Toronto, 22/02/2006 – 22/02/2006 – Clérigos e autoridades muçulmanas continuam chamando ao boicote de produtos dinamarqueses, por causa das polêmicas caricaturas do profeta Maomé que desataram a ira em todo o Islã. Porém, analistas e intelectuais afirmam que se trata de uma medida contraproducente. Ao terminar a primeira semana deste mês, o boicote aos produtos da Dinamarca no Oriente Médio provocou perdas superiores a US$ 30 milhões para a economia desse país europeu, segundo um estudo. "Como muçulmano, não aprovo o boicote porque, segundo estatísticas disponíveis, os negócios dinamarqueses com os países árabes são insignificantes. Assim, o boicote não terá um impacto importante em sua economia", afirmou Mohammed Kirat, professor no Colégio de Comunicações da Universidade de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos.
Por sua vez, Hassan Al Subaihi, colega de Kirat no Colégio, disse admirar o boicote organizado espontaneamente pela população muçulmana, mas afirmou que teria sido mais efetivo com o apoio oficial dos governos. "Era necessária uma ação mais organizada e pacífica. A violência nos países árabes dá ao mundo a oportunidade de apresentar o Islã como uma religião intolerante que promove o terrorismo", disse. As polêmicas caricaturas, que mostravam Maomé como um terrorista, foram publicadas originalmente em setembro pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten.
Os desenhos foram reproduzidos mais tarde por jornais da Alemanha, Áustria, Espanha, França, Itália, Noruega, Suíça e outros países europeus, e provocaram uma onda de protestos violentos no mundo muçulmano, com ataques a representações diplomáticas e choques com forças de segurança que causaram várias mortes. O boicote de represália começou em 26 de janeiro na Arábia Saudita, quando supermercados colocaram cartazes anunciando que haviam retirado das gôndolas todos os produtos de origem dinamarquesa. Isto logo se reproduziu em outros países do Oriente Médio e no resto do mundo islâmico. "Os clientes evitam comprar produtos da Dinamarca e nos pedem para deixarmos de vendê-los. Decidimos retirá-los", afirmou Pramod Kumar, gerente de vendas de uma rede de supermercados em Dubai.
Por sua vez, Moin Khan, vendedor em uma farmácia em Sharjah, disse que todos os seus clientes sempre perguntam se os remédios são dinamarqueses. "Nesse caso, se negam a comprá-los", afirmou. A gigante do setor leiteiro sueca-dinamarquesa Arla Foods assegurou que perde US$ 1,8 milhão por dia no Oriente Médio por causa do boicote. O Danske Bank, da Dinamarca, estimou que produtos desse país, que representam uma renda anual de US$ 1,6 bilhão, estão ameaçados em 20 países muçulmanos, e alertou que o boicote poderia se estender a setores como o de serviços. A Dinamarca exportou bens no valor de US$ 73 bilhões em 2004. Por outro lado, as negociações com vistas a um acordo de livre comércio entre União Européia e o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) também correm risco. Com um intercâmbio de bens que superou US$ 95 bilhões no ano passado, a UE é o principal sócio comercial do CCG.
A Câmara de Comércio do Catar suspendeu as negociações com delegações dinamarquesas e norueguesas e exortou os países muçulmanos a fazerem o mesmo. O parlamento de Bahrein formou um comitê especial para contatar outros governos islâmicos e incentivá-los a apoiar o boicote. Nos Emirados, a Câmara de Comércio e Indústria de Dubai anunciou que seria obrigada a impor um boicote sobre os produtos dinamarqueses e noruegueses se a Federação de Câmaras de Comércio e Indústria do CCG decidisse tomar uma medida regional. No entanto, o comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson, alertou os governos islâmicos que, se apoiarem o boicote, o bloco iniciará uma ação de protesto junto à Organização Mundial do Comércio.
"Eu aderi ao boicote. Ninguém vai insultar minha religião e sair impune", afirmou Ahmed Tolba, um comerciante de origem egípcia em Sharjah, nos Emirados. "Não vou comprar nem um alfinete feito por esses países. Esta é nossa forma de mostrar ao mundo que não podem passar por cima da gente", disse, por sua vez, Ayman Sheriff, um jordaniano especialista em informática radicado em Dubai. Entretanto, outros discordam da medida. "Eu não sei se esses boicotes ou atos de violência são a resposta adequada. Talvez devessem ter sido precedidos por um diálogo aberto e negociações", afirmou Rolla Ismail, um libanês que trabalha como gerente de uma empresa em Dubai.
Por outro lado, a postura de muitos intelectuais islâmicos se viu refletida nos jornais. O diário saudita Al Watan defendeu o boicote em sua edição do dia 2: "Não há poder na Terra capaz de nos forçar a comprar sua manteiga, assim como eles (os dinamarqueses) dizem que não podem obrigar o jornal a impedir a publicação de determinados assuntos". No entanto, Mona al Bahr, um intelectual dos Emirados, expressou, no jornal Al Bayan, seu descontentamento com a reação islâmica às caricaturas. "Fomos igualmente atingidos tanto pelos desenhos abusivos quanto pelas represálias contra os edifícios das embaixadas da Dinamarca e Noruega, pois esses ataques confirmaram a mensagem implícita nas caricaturas: que o Islã chama a violência", escreveu.
"A quem estamos boicotando?", perguntou o intelectual saudita Ali Al Mousa na edição do dia 16 do jornal Arab News. "O boicote é um saudável protesto enquanto atinge o objetivo, e não a forma bárbara como se comportou um punhado de muçulmanos que incendiaram propriedades de governos. Isto faz mais mal do que bem", afirmou. "Quando deixarmos de sermos consumidores pobremente educados e passarmos a ser altamente produtivos e educados, então poderemos falar em boicotar produtos. Enquanto não transformarmos nossas universidades em institutos de pesquisa com tecnologia avançada, não podemos falar de boicotes", acrescentou. (IPS/Envolverde)

