Santiago, 16/02/2006 – A Comissão Regional do Meio Ambiente (Corema) da região chilena de Atacama aprovou por unanimidade a exploração aurífera de Pascua Lama, na fronteira com a Argentina, mas proibiu a companhia canadense Barrick Gold de remover as três geleiras próximas da jazida. A Corema também exigiu da empresa que proteja a flora e a fauna da região e que trate os resíduos causados pela mineração, para que a qualidade de vida dos moradores do Vale do Huasco, em sua maioria agricultores, não seja afetada pela atividade da companhia.
Pascua Lama, propriedade da Barrick Gold Corporation, é uma das maiores fontes intocadas de ouro intocadas do mundo, já que possui preservas de 17,5 milhões de onças (600 mil toneladas). A construção da mina a céu aberto requer investimento de US$ 1,5 bilhão. No Chile, a mina fica 150 quilômetros a sudeste da cidade de Vallenar, na terceira região de Atacama, e, na Argentina, 300 quilômetros a noroeste da cidade de San Juan, capital da província de mesmo nome.
"Chama nossa atenção o fato de a votação ter sido unânime, sem votos contra. Isto nos faz pensar que a decisão já havia sido tomada anteriormente e que de nada serviu a exposição que fizemos perante a Corema, explicando as nefastas conseqüências do projeto", disse à IPS César López, membro do Conselho de Defesa do Vale do Huasco. O intendente da terceira região, Rodrigo Rojas, que preside a Corema, destacou a transparência com que foi adotada a determinação, o que, a seu ver, "reflete o adequado funcionamento que teve o órgão ambiental". Depois que Rojas anunciou nesta quarta-feira, na cidade de Copiapó, a decisão, uma centena de pessoas expressou seu descontentamento.
Os 19 membros da Corema começaram a deliberar na terça-feira, permitindo que todas as partes envolvidas apresentassem sua opinião sobre a exploração desta mina localizada na cordilheira dos Andes, a 4.600 metros acima do nível do mar. "Era uma decisão que se podia prever, porque desde o começo o governo havia dado sinais de aprovação ao projeto e seu desinteresse com a oposição dos habitantes da região do Huasco", disse à IPS Antonia Fortt, engenheira ambiental da organização não-governamental Oceana.
O projeto Pascua Lama é questionado mundialmente por sua intenção de remover três geleiras que alimentam vários sistemas de irrigação para 70 mil pequenos produtores agrícolas do vale do Huasco, 660 quilômetros ao norte de Santiago. "O projeto aurífero provocará graves danos no ecossistema local, já que contaminará as águas superficiais do rio Huasco e também as águas subterrâneas", afirmou Fortt, que prevê a inevitável contaminação do vale com os produtos químicos utilizados na mineração do ouro, como cianureto e mercúrio.
"Não nos agrada a aprovação do projeto pelas implicações que tem para a qualidade de vida dos moradores do Vale do Huasco, uma zona semi-árida que depende absolutamente dos recursos hídricos provenientes da cordilheira", coincidiu Bernardo Reyes, profissional do Instituto de Ecologia Política. Entretanto, disse à IPS que apreciava o fato de as autoridades terem decidido pela não-intervenção das geleiras Toro I, Toro II e Esperanza, devido aos compromissos assumidos pela presidente eleita, Michele Bachelet, durante sua campanha eleitoral.
Para o representante do Conselho de Defesa do Vale do Huasco, a condição imposta pela Corema não é garantia da conservação das geleiras, pois estas já apresentam evidente deterioração por causa do pó procedente das obras que a Barrick Gold realiza há dois meses, como abertura de caminhos. López também descarta a contratação pela empresa de moradores locais para construção e operação da mina, tal como é anunciado, já que se trata de agricultores "que não têm experiência em mineração de alta montanha".
O ministro secretário-geral de governo, Osvaldo Puccio, considerou que a resolução "protege o meio ambiente e fica aberta desde logo a possibilidade de que, cumprindo todas as medidas ambientais e proibições estabelecidas pela Corema, sejam possíveis os investimentos nessa área". Puccio assegurou que o governo cuidaria de revisar a situação ambiental em Pascua Lama, como estabelece a resolução da Corema, e que "se mantém a petição de maiores estudos e maiores antecedentes para ater-se à muito rigorosa legislação chilena de proteção do meio ambiente". As partes têm 30 dias para impugnar a decisão perante a Corema, pelo qual a decisão definitiva ficará nas mãos do governo de Bachelet, que assumirá dia 11 de março.
Até agora, a empresa não se pronunciou a respeito de uma possível apelação, enquanto o Conselho de Defesa do Vale do Huasco afirmou que continuará pressionando por meio de todas as vias possíveis para que o projeto não se concretize. Apesar de a Barrick Gold ter assinalado que não é factível economicamente a exploração subterrânea de Pascua Lama, Reyes acredita que a empresa terá de se adequar às condições impostas pelas autoridades ambientais do país, se não quiser perder o investimento já feito no local. Em seu site na Internet, a empresa diz que a construção da mina começará este ano e as operações terão início em 2009. (IPS/Envolverde)

