Cuba-EUA: Tensões continuam, mas não assustam

Havana, 07/02/2006 – A chamada guerra de cartazes protagonizada pelo governo de Cuba e a representação dos Estados Unidos em Havana não atinge por igual a população cubana, apesar de ter introduzido maiores tensões nas sempre complexas relações bilaterais. "Isto é mais do mesmo", disse à IPS um homem que no final de semana passeava com seu cão por uma das ruas que leva à Seção de Interesses dos Estados Unidos (Sina), diante da qual prosseguem os trabalhos de ampliação da Tribuna Antimperialista, construída há cinco anos.

Parte do que até há 10 dias era o estacionamento do Sina agora está ocupada por quase uma centena e meia de mastros, alguns com mais de 30 metros de altura, colocados próximos um do outro e prontos para receberem bandeiras. Supõe-se que estas formarão uma barreira para impedir a leitura do letreiro luminoso instalado, desde janeiro, no quinto andar do enorme edifício que abriga a Sina, que transmite mensagens políticas através de notícias diárias, frases de personagens famosos, fragmentos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e comentários diversos. Segundo algumas versões não confirmadas oficialmente, o local será batizado como "monte das bandeiras" e simbolizará "os anos de luta" do povo cubano por sua independência.

Enormes refletores iluminam o conjunto, em franco desafio á campanha para economizar energia elétrica iniciada no ano passado. "Será bonito, sobretudo à noite, mas diria que é um gasto desnecessário. Li algo do que é mostrado no letreiro e, na verdade, não dizem nada do que eu já não sabia", acrescentou o homem, antes de afastar-se lentamente e segurando firme a guia de seu cão. Às suas costas, a Sina continua a transmissão de mensagens, iniciada em meados de janeiro: "Impressiona a rapidez das obras, que demonstra a força dos trabalhadores cubanos", Moradores de Havana comentam que os recursos teriam sido melhor aproveitados em reparos gerais", "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros" (citação do escritor britânico George Orwell).

Entretanto, outros concordam com o governo de Fidel Castro, para quem o luminoso é uma "provocação" para interromper as precárias relações que os dois países têm desde setembro de 1977, quando foram inauguradas oficialmente seções de interesses em Washington e Havana. "A Sina é um centro de provocação. Nenhuma embaixada do mundo se dedica a colocar cartazes em sua fachada", disse à IPS o opositor Eloy Gutiérrez Menoyo, que, entretanto, descartou totalmente que esse confronto acabe em rompimento. "Não convém a nenhum dos lados. Nem o governo cubano tem interesse em expulsar Michael Parmly (chefe da Sina), nem os Estados Unidos pensam e se retirar daqui", afirmou.

Menoyo regressou de seu exílio em Miami em agosto de 2003 para viver em Havana, embora ainda aguarde autorização oficial de residência. O certo é que um rompimento desse único canal diplomático bilateral pesaria gravemente sobre acordos migratórios assinados em 1994 e 1995 para garantir uma emigração "ordenada e segura" de cidadãos cubanos para os Estados Unidos, onde residem mais de um milhão de pessoas nascidas na ilha. "O pai de uma de minhas alunas está nos Estados Unidos, e a pobrezinha acredita que não o verá mais se for à Sina", contou à IPS uma professora do ensino básico que não quis dar seu nome e afirmou esperar que "o sangue não chegue ao rio" e que "venha a calma, depois da tempestade".

Na semana passada, respondendo uma pergunta da IPS, o chefe da Sina admitiu que o funcionamento desses convênios seria obstaculizado em caso de faltar essa legação. "Seria complicado, não vejo como poderiam funcionar", disse Parmly, recordando que o trabalho consular ocupa boa parte do pessoal da Sina. O diplomata não considera provocadoras as mensagens transmitidas pelo letreiro luminoso, sendo parte de uma estratégia para "comunicar-se" com o povo cubano. Os ecos do confronto tampouco chegaram ao mundo dos negócios, a julgar pelo interesse de importantes companhias norte-americanas que se reuniram sexta-feira e sábado no México com autoridades cubanas do setor energético para conhecer a possibilidade de prospectar petróleo em Cuba.

No encontro, o vice-ministro da Indústria Básica de Cuba, Raúl Pérez de Prado, e executivos da empresa Cuba Petróleo (Cupet) convidaram os empresários dos Estados Unidos a participarem da busca de petróleo que o Estado cubano realiza em sociedade com capital estrangeiro. O bloqueio econômico e comercial que Washington mantém contra Havana proíbe todo tipo de negócios com o governo de Castro, embora desde 2001 seja permitida a venda de alimentos através de operações à vista que atualmente chegam a US$ 500 milhões ao ano.

O estabelecimento de seções de interesses pôs fim à ausência total de vínculos diplomáticos diretos desde o rompimento das relações bilaterais no dia 3 de janeiro de 1961. Além de servir com canal de comunicação entre os governos, prestam serviços consulares aos cidadãos cubanos e norte-americanos. Entretanto, nos últimos anos houve vários momentos de tensão, marcados por reiterados ataques verbais de Fidel Castro contra um maior ativismo político em Cuba por parte da diplomacia norte-americana. A Sina é "um posto de comando" da contra-revolução", afirmou o presidente na semana passada. Parmly assumiu o cargo em setembro de 2005 e com sua iniciativa de colocar o painel luminoso abriu o que considera um novo capítulo da guerra dos cartazes, inaugurada por seu antecessor James Cason, caricaturizado na televisão estatal cubana como "cabo Cason". (IPS/Envolverde)

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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