Religião: Aliança de Civilizações em perigo

Madri, 08/02/2006 – As caricaturas de Maomé publicadas por jornais europeus colocam em perigo a Aliança de Civilizações, iniciativa do primeiro-ministro espanhol, José Luiz Rodríguez Zapatero, e aprovada pela Organização das Nações Unidas que pretende eliminar as causas do terrorismo e das guerras. Alguns pedem dureza, outros prudência e calma diante dos choques violentos e ataques a embaixadas européias, dentro dos protestos de muçulmanos contra a publicação das caricaturas no jornal dinamarquês Jyllands-Posten e reproduzidas por outros órgãos.

O ex-diretor-geral da Organização da Unesco e atual presidente do Grupo de Alto Nível da Organização das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, Federico Mayor Zaragoza, disse nesta terça-feira que a "imensa maioria dos cidadãos de todas as culturas, crenças e ideologias desejam viver em paz. Cabe a todos, no exercício de nossos direitos e deveres, tornar possível este desejo", afirmou Zaragoza à IPS. É importante que "todos façamos um esforço para o diálogo e a conciliação, para a aliança e não o confronto. Temos que identificar o que nos une e valorizar o que nos separa, para dar curso ao nosso destino, que é, irremediavelmente, comum", acrescentou.

O porta-voz do opositor Partido Popular espanhol para assuntos de política internacional, Gustavo de Arístegui, um especialista no mundo árabe e diplomático, advertiu que para a Aliança de Civilizações "os direitos e as liberdades fundamentais sobre os quais se assentam as democracias mais avançadas do planeta já não são nem universais nem imprescindíveis. Muitos dos co-protagonistas dessa aliança os consideram (esses valores) uma agressão à sua cultura e religião", escreveu Arístegui em um artigo publicado nesta terça-feira pelo jornal El Mundo, de Madri.

Em outro artigo, publicado pelo International Herald Tribune, editado em Paris, Zapatero e seu colega turco, Recep Tayyip Erdogan, defenderam a Aliança, destacaram que a liberdade de expressão é uma das pedras angulares da democracia e que nunca renunciarão a ela. Além disso, esclareceram que "não há direitos sem deveres e sem respeito às diferentes sensibilidades", por isso "a publicação destas caricaturas pode ser perfeitamente legal, mas não é indiferente e deve ser rejeitada do ponto de vista moral e político". O desenhista Forges, autor das caricaturas na página editorial do jornal El País, de Madri, disse que já fez caricaturas satíricas sobre assuntos religiosos, de Deus repreendendo o Espírito Santo, e que jamais recebeu uma única reclamação da Igreja Católica, de seus clérigos ou dos fiéis.

Por essa razão, considera improcedentes as reclamações e acredita que está ocorrendo dentro do mundo islâmico algo semelhante à Inquisição, quando a hierarquia católica perseguiu judeus e muçulmanos na Espanha, matando-os na fogueira. Mas "devemos ter presente que a Inquisição foi derrotada pelos próprios cristãos, de dentro, e o mesmo ocorrerá no mundo muçulmanos. O raciocínio se imporá e sem renunciar à sua religião, como não renunciaram os católicos, se repudiará a violência pela violência e se procurará o diálogo", disse Forges à IPS.

O filósofo e escritor José Vidal Beneyto atribuiu grande parte da responsabilidade pelo enfrentamento em razão das caricaturas ao critério provocador como "lançamento midiático" que se impôs na maioria dos meios de comunicação, em todo o mundo. "A provocação leva ao enfrentamento e alimento um antagonismo feroz entre Oriente e Ocidente", disse Beneyto à IPS. O filósofo não considera ruim que se caricature Maomé, mas sim que se transmita uma notícia falsa, porque em seu entender isso é o que implica desenhá-lo com uma adaga e uma bomba. "Maomé foi mais pacífico do que Jesus, e, assim como nos Evangelhos cristãos a doutrina da paz superou amplamente a da guerra, no Islã não há nenhuma de caráter guerreiro", concluiu.

O presidente do Partido Popular, Mariano Rajoy, afirmou que "o Ocidente tem alguns princípios e valores que devem ser preservados", entre eles a liberdade de expressão. "Podemos não gostar de algumas coisas, mas também dizem sobre nós coisas que não gostamos", afirmou. Por isso, destacou que "o limite no Ocidente é a lei" e que quando esta é vulnerada o recurso que cabe é apresentar uma queixa nos tribunais, e "não sair incendiando embaixadas ou seja lá o que for". A respeito da oposição do PP à Aliança de Civilizações, a secretaria de Relações Internacionais do governante Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), Trinidad Jiménez, lembrou que o partido já demonstrou "que prefere a guerra e não o diálogo de civilizações", pois quando estava à frente do governo espanhol aprovou a invasão do Iraque.

O coordenador da coalizão Esquerda Unida (Baseada no Partido Comunista), Gaspar Llamazares, considerou "prioritário" o respeito à liberdade de expressão, mas também criticou o jornal dinamarquês, qualificando-o de "extrema direita" e cuja atuação – disse – foi uma provocação. Diante de toda esta situação, Zaragoza insiste em que "agora é imprescindível que todos os países, uns e outros, preguem com urgência o encontro e a conciliação". (IPS/Envolverde)

Tito Drago

Tito Drago es corresponsal de IPS en Madrid. Periodista y consultor especializado en relaciones internacionales, nació en Argentina y vive en España desde 1977, tras su paso por varios países latinoamericanos y europeos. En 1977 abrió la primera corresponsalía de IPS en España y en 1978 se trasladó a la sede mundial de la agencia en Roma para reestructurar la jefatura de redacción. Es escritor y conferencista. Fue presidente del Club Internacional de Prensa de España, del que es presidente honorario desde 1999. También presidió la Asociación de Corresponsales de Prensa Extranjera (ACPE). Entre 1989 y 2008 fue director general de la agencia de comunicación y editora Comunica, de la revista Mercosur y de los libros y los sitios web de las Cumbres Iberoamericanas de Jefes de Estado y de Gobierno. Desde 1992 dirige el portal sobre la Actualidad del Español en el Mundo.

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