Washington, 23/01/2005 – Embora o presidente George W. Bush lhe tenha pedido para permanecer no cargo, o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, está com problemas. Não o ajuda a publicação de novos documentos sobre torturas de presos na "guerra contra o terrorismo". Legisladores de carreira do Partido Republicano, entre eles dois veteranos da guerra do Vietnã com as máximas condecorações, endureceram suas críticas contra o chefe do Pentágono. Um deles, o senador John McCain, disse esta semana à Associated Press que não tem confiança em Rumsfeld. O outro, o senador Chuck Hagel, qualificou de "irresponsáveis" as ações do secretário na guerra do Iraque, e, em referência à decisão de Bush em mantê-lo no cargo, afirmou que "o presidente terá de viver com essa decisão e defendê-la".
Dias antes, Rumsfeld havia dado uma seca resposta a um soldado que em uma sessão de perguntas e respostas no Kuwait lhe perguntou por que os militares no Iraque devem eles mesmos blindar os veículos utilizados. "Se vai à guerra com o exército que se tem, não com o que se quer", foi a resposta do secretário. Por outro lado, cresce o descontentamento pelo custo da guerra. Os últimos informes indicam que o Pentágono pedirá até US$ 90 bilhões a mais para financiar operações no Iraque e no Afeganistão em 2005, o que elevaria o total em mais de três anos a cerca de US$ 250 bilhões.
Outro importante fator de descontentamento contra Rumsfeld é o escândalo pelos abusos contra presos na base naval norte-americana de Guantânamo e no Iraque e Afeganistão. Novos detalhes são diariamente publicados na imprensa. Na terça-feira, por exemplo, a União Americana de Liberdades Civis (Aclu) informou com base em documentos obtidos da Marinha que os abusos e torturas de prisioneiros no Iraque são generalizados. Entre os maus-tratos documentados figuram simulação de execução, choques elétricos, pancadas e manutenção de presos ajoelhados, encapuzados e algemados até 24 horas, enquanto esperam para ser interrogados.
"Há alguns dias vieram à luz novas histórias de tortura, e necessitamos saber por que esses abusos foram permitidos", afirmou Anthony Romero, diretor da Aclu. "Estes abusos generalizados não podem ter abrigo por falhas gritantes das autoridades", acrescentou. De acordo com provas acumuladas, essas falhas se encontram no escritório de Rumsfeld, disse Scott Horton, chefe de um grupo de trabalho da Associação de Advogados da Cidade de Nova York que investiga as práticas de detenção e interrogatório dos Estados Unidos na guerra contra o terrorismo, lançada por Bush depois dos atentados de 11 de setembro de 2001.
"Sua estratégia de jogar toda culpa em um punhado de soldados ruiu", afirmou Horton, dizendo ter entrevistado muitos militares de carreira e advogados do governo que estão indignados pelo que consideram o atropelo de Rumsfeld às convenções de Genebra, que regem o tratamento a prisioneiros de guerra e outros aspectos dos conflitos armados. Horton destacou em particular dois documentos recentemente revelados (um pela imprensa e outro entregue à Aclu com parte de um julgamento) que apontam Rumsfeld e dois de seus mais próximos colaboradores como os que autorizam as piores práticas das Forças Especiais de Operações. Os colaboradores são o subsecretário da Defesa para Assuntos de Inteligência, Stephen Cambone, e seu vice, o general William Boykin.
As últimas revelações procedem de registros de três organismos que trabalham com os militares em centros de detenção em Gantânamo, Iraque e Afeganistão: A Agência de Inteligência de Defesa (DIA), a Agência Central de Inteligência (CIA), e o Escritório Federal de Investigações (FBI). Em um memorando dirigido a Cambone no dia 25 de junho, o diretor da Dia, vice-almirante Lowell Jacoby, se queixa dos golpes desferidos contra presos por uma força militar clandestina no Iraque, da expulsão de funcionários da DIA das salas de interrogatório, do confisco de provas de abusos que esses funcionários coletavam e das ameaças de represálias caso informassem aos seus superiores.
Outra série de documentos obtidos pela Aclu registram fortes objeções de funcionários da Dia e do FBI aos métodos violentos de interrogatório utilizados pela mesma força militar, aparentemente, pessoal das Forças Especiais de Operações. Os funcionários de inteligência argumentavam que as técnicas utilizadas eram ilegais e contraproducentes em termos de produção de dados confiáveis. (IPS/Envolverde)

