México: Violência do narcotráfico contra jornalistas

México, 08/02/2006 – A zona mais perigosa da América Latina para os jornalistas é a fronteira do México com os Estados Unidos, onde os narcotraficantes os assassinam, raptam e ameaçam, segundo a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP). A violência contra os jornalistas foi expressa pela enésima vez na noite de segunda-feira, quando encapuzados invadiram o jornal El Mañana, na cidade de Novo Laredo, dispararam mais de 30 tiros e jogaram uma granada, ferindo gravemente um jornalista. "Este ataque superou qualquer limite, e é evidente que o governo não pode, não quer ou não sabe como enfrentar esta onda de violência contra os jornalistas e a liberdade de imprensa", disse à IPS Eréndira Cruz, diretora do não-governamental Centro Nacional de Comunicação Social.

Em sua edição de terça-feira, o jornal, cujo diretor editorial foi assassinado em 2004, disse em editorial que o novo atentado foi "uma página a mais da violência que chega ao terrorismo", e afirmou "que o problema do narcotráfico supera as autoridades". O ataque contra o El Mañana aconteceu em meio a uma onda de assassinatos e enfrentamentos entre grupos de narcotraficantes, que já deixaram mais de cem mortos desde 1º de janeiro e cerca de 1.500 em todo o ano de 2005. A Federação de Associações de Jornalistas Mexicanos e a Federação Latino-americana de Jornalistas informaram que durante a presidência de Vicente Fox, iniciada em 2000, foram assassinados 20 profissionais. Durante o governo de Ernesto Zedillo (1994-2000), foram 19 jornalistas mortos e na administração de Carlos Salinas (1988-1994) morreram 57.

Como em ocasiões anteriores, porta-vozes do governo Fox condenaram o último ataque, ofereceram apoio às vítimas e prometeram desenvolver uma investigação profunda. "O que está claro é que o governo não cuida do problema e que suas promessas não passam de palavras", afirmou Cruz. Nos últimos anos, o governo recebeu em várias ocasiões as associações de jornalistas e grupos afins e se comprometeu a garantir seu trabalho. Porém, os atentados e as ameaças, especialmente na zona de fronteira com os Estados Unidos, não cessam. Segundo a SIP, que reúne proprietários e diretores de órgãos de imprensa da América Latina e do Caribe, a zona mais perigosa para exercer o jornalismo na região é a extensa fronteira mexicana com os Estados Unidos.

A maioria dos jornalistas e dos meios de comunicação nessa região, incluindo o El Mañana, reconhecem que diante do medo e das ameaças optaram por se autocensurar na hora de informar sobre o narcotráfico. Muitos fatos ocorridos na fronteira e noticiados pela mídia da capital já não aparecem nesses diários. Os que denunciam ter recebido ameaças não são apenas jornalistas dedicados à informação policial, mas também outros que se dedicam a outras áreas. A maioria dos crimes contra jornalistas permanece impune, como quase todos os cometidos por grupos de narcotraficantes.

Organizações internacionais como o Comitê para a Proteção de Jornalistas e Repórteres Sem Fronteiras alertam que exercer o jornalismo no México é hoje uma das atividades mais perigosas. Em janeiro, delegados de 40 jornais desse país se reuniram em Novo Laredo e decidiram trabalhar em conjunto no esclarecimento dos crimes e continuar as investigações sobre narcotráfico que eram feitas pelos jornalistas assassinados. O governo Fox comemorou a iniciativa e prometeu colaborar. As organizações de jornalistas reclamam do governo federal que cuida da investigação dos crimes, comumente confinadas no âmbito da polícia dos diferentes Estados.

O governo, reconhecido como respeitoso da liberdade de expressão, encaminho vários casos a promotores-gerais. Mas afirma que as leis inibem a jurisdição federal na investigação de crimes cometidos nos Estados. Os narcotraficantes mexicanos, que agem em coordenação com os da Colômbia e de outros países produtores de drogas, são responsáveis pelo transporte de 70% da cocaína consumida nos Estados Unidos, o principal mercado mundial, além de importantes quantidades de heroína, metanfetaminas e maconha.

O governo e os observadores atribuem o aumento exponencial da violência na fronteira a uma guerra interna entre as organizações narcotraficantes pelo controle das rotas de acesso aos Estados Unidos. Tal enfrentamento teria origem na detenção dos principais chefes das máfias, um êxito reconhecido para a administração Fox. O governo enviou centenas de soldados e policiais para as zonas de maior violência e anunciou estratégias para combater seus responsáveis, mas não conseguiu deter os crimes. (IPS/Envolverde)

Diego Cevallos

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