EUA: Pouco investimento em fontes alternativas de energia

Washington, 06/02/2006 – O compromisso com o desenvolvimento de fontes limpas de energia formulado pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, foi aplaudido por ambientalistas e especialistas, os quais, entretanto, não deixaram de questioná-lo por certa timidez. Bush fez o anúncio no discurso sobre o Estado da União, informe anual da Presidência perante o Congresso em que os mandatários estabelecem suas agendas para os próximos 12 meses. Ambientalistas e outros defensores das fontes limpas de energia concordaram com o panorama traçado por Bush sobre o "vício do petróleo" dos Estados Unidos, mas disseram que a solução proposta – 22% de aumento nos fundos para a pesquisa – é muito pequena.

Também se desiludiram pelo fato de o mandatário nem mesmo mencionar o aquecimento global, atribuído pela maioria dos cientistas às emissões de gases causadores do efeito estufa provocada pela queima de petróleo, carvão e outros combustíveis fósseis. Os Estados Unidos, um dos países industrializados que não ratificaram o Protocolo de Kyoto para reduzir a liberação desses gases na atmosfera, concentram 25% das emissões mundiais. "Se ignora completamente o aquecimento, o maior desafio de todos, seus planos nunca serão adequados", disse Steve Cochran, porta-voz da organização Defesa Ambiental, que acusou Bush de "pensar pequeno".

"Seus comentários foram deploravelmente insuficientes", afirmou em editorial o jornal The New York Times na quarta-feira, horas depois do discurso de Bush no Congresso. A aprovação pública do governo, segundo as pesquisas, estão hoje muito abaixo da de antecessores de Bush no mesmo período de seu segundo mandato presidencial, como Ronald Reagan (1981-1989) e Bill Clinton (1993-2001). Na primeira parte de seu discurso de uma hora, Bush se aferrou à sua habitual retórica pró-democrática e à defesa de sua "guerra contra o terrorismo". O restante foi de uma incomum modéstia, tanto no tom quanto na substância.

"Que eu me lembre, este é o primeiro Estado da União em que o status do presidente, mais do que potencializado, acabou reduzido", escreveu Ryan Lizza, veterano analista político da revista The New Republic. "Castigado. Respeitoso. Modesto", afirmou Robert Brownstein, jornalista do Los Angeles Times. A "cautelosa agenda" delineada por Bush "parecia aspirar menos a transformar o debate político do que a ajudar" seus correligionários do Partido Republicano "a sobreviverem a um contexto político hostil" às vésperas das eleições parlamentares de novembro, segundo Brownstein.

Funcionários do governo haviam adiantado aos jornalistas que os anúncios de Bush em matéria de energia seriam ousados e de longo alcance. Mas foram anticlimáticas, particularmente devido à forte retórica que usou para apresentá-las. "Temos um problema sério: os Estados Unidos são viciados em petróleo, que freqüentemente é importado de zonas instáveis do mundo", afirmou. O desenvolvimento de tecnologias alternativas proposto terá o objetivo de "substituir mais de 75% de nossas importações de petróleo do Oriente Médio para 2025", ressaltou.

"Aplicando o talento e a tecnologia dos Estados Unidos, este país pode melhorar drasticamente nosso ambiente, mover-se para além de uma economia baseada sobre o combustível e converter nossa dependência no petróleo do Oriente Médio em coisa do passado", acrescentou Bush. O mandatário calculou que seu governo gastou quase US$ 10 bilhões no desenvolvimento de fontes alternativas e anunciou um projeto de lei que, se aprovado pelo Congresso, somará US$ 300 milhões em 2007 o gasto do Departamento de Energia nessa área.

Segundo um documento distribuído depois pela Casa Branca, o aumento será dividido entre vários programas pré-existentes, incluindo o desenvolvimento de células de combustível de hidrogênio, de "etanol celulósico" (a partir de fibras vegetais hoje consideradas resíduos agrícolas), de tecnologias limpas de carbono e de energia solar, e pesquisas sobre energia eólica. "O nível retórico foi dramático, mas as propostas políticas foram mansas", disse David Sandalow, diretor do Projeto de Meio Ambiente e Energia da Instituição Brookings, uma organização de especialistas centristas com sede em Washington.

O colaborador de um legislador notou que US$ 300 milhões em financiamento adicional equivaliam ao que Washington gasta atualmente em dois dias de operações no Iraque. Bush "se dá conta de que a alta demanda de energia é um problema – especialmente a demanda de petróleo – e que este assunto tem de ser abordado", disse Janet Sawin, diretora do Programa de Energia e Mudança Climática na organização ambientalista WorldWatch Institute. "Mas enquanto a pesquisa e o desenvolvimento são importantes, é preciso fazer muito mais pela conservação e eficiência", disse. Isso faltou nas propostas de Bush, segundo Sawin.

O fato de Bush se concentrar em reduzir a dependência do Oriente Médio, que atualmente representa apenas 17% das importações de petróleo pelos Estados Unidos, foi alvo de críticas inclusive entre seus aliados neoconservadores. Figuras do setor oficialista alegaram que o impacto da demanda norte-americana nos preços internacionais do petróleo – sem considerar sua origem – é o que dá poder e enriquece os exportadores do Oriente Médio, como Arábia Saudita, a qual, advertem, contribui direta ou indiretamente com os movimentos radicais islâmicos que ameaçam os Estados Unidos e Israel. "Não importa se compramos petróleo do Oriente Médio", disse ao The New York Times Gal Luft, co-diretora do Instituto para a Análise da Segurança Global, porque nesse caso "alguém mais o fará, apoiando os mesmos regimes", acrescentou.

O colunista econômico do jornal The Washington Post, Steven Pearlstein, adotou um ponto de vista particularmente cínico das propostas de Bush. "Alguém acredita realmente que um presidente e um vice-presidente que ficam ricos por sua associação com a indústria do petróleo e do gás, que nunca deixaram de promover a cadeia industrial e que presidiram a maior transferência de riqueza dos consumidores para a indústria na história da humanidade, nos levará para além de uma "economia baseada no petróleo" para uma baseada em "lascas de madeira, caule ou pastagem de gravetos?", escreveu Pearlstein, se referindo à descrição que Bush fez das fontes de etanol celulósico.

Na noite do discurso de Bush, a maior empresa energética do mundo, a ExxonMobil, anunciava que no ano anterior obteve lucros sem precedentes para uma companhia norte-americana: US$ 36 bilhões. Isto é atribuído ao aumento do preço do petróleo e do gás, bem como por generosas isenções de impostos e outros subsídios promovidos por Bush e pelo Congresso de maioria republicana. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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