmânia. Não estamos a favor da separação nem tentamos dividir o país", acrescentou. A posição da União Nacional Karen marca um grande contraste com a de outras 17 organizações rebeldes de caráter étnico que assinaram acordos de cessar-fogo com a ditadura birmanesa desde meados dos anos 90.

Entretanto, outros insurgentes, como os das comunidades shan e karenni, continuam armados. Para os Karen, os karenni e os shan, a suspensão do diálogo político para a redação de uma nova Constituição birmanesa, decidida esta semana pela ditadura, foi muito oportuna, pois demonstra que estavam no caminho certo ao não cederem diante dos birmaneses. "O cessar-fogo não conduziu a acordos de paz nem a uma reforma fundamental da estrutura política ou do desenvolvimento econômico nas áreas de onde procedem as 17 organizações étnicas que o assinaram", disse Debbie Stothard, da não-governamental Red Alternativa de Asean, que defende os direitos humanos no sudeste asiático. "O Conselho ganhou mais controle às custas dos grupos rebeldes", acrescentou.

Supunha-se que a Convenção Nacional para elaborar a nova Constituição cuidasse do assunto, mas esta instância não foi propícia para que as organizações signatárias do cessar-fogo expusessem suas demandas. As propostas foram rejeitadas, lembrou Stothard. "E o que é pior é que as violações de direitos humanos por parte do exército birmanês não acabaram nas áreas do cessar-fogo", acrescentou a ativista. Entre as sete demandas destas comunidades na sessão da Convenção Nacional em fevereiro e março de 2005 figurava a criação de uma estrutura política federal, com constituições, corpos legislativos e referendos separados para obter a aprovação popular.

A batalha que as comunidades étnicas birmanesas travam contra a ditadura costuma ficar fora de foco na imprensa internacional diante da luta que a Liga Nacional para a Democracia, liderada pela prêmio Nobel da Paz e presa política, Aung San Suu Kyi. Os generais não discriminam: transgridem os direitos humanos tanto de opositores políticos quanto de dirigentes das comunidades étnicas, onde são freqüentes as violações, os trabalhos forçados e os ataques indiscriminados, segundo ativistas. A ditadura nega as acusações e adverte que, desde sua instauração com o golpe de Estado de 1962, manteve unido este país do sudeste da Ásia.

A Birmânia tem aproximadamente 130 comunidades étnicas. Entre elas, as maiores são as chin, kachin, Karen, karenni, mon, rakhine e shan, que povoam principalmente as regiões limítrofes do país. Na noite em que a Birmânia ficou independente dos britânicos, em 1948, foi alcançado um acordo que assegurava a igualdade entre todos os grupos étnicos e a maioria birmanesa. Porém, as promessas desse documento, o Panglogng Accord, nunca foram implementadas. (IPS/Envolverde)

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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