Organização das Nações, 08/03/2006 – Uma coalizão de organizações internacionais de mulheres acusou o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, de apoiar somente da boca para fora a causa da igualdade de gênero no fórum mundial. "Estamos decepcionadas e francamente indignadas pelo fato de a eqüidade de gênero e o papel das mulheres dentro do sistema da ONU não serem considerados assuntos centrais na agenda de reformas" desse organismo, disse a coalizão em carta divulgada às vésperas do Dia Internacional da Mulher, comemorado nesta quarta-feira. A carta está assinada por representantes do Centro para a Liderança Mundial das Mulheres, do Comitê da Organização das Nações Unidas sobre o Status das Mulheres, da Organização de Mulheres para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (WEDO) e pela Liga Internacional de Mulheres pela Paz e a Liberdade. Estas organizações, integradas por mais de 240 mulheres de 50 países, expressaram sua desilusão pela designação na semana passada do britânico Mark Malloch Brown como vice-secretário-geral da Organização das Nações Unidas, em substituição à canadense Louise Fréchette. A coalizão disse que esperava um equilíbrio de gênero nos cargos mais altos da ONU com a nomeação de outra mulher para suceder Fréchette. "Nós já sabíamos que o apoio à equidade de gênero era apenas de palavra", afirmou na segunda-feira a diretora-executiva da WEDO, June Zeitlin.
"A Organização das Nações Unidas vai na direção equivocada. Precisamos de novos e inovadores líderes, e a forma de conseguir isso é garantir 50% de representação feminina em todos os postos de tomada de decisões", disse Zeitlin. "Estamos muito preocupadas porque o avanço das mulheres nos altos escalões da ONU está paralisado", diz a carta. As organizações também criticaram que da lista reduzida de candidatos para o posto de diretor-executivo do Programa da Organização das Nações Unidas para o Meio Ambiente, divulgada na semana passada, não consta uma única mulher. "Isto é inaceitável. A ONU deveria dar o exemplo quando nomeia os ocupantes dos principais postos de tomada de decisões", acrescenta a carta.
Na semana passada, a assistente do secretário-geral e conselheira especial para assuntos de gênero, Rachel Mayanja, apresentou dados estatísticos sobre a situação da mulher dentro do sistema da ONU. Até dezembro de 2005, a porcentagem de mulheres nos escalões mais altos era de 37,2%. "Basicamente, não houve mudanças em comparação com o ano passado", indicou. Mas as mulheres representam 26% dos funcionários de direção e cargos superiores, 2,9% a menos do que em 2004. Mayanja também destacou que dos 31 departamentos ou escritórios da Secretaria (com 20 ou mais funcionários cada uma) apenas cinco alcançaram ou superaram a quota de igualdade de gênero e 10 ficaram entre 40% e 49%.
"A lição é clara. É necessária uma ação mais concertada inclusive para manter o atual grau de representação feminina, particularmente nos níveis de direções e superiores", acrescentou. Mayanja também exortou os Estados-membros que "recomendem mulheres qualificadas para postos importantes". Por outro lado, a carta da coalizão destaca que por mais de seis décadas as organizações de mulheres de todo o mundo apoiaram a ONU. "Participamos ativamente no trabalho da Organização das Nações Unidas em assuntos de paz, direitos humanos, desenvolvimento, segurança, meio ambiente e, naturalmente, igualdade de gênero", afirma a carta.
Na Cúpula Mundial de 2005, realizada em Nova York, estas organizações conseguiram que os líderes presentes assumissem compromissos em torno da igualdade sexual no contexto das reformas previstas do fórum mundial. Mas os resultados foram muito pobres, diz a carta. "Devemos perguntar como que mais de 10 anos depois do compromisso de igualdade de gênero assumido na quarta Conferência Mundial sobre a Mulher, realizada em Pequim, a ONU ainda oferece uma representação simbólica nos comitês-chave e nos painéis de alto nível", acrescenta. Nessa conferência, realizada na capital chinesa em 1995, foi adotado o Plano de Ação para eliminar todas as formas de discriminação contra as mulheres.
A carta da coalizão diz que "os mecanismos e processo da reforma da ONU não mostram um visível e constante compromisso na igualdade de gênero e no fortalecimento do papel das mulheres". Por exemplo, os grupos dizem que o novo Painel de Alto Nível da Organização das Nações Unidas, que coordena as ações do fórum mundial em áreas de desenvolvimento, assistência humanitária e meio ambiente têm apenas três mulheres entre seus 15 membros. "Pedimos que mais mulheres sejam incluídas no Painel e que a igualdade de gênero seja explicitamente considerada em cada tema", destaca. Além disso, as entidades assinalaram que o Painel deveria fazer consultas periódicas com grupos da sociedade civil, particularmente com, os defensores dos direitos da população feminina, para considerar o impacto que possa ter na vida das mulheres qualquer reforma proposta. (IPS/Envolverde)

