Política: De Plymouth a Bagdá

Washington, 23/01/2005 – Os norte-americanos destrincharam na quinta-feira, 25/11, o peru, na tradicional refeição do Dia de Ação de Graças. Mas a influência dos peregrinos que inauguraram esta tradição há quase quatro séculos não foi apenas gastronômica. O Dia de Ação de Graças de 1561 foi a ocasião em que os peregrinos estabelecidos na colônia de Massachusetts celebraram seu primeiro ano de sobrevivência no continente americano. É possível traçar coincidências entre a visão do mundo por parte do governo de George W. Bush e a que mobilizou esses colonos da Grã-Bretanha rumo a Plymouth Rock, através do norte do oceano Atlântico a bordo do diminuto barco a velas The Mayflower.

De fato, a influência, ideológica e religiosa dos primeiros peregrinos – majoritariamente da corrente de fé "separatista", cujos seguidores se autodenominavam "santos"- foi constante no pensamento norte-americano e na política externa dos Estados Unidos. Muitos consideravam que os textos-chave para compreender o caráter nacional são a Declaração de Independência e a Constituição, produto da Ilustração, escola européia de pensamento originada na França que proclamava o conhecimento como fonte da emancipação humana. Mas subestima-se com freqüência a contribuição original dos radicais protestantes que colonizaram a Nova Inglaterra, os quais também colocaram seu selo na futura nação.

Os separatistas proclamavam a visão mais extrema do puritanismo ou calvinismo. Acreditavam que o papa, máxima autoridade da Igreja Católica romana, encarnava o anticristo, e também estavam longe da Igreja Anglicana oficial na Grã-Bretanha porque imitava o catolicismo. Além disso, ainda evitavam o contato com congregações puritanas menos devotas, pois temiam a contaminação espiritual. A autopercepção dos primeiros colonos como "povo eleito" comprometido com Deus a cumprir uma "missão" providencial é central na identidade puritana, forjada na perseguição religiosa que os obrigou a abandonar a Grã-Bretanha.

Essas idéias se consolidaram com a difícil travessia oceânica e pelas dificuldades do primeiro inverno no Novo Mundo. Depois de sobreviverem, agradeceram a Deus por tê-los preservado com um propósito. Os puritanos, muito fortes na então crescente classe mercantil, acreditavam que Deus intervinha diretamente na vida dos seres humanos e que o acúmulo de riquezas, obtida por meios justos, demonstrava uma retidão moral merecedora do favor de Deus. "Deus abençoou minha fazenda", gostavam de dizer os puritanos, para os quais "o sucesso nos negócios se converteu em sinal de graça espiritual", afirmou o especialista britânico George Monbiot.

De todo modo, os puritanos se abstinham de toda ostentação e sentiam-se incentivados a ajudar os menos afortunados, uma tendência similar ao "conservadorismo compassivo" proclamado por Bush. Embora sempre vissem na pobreza a evidência do fracasso moral. O poder era visto sob a mesma luz que a riqueza. Em seu primeiro ano em Massachusetts, para sobreviver dependeram da ajuda dos nativos norte-americanos que lhes ensinaram como aproveitar os recursos naturais. Poucos anos depois, os empurraram para o oeste fazendo uso do poder que lhes davam suas armas de fogo. Quando os primeiros colonos deixaram este mundo, seus filhos já vendiam indígenas como escravos na Virgínia, no Caribe, na Espanha e no Marrocos, destacou o professor Robert Venables, da Universidade de Cornell.

Como eram "selvagens", os indígenas eram considerados menos humanos, interpretação naturalmente baseada na crença de que Deus recompensava quem era correto e, ainda, pelas guerras pelo território que se sucederam durante quase 300 anos. Assim, a pronta conquista do continente e mais além por parte dos descendentes dos peregrinos foi entendida como o cumprimento da vontade de Deus, ou de um "destino manifesto". Não é uma simples especulação acreditar que o poder sem igual de Washington no mundo de hoje não seja mais do que um reflexo do que seus governantes vêem como a bondade moral do país.

Estreitamente ligada a esta visão está a convicção por parte dos puritanos de que têm a missão de redimir o mundo. Acreditam fervorosamente que seu propósito é agir para que outras congregações religiosas e nações os sigam rumo à salvação. A primeira e mais famosa declaração de tal pensamento foi pronunciada em 1630, apenas nove anos depois do primeiro Dia de Ação de Graças, quando John Winthrop, depois governador da colônia, exortou os colonos a se considerarem "uma cidade sobre uma colina, com os olhos de todo o mundo sobre nós". Segundo ele, a colônia na baía de Massachusetts era uma terra santa, um "novo Israel", e sua chegada ao lugar era tão milagrosa quanto o êxodo do povo judeu desde o Egito.

Esta missão redentora foi assumida por líderes religiosos e políticos dos Estados Unidos em todos estes séculos, segundo o livro "O disparate do Império: o que George W. Bush poderia aprender com Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson", do analista político John Judis. "A missão é, sobretudo, religiosa ou moral por natureza, e se define como a luta entre o bem e o mal, para a redenção e a salvação", escreveu Judis. "Em 1919, ao argumentar em favor do tratado que estabeleceu a Liga das Nações, o presidente Roosevelt declarou: "Desta decisão depende nada menos do que a salvação do mundo", recordou o especialista. Em 2002, George W. Bush conclamou os Estados Unidos a derrotarem o "eixo do mal" que traçou entre Irã, Iraque e Coréia do Norte. Em novembro de 2003, declarou que "o avanço da liberdade é o chamado de nosso tempo. É o chamado de nosso país… Cremos que a liberdade é o desígnio da natureza. Cremos que a liberdade é a direção da história", afirmou. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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