Basra, 17/02/2006 – A divulgação de imagens de soldados britânicos batendo em jovens na cidade iraquiana de Aramah e as novas fotos de atrocidades cometidas em 2003 pelos norte-americanos na prisão de Abu Ghraib reavivaram a rejeição da população do Iraque às forças de ocupação. Os vídeos e as fotografias surgiram no pior momento, já que o Iraque e outros países muçulmanos são desde o começo deste mês palco de violentos protestos contra uma série de caricaturas do profeta Maomé publicadas originalmente por um jornal dinamarquês e reproduzidas por outros jornais europeus.
"Aqui em Basra decidimos não cooperar de maneira nenhuma com as tropas britânicas, os ocupantes de Basra são invasores e não cederemos às suas demandas", disse à IPS Ali Shebab Najim, comerciante de 43 anos. "Nenhum de nós trabalhará mais com eles. Meu primo costumava trabalhar em uma base militar, mas já parou. Agora se nega a ir, pois decidimos mostrar-lhes nosso desprezo de toda forma possível", acrescentou. Segundo Najim, a população está particularmente descontente com a presença militar dinamarquesa no Iraque, por causa das caricaturas mostrando Maomé como um terrorista. O comerciante reconheceu que inicialmente aceitava as forças de ocupação, mas mudou de opinião com o passar do tempo. Agora, "creio que é tempo de dizer a eles que não os respeitamos, já que se comportam mal", acrescentou.
Depois da divulgação das imagens de vídeo mostrando soldados britânicos socando e batendo com cassetetes jovens iraquianos, o Governo de Basra anunciou que havia rompido relações com as tropas da Grã-Bretanha, o que inclui o cancelamento das patrulhas de segurança conjuntas. "Condenamos qualquer destas ações cometidas pelos britânicos e norte-americanos, que torturam nossos jovens", disse à IPS o ex-conselheiro do Governo, Qasim Atta Al Joubori, "os iraquianos sofreram muito nos últimos 35 anos, mas agora são torturados por estrangeiros que invadiram nosso país. Não podemos aceitar tê-los por mais tempo", afirmou.
Joubori alertou que, longe de cooperar, a população de Basra está disposta a lutar contra a ocupação. Esta cidade, controlada pelas forças britânicas, se caracterizava por ser relativamente tranqüila, em comparação com outros lugares do país. "O que estas torturas demonstram é que os ocupantes estão agredindo e insultando todo o povo iraquiano", afirmou. "Sonhamos com o dia em que veremos esses bastardos fora de nosso país. Agora torturam os cidadãos de Basra, Bagdá e Amarah, por isso perderam o apoio dos iraquianos sunitas e também dos xiitas", disse à IPS Abdulá Ibraheem, de 55 anos, proprietário de uma fábrica.
Embora quase todos os iraquianos conheçam alguém que esteve em um centro de detenção e por isso não ignoram as torturas, as novas imagens "demoliram a pouca credibilidade que restava aos ocupantes", disse Ibraheem. A rede de televisão australiana Special Broadcasting Service (SBS) divulgou na quarta-feira novas fotos e imagens de vídeo das torturas que soldados norte-americanos cometeram na prisão de Abu Gharib em 2003. As imagens são semelhantes às que em 2004 provocaram indignação em todo o mundo, mostrando prisioneiros acuados por cães, obrigados a ficarem nus em posições humilhantes e seriamente feridos.
A American Civil Liberties Union (União Norte-americana pelas Liberdades Civis) conseguiu as fotos do governo norte-americano apelando para a lei de liberdade de informação, mas garante ignorar como elas chegaram à SBS. "Creio que os principais jornais do mundo, como The Washington Post têm dezenas de fotos com evidências mais fortes da tortura em Abu Ghraib, mas não as publicarão por causa da pressão do governo", disse à IPS um advogado do independente Centro pelos Direitos Constitucionais, com sede em Nova York. Em Washington, o porta-voz do Departamento de Defesa, Bryan Whitman, disse a jornalistas que "os abusos em Abu Ghraib serão investigados a fundo. Quando houve abusos, este Departamento agiu sem demora, fez uma completa investigação e os responsáveis foram adequadamente processados", acrescentou. Whitman destacou que o Pentágono temia que a divulgação das novas imagens agravasse a violência no Iraque e colocasse suas forças em perigo. (IPS/Envolverde)

