Oriente Médio: O Irã mostra sua carta palestina

Jerusalém, 07/03/2006 – Os Estados Unidos temem que o Irã tente controlar o governo da Palestina como já faz no Líbano através do Partido de Deus (Hezbollah). A possível infiltração da rede terrorista Al Qaeda na Cisjordânia e em Gaza também aumenta a tensão. No Departamento de Estado se multiplica a preocupação pelo impacto de eventuais intromissões iranianas na Palestina em relação ao conflito palestino-israelense e ao terrorismo no Oriente Médio. O ministro da Defesa de Israel, Shaul Mofaz, advertiu sobre um novo bloco terrorista, integrado por Irã, Síria, Hezbollah e o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), vencedor nas eleições palestinas de janeiro e hoje no governo. Teerã acredita que poderá utilizar o Hamas como meio para canalizar armas no futuro, afirmou em recente viagem por Israel e Egito o coordenador do Departamento de Estado para atividades antiterroristas, Henry A. Crumpton. Analistas políticos afirmam que tais aspirações iranianas fazem prever um desastre para Israel e o Ocidente, considerando que interpretam o desejo do governo islâmico iraniano de consolidar sua produção de energia nuclear para encobrir a fabricação de armas atômicas.

O namoro do Irã com o Hamas remonta ao triunfo da Revolução Islâmica em 1979, segundo o especialista israelense Mordejai Kedara, da Universidade Ramat-Gan. "Tentam exportar sua revolução", afirmou Kedara, para quem Teerã teve sucesso no Líbano e usará seu apoio político, seu dinheiro e suas armas para exercer influência sobre a Palestina. O Irã já se comprometeu a compensar a ajuda financeira que a comunidade internacional negar à Autoridade Nacional Palestina depois da chegada ao poder do Hamas, considerado uma organização terrorista pelos Estados Unidos e por outros países ocidentais.

O regime iraniano é adepto do rito xiita, enquanto o Hamas é de predomínio sunita. A distinção entre comunidades, ainda vigente, se baseia em acordos milenares em torno da sucessão do profeta Maomé. Os conflitos se manifestam hoje, inclusive, em atos de violência religiosa, como acontece no Iraque. "Os árabes desprezam os persas", afirmou Kedara. Como conseqüência, acrescentou, "os iranianos estão bem dispostos a ajudar o Hamas, pois farão qualquer coisa para demonstrar que são muçulmanos legítimos, como povo e como nação".

Eyal Zisser, diretor do Departamento de Estudos sobre o Oriente Médio da Universidade de Telavive, afirmou que Irã e Hamas têm interesses comuns, como o de manter Israel refreado. "O Irã quer ser o protetor do mundo islâmico. Quer criar um equilíbrio de terror e de poder. O mesmo equilíbrio dos tempos da Guerra Fria", como se a mensagem emitida fosse "Não brinquem conosco, pois podemos responder com represálias através do Hezbollah", segundo Zisser. Esta nova aliança tem, em parte, o objetivo de impedir que Estados Unidos e Israel ataquem os reatores nucleares e os possíveis arsenais atômicos iranianos, acrescentou o especialista.

Neste ponto entra em jogo o "nucleoteísmo", ou a sensação de autorização divina para desenvolver armas nucleares, afirmou Zisser. O Irã acredita que Deus dirige o comportamento diário dos clérigos, especialmente dos xiitas, incluindo o programa nuclear. Mas os próprios especialistas israelenses consideram que o Irã nunca entregaria armas de fissão nuclear ao Hamas. "Não são tão idiotas. Serão acusados e atacados", ressaltou. O que poderiam fazer seria fornecer "bombas sujas", que combinam um explosivo convencional com material radioativo procedente de reatores, explicou Zisser. Segundo Kedara, "se for detonada em um centro comercial as pessoas podem contrair câncer. É um cenário péssimo, pois é muito difícil detectá-las". Por sua vez, Zisser assegurou que o Irã forneceu ao Hezbollah um arsenal de foguetes de avançada tecnologia, e poderiam também oferecê-los ao Hamas.

Por outro lado, o Hezbollah canaliza através do Líbano dinheiro iraniano para incentivar os palestinos a matar (por US$ 10 mil) ou ferir (US$ 5 mil) um judeu, segundo Kedara. O prolongado vínculo do governo iraniano com o Hezbollah dá uma idéia de como poderia evoluir a relação entre o regime islâmico e o Hamas. Nos primeiros anos da década de 80, Irã e Síria procuraram usar os muçulmanos xiitas contra Israel no Líbano, em meio a uma guerra civil entre muçulmanos e cristãos. Desde então, o Hezbollah se converteu em uma organização que realiza atentados em todo o mundo. "O Hezbollah obedece ordens do Irã no Líbano, onde é um participante legítimo da vida política e integra o governo, aos olhos da comunidade internacional", afirmou Zisser.

Levará muitos anos para consolidar um vínculo semelhante entre Irã e Hamas, entre outras razões, pelo fato de ambos representarem as diferentes faces da mesma moeda muçulmana. Mas alguns observadores consideram que o fortalecimento da influência iraniana no Hamas seria o menor dos males. O principal perigo, afirmam, é que a Al Qaeda, de predomínio sunita, finque pé na Palestina. Declarações de militares israelenses, e inclusive do presidente palestino, Mahmoud Abbas, sugerem que a Al Qaeda já fez sua estréia no território. Seu eventual fortalecimento significaria grandes atentados, segundo Kedara. "Para eles, milhares de assassinados em um ataque não é problema", acrescentou.

Um governo do Hamas deverá decidir entre se converter em nova versão do Hezbollah, sob patrocínio iraniano, ou na próxima filial da Al Qaeda, previu o especialista. "Nos dois casos, será um Estado terrorista, com foi o Afeganistão até 2002", acrescentou Kedara. Mas o Hamas está tomando rápida distância de regimes e governos que poderiam ter interesse em manipulá-lo. Ghazi Hamed, editor do jornal Al-Risala, porta-voz do Hamas em Gaza, afirmou que o único compromisso do movimento é lutar por um Estado independente. (IPS/Envolverde)

Fawzia Sheik

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