Nações Unidas, 09/03/2006 – O Dia Internacional da Mulher foi celebrado em todo o mundo com uma paisagem de indignas estatísticas que indica o quanto ainda falta para se atingir a igualdade entre os sexos. As mulheres representam 70% dos pobres do mundo, recebem entre 20% e 30% menos do que os homens e cada vez mais são vítimas da aids na população feminina. "Devemos nos levantar em massa e exigir nossos direitos, pois está claro que, do contrário, não nos reconhecerão", disse à IPS a diretora de Assuntos de Gênero de San Critóvão e Nevis, Ingrid Charles Gumbs. Governos de todo o mundo ratificaram tratados como a Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (Cedaw) e a Plataforma de Ação de Pequim, aprovada pela Quarta Conferência das Nações Unidas sobre as Mulheres em 1995. A igualdade também consta dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, ambicioso pacote de metas ao qual aderiram 189 países da Organização das Nações Unidas.
Mas governos e organizações internacionais se mostram omissas quanto a realizar "preparativos institucionais, aumentar os recursos e fortalecer os mecanismos operacionais essenciais para ajudar as nações" a consagrarem a igualdade, disse a diretora-executiva do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher, Noeleen Heyzer. Estas apreciações foram feitas na 50ª sessão da Comissão sobre o Status da Mulher, na sede da ONU, que termina nesta sexta-feira.
Mulheres de todo o mundo, particularmente dos países em desenvolvimento, continuam sofrendo as conseqüências da enorme brecha entre o discurso e a prática. Setenta por cento dos 1,3 bilhão de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia são mulheres. Entre as trabalhadoras, milhões estão no setor informal, e, em geral, recebem entre 20% e 30% menos do que é pago aos homens, tanto no mundo em desenvolvimento quanto no industrializado. "A propagação do vírus da deficiência imunológica humana (HIV) e da aids cresceu especialmente entre as mulheres jovens", segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). As mulheres também estão escassamente representadas em todos os níveis do governo e ocupam apenas 16% das cadeiras parlamentares do mundo.
Um informe da ONU para o Comitê sobre o Status da Mulher também alerta que o avanço feminino em áreas como empresas, academia, sociedade civil, meios de comunicação e magistratura é ainda mais lento do que nos parlamentos. "As regras do jogo devem mudar", concluiu Heyzer, que ressaltou a necessidade de fortalecer a "arquitetura da eqüidade de gênero" e aumentar os recursos destinados a esse objetivo. "Por exemplo, o Fundo das Nações Unidas para Acabar com a Violência contra a Mulher, que hoje opera com menos de US$ 2 bilhões anuais, deve receber financiamento em nível necessário para responder a esta pandemia", afirmou.
A necessidade de fortalecer os organismos da ONU que trabalham em favor dos direitos femininos também foi um dos pontos destacados da mensagem de Charlotte Bunch, diretora-executiva do Centro para a Liderança Mundial das Mulheres. "O que se denomina de "a arquitetura de gênero" da ONU é mais como uma cabana. As mulheres precisam de uma casa global maior se querem que a igualdade seja uma realidade", afirmou. A igualdade deve ser alimentada desde a base da cidadania até os níveis superiores, pois "necessita-se absolutamente de uma resistência universal à atual discriminação universal contra as mulheres", afirmou Charles Gumbs à IPS.
"Estamos onde estamos hoje porque nossas irmãs marcaram o caminho", acrescentou. "Seus avanços e tudo aquilo que damos como assentado foi conseguido com sacrifício e trabalho duro. É nossa vez de avançar, para as irmãs que vêm atrás de nós", afirmou. Os maiores progressos foram observados em vários países em desenvolvimento, especialmente na África a América Latina, segundo informaram palestrantes e especialistas na sessão do Comitê das Nações Unidas. Graças a ações em nível nacional e da comunidade internacional, conseguiu-se a eleição de mulheres em parlamentos de países que saem de conflitos, o que também aumentou a participação feminina nos governos.
O ponto culminante desse processo foi a eleição no ano passado da primeira presidente africana, a liberiana Ellen Johnson-Sirleaf. "Saímos de um conflito devastador que causou impunidade, no qual se negou a justiça, durante o qual eram minimizadas questões como o abuso e a violação de mulheres", disse à IPS a ministra de Gênero da Libéria, Varbah Gayflor. "Agora, temos uma presidente, ministras das Finanças, da Justiça, de Gênero, de Comércio e de Esportes, e, também, uma diretora de polícia e vice-ministras", acrescentou. (IPS/Envolverde)

