Darfur: Intervenção militar pode ser votada na ONU

Washington, 06/02/2006 – Os Estados Unidos devem aproveitar que este mês ocupa a presidência do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas para promover o envio de uma força de paz para a região sudanesa de Darfur, afirmam ativistas pelos direitos humanos. O objetivo imediato é proteger os civis das milícias árabes janjaweed (homens a cavalo) apoiadas pelo governo do Sudão, que intensificaram seus ataques nos últimos meses. A última declaração da presidência do Conselho, divulgada pelos Estados Unidos e aprovada pela Grã-Bretanha, exorta o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, a preparar planos de contingência para uma operação militar.

Porém, essa declaração é insuficiente diante da gravidade da crise em Darfur, qualificada de "genocídio" pelo próprio presidente George W. Bush, ressaltaram os ativistas. "Já temos um monte de declarações", disse Salih Booker, da organização não-governamental África Action, durante uma manifestação diante da Casa Branca na semana passada. "Qualquer coisa menos que uma nova resolução seria uma evasiva desta administração no sentido de deter o atual genocídio em Darfur", acrescentou. Por sua vez, o presidente do não-governamental Grupo Internacional de Crise (ICG), Donald Steinberg, disse que a declaração presidencial do Conselho de Segurança "deve ser o primeiro passo".

"Ficaremos extremamente desiludidos se este for o único passo tomado pelos Estados Unidos durante sua presidência do Conselho este mês", acrescentou o ativista, cujo grupo divulgou na semana passada uma carta aberta a Bush, juntamente com a organização de direitos humanos Human Rights Watch. A carta exorta o presidente norte-americano a aproveitar o exercício da presidência do Conselho para formar uma força internacional de aproximadamente 20 mil homens com um "forte e claro mandato" centrado na proteção dos civis e no desarmamento das milícias janjaweed. Os pedidos de ação acontecem no contexto de uma crescente preocupação mundial pela situação em Darfur, deteriorada nos últimos meses pelo fato de uma força da União Africana de sete mil soldados, enviada no ano passado para vigiar um cessar-fogo, ter sido incapaz de conter a violência, e de poder ficar sem financiamento no final de março.

A crise em Darfur, reino independente anexado pelo Sudão em 1917, começou nos anos 70 com uma disputa pelas terras de pastagem entre nômades árabes e agricultores indígenas negros, ambos muçulmanos. Dois milhões de refugiados e 400 mil mortos é o saldo do conflito nessa região do Sudão desde fevereiro de 2003, quando eclodiu a guerra civil. Isto ocorreu depois que guerrilheiros negros responderam ao assédio dos janjaweed, apoiados pelo regime islâmico de Cartum. Os janjaweed são acusados de praticar uma campanha de limpeza étnica contra três tribos negras que apóiam os rebeldes do Exército para a Libertação do Sudão e o Movimento pela Justiça e a Igualdade.

Segundo a ONU, no último mês cerca de 30 mil pessoas tiveram que abandonar suas casas, enquanto os ataques dos janjaweed na fronteira com o Chade, onde há mais de 200 mil refugiados, criou tensões entre os dois países. Enquanto isso, as conversações de paz entre as organizações rebeldes e o governo sudanês em Abuja, na Nigéria, patrocinadas pela União Africana, estão paralisadas há meses. Cartum segue sem cumprir resoluções anteriores da ONU no sentido de desarmar e desarticular as milícias árabes.

A pressão sobre Washington por parte de grupos defensores dos direitos humanos, ativistas africanos e organizações religiosas cristãs e judias cresceu de maneira sustentada desde que o Congresso norte-americano qualificou a crise em Darfur como "genocídio" no verão de 2004, e, ainda, depois que o próprio Bush usou o mesmo termo para se referir à situação no final desse ano. Entretanto, os Estados Unidos não trataram a crise com a urgência e gravidade que merece, segundo ativistas, que pedem ao presidente norte-americano que coloque o conflito em Darfur no topo da agenda das Nações Unidas.

Porém, há várias razões para a reticência de Washington em enquadrar Cartum. Em primeiro lugar, a cooperação do Sudão na "guerra internacional contra o terrorismo" é muito apreciada pelos serviços de inteligência norte-americanos. Por outro lado, funcionários de Washington disseram que uma resolução poderia ser vetada pela Rússia, principal fornecedor de armas a Cartum, e pela China, que tem grandes investimentos no setor petrolífero sudanês. Os Estados Unidos necessitam do apoio dessas duas potências em vários assuntos, especialmente na crescente crise nuclear com o Irã, que pode chegar à mesa do Conselho de Segurança no próximo mês.

Estes cálculos de Washington preocupam os ativistas, que não desejam ver a população de Darfur sacrificada pelas idas e vindas da política internacional. "A questão aqui é como os Estados Unidos querem usar seu capital político, se está mais interessado em levar o tema do Irã ao Conselho de Segurança do que em obter uma forte resolução sobre o Sudão. Acredito que por fim ao genocídio não á a primeira prioridade da administração Bush, mas deveria ser", disse Booker à IPS. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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