Rio de Janeiro, 21/01/2005 – Considero que o Fórum Social Mundial é um celeiro de alternativas. Porém, importa mais observar o processo no qual geramos essas alternativas, por meio da comparação e da discussão, do que as alternativas em si mesmas. O FSM é uma praça pública, um espaço aberto para o encontro de cidadãos em condições de igualdade, um lugar de informação e debate, de alegria e paixão, um contexto original de invenção e prática da democracia. Basta participar do Fórum para sentir que sua energia conecta as pessoas mais diversas, carregando baterias de esperança. O FSM permite a renovação das idéias e fortalece a vontade coletiva, com colorido e vibração leva a cada um e a cada uma a acreditar em sua própria capacidade, nos faz valorizar nossas experiências e conhecimentos.
Pelo que digo e escrevo é evidente que considero o FSM uma experiência política e intelectual renovadora, capaz de inspirar sonhos e vontades diante da grave crise produzida pelo capitalismo globalizado. É que o FSM tem a possibilidade de inovar as práticas e os modos de pensar, contribuindo na formação de uma nova cultura política de transformação social radicalmente democrática, com propostas efetivas para construir outros mundos. Mas, isto não me impede de conhecer os monumentais desafios que temos pela frente para, responsável e conseqüentemente, induzir o Fórum a fermentar as idéias e os processos que contém.
A globalização dominante impõe padrões homogêneos de vida e cultura, destrói, exclui, concentra. Respondemos com a afirmação da igualdade na diversidade, o direito de inclusão de todos e de todas, que todos os direitos humanos são para todos os seres humanos, com o respeito ao patrimônio comum da vida, o planeta Terra. A reunião do FSM no ano passado na Índia nos deu universalidade, mas, o universo é muito maior e mais diverso. Iremos à África em 2007, isso é fundamental. Mas, como ficam as outras regiões e culturas? O que dizer da Europa Ocidental, da Ásia profunda, do Caribe, da América Central e do Mundo Árabe?
Reafirmo aqui o que mostram os dados sobre nosso perfil: somos legítimos ativistas da emergente cidadania planetária, mas, somos sua elite. Os representantes dos setores populares são uma minoria em nossas reuniões. Como encarar este desafio com a necessária urgência? Devemos ser capazes de mobilizar além das barreiras geográficas, sociais e culturais. Devemos desenvolver modos de inclusão ativa dos invisíveis no interior de nossos povos, pois eles carecem de organização e recursos para participar. Temos de reconhecer como ainda estamos longe de expressar a diversidade da sociedade civil mundial e de seus integrantes.
O FSM inova ao sustentar a primazia da política na vida humana e não a dos mercados. Pó isso o Fórum é um processo e um espaço de inovação democrática que estimula os diferentes sujeitos sociais a participar e impor sua vontade sobre o poder estatal, as instituições multilaterais, as corporações e os mercados. Ao mesmo tempo o FSM precisa se alimentar mais e mais da força de seus participantes, tirando partido da diversidade e da pluralidade que consegue congregar. Isto significa ir além do radical mas passivo respeito das atividades autogestionadas, com ainda estamos fazendo no FSM 2005. implica radicalizar a democracia interna para que o diferente seja transformado em diverso, a simples justaposição, a repetição e a confusão de múltiplas atividades – mais de 2.500 – em reconhecimento de todos e de todas.
Temos de agir democrática e ativamente, com respeito ao conjunto das pessoas, buscando construir a verdadeira diversidade, superando "domínios", guetos e protagonismos, de maneira que as visões e as análises plurais alcancem consensos possíveis e dinâmicos próprios da democracia, que obrigam a novas buscas conjuntas. Ao FSM não compete a definição de um projeto e de uma estratégia a ser seguida por todos. Nisto todos estamos de acordo. O fórum só pode ser um espaço aberto de pensamento estratégico e voltado à ação transformadora, que deixa a cada pessoa a decisão sobre o que fazer, como e com quem, segundo suas possibilidades, condições e desejos.
Por outro lado, nos falta um pouco de ousadia. Despertamos uma enorme esperança no mundo. O FSM é hoje um símbolo de esperança. Não quebremos o encanto, a utopia. Isto também é política. Assumimos o desafio de refazer o mundo em nível humano, para todos os seres humanos. Devemos contribuir para a gestação de novas agendas. E não devemos permitir que guerreiros e terroristas, operadores de mercado e donos de corporações, com seus fundamentalismos, ditem as prioridades da humanidade.
Temos que propor alternativas. As soluções que iremos encontrando serão, necessariamente, provisórias, temporárias e localizadas. Mas, sejamos suficientemente ousados para que sejam as soluções possíveis em cada lugar. Necessitamos de uma agenda que inclua, aqui e agora, o mundo e a humanidade, no maior respeito, mas sem medo de arriscar e sem pretender impor nada. A construção corretiva sem modelos ou soluções únicas implica o radical respeito pelo incompleto, diverso e plural, mas, também, uma busca constante.
(*) Cândido Grzybowski, sociólogo, diretor do Ibase e membro do secretariado internacional do FSM.

