Nepal: Uma década, uma guerra e 13.001 mortos

Katmandu, 16/02/2006 – Asmina Chapagain é a vítima nepalesa número 13.001 da guerra iniciada há 10 anos neste reino do Himalaia pelos rebeldes maoístas, junto com suas primeiras bombas caseiras. Chapagain e mais quatro amigos voltavam para suas casas de bicicleta em uma estrada de mão dupla que leva à sua aldeia, Khaireni, no centro-sul do Nepal, no preciso momento em que um veículo militar transportando soldados passou sobre uma mina terrestre. A jovem, de 21 anos, era a segunda na fila de bicicletas. Seu corpo explodiu. As pedras que voavam destruíram a parte posterior de sua cabeça e seu nariz ficou pendurado no rosto.

"Era uma moça estudiosa, trabalhava duro", disse sua mãe, Kulkumari Chapagain, chorando, sentada sobre a terra, fora da casa, não longe do famoso Parque Nacional Royal Chitwan. Dezenas de amigos e parentes se sentaram junto dela para verem os jornalistas que a visitavam. "Esta aldeia nunca verá uma beleza como a dela novamente", afirmou um homem de cabelos grisalhos mostrando a fotografia de uma jovem sorridente vestindo uma jaqueta de couro.

Cruzando a suja estrada, a única da aldeia, a voz da mãe de Ganga Tripathi fica embargada enquanto descreve que sua filha que seguia atrás de Chapagain ficou ferida gravemente na explosão e o exército a levou para Katmandu de avião, junto com os soldados feridos. "Não temos notícia desde então, não sabemos como ela está", disse Tara Poudel, enquanto os dois filhos pequenos de sua filha subiam no colo da outra avó, sentada em um banco de madeira no alpendre de sua casa.

Quinze militares e policiais ficaram feridos quando os maoístas atacaram, na tarde do último dia 9, em um trecho de um quilômetro da estrada. Há informações de que rebeldes morreram. A maior parte das vítimas da insurgência que lentamente sufoca este país mergulhado em uma pobreza desesperadora é de aldeões, como as cinco jovens pegas no fogo cruzado, segundo a Cruz Vermelha do Nepal. No dia 1º de fevereiro de 2005, o rei Gyanendra deu um golpe de Estado alegando que o governo civil não dava sinais de acabar com a rebelião. Hoje, esses sinais também inexistem.

No mês passado, 10 dias depois de terminado o cessar-fogo unilateral de quatro meses, que o rei desprezou por considerá-lo um estratagema, os maoístas assustaram os habitantes de Katmandu com ataques noturnos simultâneos contra postos policiais em torno da capital. Uma dezena de policiais foi morta. A força rebelde está estimada em sete mil combatentes de tempo integral e 25 mil milicianos. Os maoístas também impuseram uma greve geral nacional antes das eleições municipais da semana passada, que tiveram a presença de apenas 20% dos eleitores, com 800 candidatos se retirando da disputa e outros permanecendo sob proteção armada.

Um boicote por parte dos principais partidos de oposição foi outra razão para que as eleições fossem "parciais". No sábado, os líderes de oposicionistas condenaram as recentes matanças maoístas, uma reprovação incomum desde que as duas partes assinaram, em novembro, um pacto político contra a tirania. Supõe-se que tal acordo leve a eleições para uma assembléia nacional constituinte que elaborará uma nova constituição e decidirá o destino da monarquia. Boa parte das elites de Katmandu elogia os maoístas por terem trazido à luz problemas de desigualdade neste reino hindu onde o regime de castas ainda determina profundamente as oportunidades sociais e econômicas das pessoas. "Há 10 anos, uma pessoa não podia discutir assuntos de castas abertamente, mas hoje as pessoas o fazem o tempo todo por causa dos maoístas", disseram.

Nas aldeias, onde vivem 80% da população – a metade com menos de um dólar por dia – milhares optaram pela promessa dos maoístas de uma sociedade em que as mulheres, os indígenas e outros grupos "em desvantagem" tenham direitos iguais e oportunidades. Por isso se uniram ao "exército do povo". Quando os rebeldes batem à sua porta, não têm outra opção que não seja dar dinheiro, alimentos ou aceitar que seus filhos e filhas sejam recrutados pelos insurgentes. Os moradores da região criticaram os maoístas depois do ataque. "Eles detonaram a bomba quando as moças passavam de bicicleta. Também mandaram que policiais e soldados desarmados corressem, e em seguida atiraram pelas costas", contaram aos jornalistas.

Depois da batalha, as autoridades fecharam a estrada que permite a entrada e saída da área. Mas agora voltou a concentrar buzinas, ônibus tão lotados que levam passageiros no teto, caminhões, motocicletas e riquichás (os pequenos carros de aluguel movidos a tração humana tão comuns na Ásia). Mas as bicicletas são em número bem maior do que qualquer outro veículo, em uma relação de, pelo menos mil por um. Crianças e adultos circulam lentamente ao longo da estrada. Os jovens pedalam lado a lado, os rapazes com suas camisas brilhantes e as mulheres com seus típicos "salwar kameez", uma espécie de pijama rosado, vermelho, amarelo e púrpura, longos rabos-de-cavalo e véus ao vento.

Bloqueando a estrada entre a aldeia e o povoado mais próximo – Butwal, a três horas de carro – há mais de duas dúzias de montes de pedras ou árvores caías colocadas na pista pelos rebeldes. Parcialmente liberada pelo pessoal de segurança para a passagem de veículos, ainda assim bloqueiam mais da metade da estrada. Vários moradores da zona se sentam nessas árvores. Foram contratados para retirá-las. Dois homens esperam que um terceiro termine de amolar uma serra. Perguntados se têm medo, respondem que sim. Mas em um país onde os bloqueios, as greves gerais e batalhas devastaram a economia, é difícil rejeitar um emprego.

Em entrevistas publicadas esta semana, que marca uma década do início da insurgência maoísta, Prachanda, seu líder, disse que a direção rebelde decidiu que o Nepal ainda não estava pronto para uma revolução popular e que uma democracia republicana deveria chegar antes. Mas se os nepaleses preferem manter a monarquia, podem fazê-lo, acrescentou. "Seja qual for a decisão que o povo tomar, estaremos prontos para aceita-la", afirmou. Nas estradas do Nepal as pessoas dizem que já escolheram: "paz". (IPS/Envolverde)

Marty Logan

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