Religião: Caricaturas de Maomé reavivam antiga divisão

Paris, 07/02/2006 – As caricaturas de Maomé publicadas por diversos jornais europeus deixam evidente um crescente pré-julgamento contra o mundo islâmico, segundo dirigentes e intelectuais das comunidades muçulmanas francesas. "O profeta fundou uma religião pacífica e de modo algum teve a intenção de inspirar o fanatismo terrorista", disse à IPS Dalil Boubakeur, clérico da Mesquita de Paris e presidente do Conselho Muçulmano francês. "Nós, muçulmanos, queremos insistir nas convicções pacíficas de nossa religião, e nunca aceitaremos que seja deformada", acrescentou.

O líder religioso também descreveu as 12 caricaturas, publicadas no dia 30 de setembro do ano passado pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten, como uma interpretação "inaceitável e intencional de nossas crenças". Uma delas mostra o profeta portando uma bomba com o pavio acesso sobre sua cabeça, em lugar do turbante. Abdelwahab Meddeb, professor de literatura comparada na Universidade de Sorbonne, na França, e especialista em Islã, disse que o questionável não é o fato de as ilustrações violarem as normas do Islã contra a representação do profeta Maomé em imagens, sejam positivas ou negativas.

"A questão é se alguém mostra o profeta como terrorista, está seguindo uma polêmica tradição antimuçulmana firmemente arraigada no pensamento europeu desde a Idade Média", disse Medebe à IPS. "Essa tradição mostra Maomé como um falso profeta, como um impostor, em clara ofensa aos pontos de vista muçulmanos sobre sua vida e sua obra". Os líderes muçulmanos em outros países europeus expressaram temores semelhantes. Ayyub Axel Koehler, novo presidente do Conselho Central Muçulmano Alemão, descreveu as caricaturas dinamarquesas como "blasfemas e insultantes".

Os desenhos, depois impressos em jornais da Alemanha, Áustria, Espanha, França, Itália, Suíça e de outros países europeus, provocaram uma onda de manifestações violentas no mundo árabe e muçulmano, incluindo ataques contra representações diplomáticas européias na Síria e no Líbano. Além disso, as historietas cobraram um alto preço diplomático na Dinamarca. Líderes religiosos e políticos de todo o mundo muçulmano chamaram um boicote aos produtos dinamarqueses e a Arábia Saudita, inclusive, retirou seu embaixador de Copenhague como demonstração de seu descontentamento. As manifestações sugerem que as caricaturas dinamarquesas contribuíram para reforçar o cisma político que divide a Europa do mundo muçulmano.

Porém, líderes muçulmanos expressaram certa satisfação com a demissão, no último dia 1º do secretário de redação do jornal francês France Soir, Jacques Lefranc, por ter determinado a impressão das caricaturas. "Agradeço ao chefe do France Soir por esta decisão e sua coragem", disse Mohamed Bechari, presidente da Federação Nacional de Muçulmanos franceses. O jornal francês havia publicado as 12 caricaturas dinamarquesas e defendeu essa decisão em editorial, argumentando que a liberdade de imprensa e a liberdade para satirizar eram mais importantes do que o respeito por tabus religiosos. "Nenhum dogma religioso pode ser imposto a uma sociedade secular e democrática", alegou o jornal.

Entretanto, esta posição foi mantida apenas por umas poucas horas. No final do dia, o diretor do jornal, Raymond Lakah, um empresário franco-egípcio, havia demitido Lefranc, Bechari desprezou o argumento de que a liberdade de imprensa é mais importante do que respeitar os tabus religiosos. "Em nome da liberdade de imprensa, alguns europeus estão dispostos a insultar as convicções religiosas de 1,2 milhão de muçulmanos de todo o mundo", disse Bechari à IPS. Também qualificou as caricaturas de "outra provocação contra os muçulmanos", a qual "inspira uma ampliação da divisão entre o mundo ocidental e o Islã e a apoiar o choque de culturas".

"Desde o 11 de setembro de 2001, os muçulmanos de todo o mundo pagam um preço tremendo", disse Bechari à IPS. "Enquanto via as caricaturas do France Soir, me dei conta de que os esforços de milhões de muçulmanos para se integrar à sociedade européia foram reduzidos a nada". Curiosamente, este ponto de vista agora também é compartilhado pelo jornalista dinamarquês que originalmente publicou as ilustrações. Carsten Juste, editor-geral do Jyllands-Posten, que em setembro passado decidiu pela publicação para demonstrar que a imprensa dinamarquesa estava praticando autocensura sobre temas relacionados ao Islã, agora diz que lamenta a decisão.

"Em uma declaração publicada no dia 31 de janeiro no site do jornal, Juste se desculpou por ofender os muçulmanos. Entrevistado por um jornal sueco na semana passada, o jornalista acrescentou que "o abismo que divide os povos do mundo ocidental e muçulmano é mais largo do que o Grand Canyon do Colorado". Por outro lado, especialistas debatem se a proibição islâmica de representar o profeta Maomé em imagens realmente existe. "As imagens, em geral, são rejeitadas pelos textos fundamentalistas do Islã", disse Meddeb. Uma passagem do Corão narra uma discussão entre Maomé e sua esposa Aícha sobre imagens que ela tinha de um primo. "Não vê que uma casa com imagens será abandonada pelos anjos?", advertiu Maomé a Aícha.

Meddeb disse à IPS que a tradição islâmica proíbe as imagens porque, "o imitar a vida, se comprometem em uma competição ridícula com Deus. Estas imagens artificiais nunca terão uma alma, em oposição à vida criada por Deus. E, então, existe o perigo da idolatria". Mas ao mesmo tempo, explicou, não há uma proibição específica sobre imagens de Maomé. "A tradição iconográfica islâmica seguiu a cristã. Há livros árabes cheios de imagens do profeta. O que nunca se encontrará na iconografia islâmica é uma representação de Deus".

Jean-François Clément, especialista francês em ícones islâmicos, concorda que não existe uma proibição específica de mostrar Maomé. "A proibição geral de representações em imagens está dando voltas desde a Idade Média", disse Clement à IPS. "Os artistas na Índia, Pérsia e no Império Otomano representaram o profeta em miniatura, o que reduz o perigo da idolatria. Outro método foi representar Maomé sem rosto: sem lábios, orelhas, nariz, olhos, e assim sucessivamente. Alguns artistas, inclusive, puseram um véu sobre o rosto de Maomé", explicou. (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *