Madri, 20/02/2006 – A crise originada pela publicação de várias caricaturas do profeta Maomé causou reações das mais diversas, boa parte delas centradas na suposta confrontação entre a liberdade de expressão e a intolerância ou o fanatismo religioso do Islã. Ao se considerar com fato tal conflito, poucos no mundo ocidental duvidarão sobre qual partido tomar. A liberdade de expressão é inerente ao sistema democrático, de forma que, se acredita-se na democracia, é preciso apoiar os jornais que publicaram as caricaturas e condenar a intolerância muçulmana.
Até onde se sabe, ninguém no mundo islâmico apresentou o conflito em termos de liberdade de expressão, mas de respeito à figura angular da religião islâmica, como é o profeta Maomé. Em outras palavras, não se ataca essa liberdade, mas o abuso se que faz dela, desprezando e burlando o fundador de sua fé.
Para entender a posição do outro falta aplicar um mínimo de empatia. Para o caricaturista Baha Bujari, do jornal palestino al Ayyam, de Ramala, "Maomé e a religião não são assuntos da imprensa" e as caricaturas permitem "tocar todos os temas com um sorriso", com exceção da religião, que "é algo entre alguém e Deus". Na opinião do jornalista Walid Wattrabi, também do Al Ayyam, fazer caricatura de Maomé com uma bomba na cabeça, é um insulto à fé de milhões de pessoas que não pode ser justificado como exercício da liberdade de expressão. Uma liberdade que, dizem os códigos penais, deve respeitar verdade, dignidade e honra. A questão não giraria em torno da liberdade de expressão, mas da existência, ou não, de vontade de respeitar os valores e crenças de outras culturas, embora não nos agradam ou não nos pareçam irascíveis.
Há outro aspecto pouco destacado. É a causa da magnitude dos protestos, que provocaram uma dezena de mortos e centenas de feridos em dúzia de países. Tão veemente reação não pode ser explicada unicamente por motivos religiosos. As caricaturas parecem ter sido a gota d`água que fez transbordar o copo de ofensas, centuplicados nos últimos anos.
No presente, dois países muçulmanos, Afeganistão e Iraque, estão ocupados por – e em guerra contra – tropas ocidentais dirigidas pelos EUA. Outro país muçulmano, a Palestina, sofre há 60 anos o despojo de sua terra e os assassinatos e atropelos sem fim de Israel, apoiado pelo Ocidente. A Somália foi ocupada pelos EUA e depois abandonada, após converter uma operação de paz em guerra de conquista. O Líbano é cenário de lutas de poder entre Síria, França e EUA, com a intenção de derrubar o presidente Bachar el Asad, liquidando o último governo árabe hostil a Israel. A Península Arábica, por sua vez, está cheia de bases militares norte-americanas.
Outro grande país muçulmano, o Irã, está na mira das grandes potências cristãs. Em dias anteriores a essa crise, houve um choque frontal entre Irã e União Européia, sobre a questão nuclear. Para impedir o que o Ocidente considera uma corrida para construir a arma atômica, não se evita pressões e ameaças contra Teerã. Tanto zelo contrasta com a flagrante tolerância em relação a Israel, dono de mais de 200 bombas atômicas, graças ao apoio de França, Estados Unidos, Grã-Bretanha e Alemanha, os mesmos países que dirigem a campanha contra o Irã.
A chanceler Angela Merkel, após comparar o Irã com o início do nazismo, afirmou que Teerã havia atravessado "uma linha vermelha" de tolerância. Pouco depois, Merkel afirmou em Telavive que não havia "a menor diferença nos pontos de vista de Alemanha e Israel" sobre o Irã. A advertência da "linha vermelha" faz suspeitar que Europa e EUA preparam ações armadas contra Teerã e fomenta os temores de que Washington espera a ocasião oportuna para atacar o Irã, a menos que esse país se submeta à sua diktat. Estaríamos às portas de um novo e maior conflito bélico, com característica de choque de civilizações.
Embora não se admita, esta vasta e povoada região muçulmana está submetida a um novo e intenso processo de reocupação colonialista, que a converteu no ponto mais frágil do mundo. Embora Washington e seus aliados justifiquem a ocupação militar alegando a luta contra o terrorismo e a promoção da democracia e dos direitos humanos, a realidade é o controle geopolítico da zona e de seus recursos estratégicos. Não se deve estranhar, por isso, que o terrorismo seja multiplicado e que tantos muçulmanos abominem o Ocidente.
Não foi casualidade as manifestações mais violentas terem ocorrido em países ocupados ou ameaçados pelos Estados Unidos. Tampouco que ocorra em Estados onde venceram as eleições organizações e partidos políticos hostis ao Ocidente. A religião atua como elemento detonador de sociedades que se sentem vítimas do imperialismo militar, cultural e econômico de um grupo de potências cristãs que, em sua soberania, não têm escrúpulos em ofender o mais sagrado símbolo de sua fé. Se não existisse um caldo de cultivo tão extenso e profundo, a publicação das caricaturas poderia ser um episódio anedótico e sem transcendência. Não foi assim, e suas causas profundas não devem ser evitadas, a menos que se queira incorrer em cegueira voluntária.
O Oriente Médio e Próximo apresenta um panorama complexo e delicado, cujo caminho estará determinado pela política que o Ocidente assumir nos próximos meses e anos. Se continuar forte o militarismo em curso, os insultos continuarão se acumulando e com eles os conflitos, podendo desembocar em uma grande guerra.
Existe outro caminho, embora poucos o tenham em conta. Trata-se de renunciar à ameaça e ao uso da força e se voltar, de uma vez por todas e de verdade, ao sistema jurídico da ONU. Não percorrer o mundo brandindo mísseis e ameaçando com destruição e morte, mas apostando na negociação e no respeito aos direitos soberanos dos Estados.
A crise das caricaturas pode trazer algo útil. Fazer com que este Ocidente satisfeito e prepotente veja como é grande o descontentamento e rancor em vastos setores dos povos muçulmanos, constituindo um barril de pólvora que pode explodir ao menor pretexto. O caso das caricaturas é um aviso. O futuro dependerá da maneira como forem resolvidas as controvérsias com Síria e, sobretudo, com o Irã, e quanto se demorará em fazer justiça com a Palestina. As fichas estão nas mãos do Ocidente. Cabe a ele a jogada. (IPS/Envolverde)
(*) Augusto Zamora, professor de Direito Internacional Público e Relações Internacionais na Universidade Autônoma de Madri (a_zamora_r@terra.es).

