Ambiente: Mudança climática ameaça fontes de água na África

Washington, 07/03/2006 – A redução das chuvas devido ao aquecimento do planeta ameaça os rios e outras fontes de água doce em áreas densamente povoadas da África, alertam especialistas da Universidade da Cidade do Cabo. Algumas dessas regiões, em particular no sul da África, já sofrem secas periódicas, por isso um agravamento da situação teria "conseqüências devastadoras" para a população, segundo estudo de Maarten de Wit e Jacek Stankiewicz publicado nos Estados Unidos pela revista Science. Também é particularmente vulnerável a faixa de território que cruza o continente desde o Senegal, no extremo oeste, ao Sudão e sul da Somália, no leste, através de várias massas de água, como os pântanos Sudd, na bacia do rio Nilo, e o rio Níger, disseram Wit e Stankiewicz, da Rede de Observatórios Terrestres Africanos da Universidade da Cidade do Cabo. Como boa parte da chuva é absorvida pelo solo e pelas plantas antes de alcançar os espelhos de água e vias fluviais, a redução nas precipitações nessas zonas representa uma grande redução do líquido disponível para uso humano.

Uma redução de 10% nas precipitações em regiões que recebem 600 milímetros de chuva por ano implicaria 50% de queda na drenagem à superfície. A "drenagem perene" de rios, lagos e outras massas de água que portam as águas superficiais sofrerá uma baixa por causa da diminuição das chuvas, o que afetará "significativamente" o acesso à água em 25% da África até o final do século XXI, diz o informe. O estudo se baseia em vários modelos climáticos para estabelecer o impacto do aquecimento do planeta na chuva.

Em janeiro, o Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Administração Nacional para a Aeronáutica e o Espaço (Nasa, dos EUA) confirmou que 2005 foi o ano mais quente de que se tem registro. Também os últimos 10 anos foram os mais quentes. A rede de rádio e televisão britânica BBC informou que no final deste mês o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, que reúne centenas de cientistas de todo o mundo, alertará que com as atuais projeções de emissões de gases causadores do efeito estufa, a temperatura do planeta aumentará entre dois e 4,5 graus centígrados até o final do século, muito mais do que afirmavam as previsões anteriores.

As geleiras da Groelândia estão derretendo no dobro da velocidade que se supunha, segundo algumas pesquisas. Outras tiram conclusões semelhantes a respeito do mar Adriático e das geleiras de montanha. Estes dados indicam que, como diz o diretor do Instituto Goddard, James Hansen, o mundo "está se aproximando de um ponto além do qual será impossível evitar uma mudança climática com conseqüências indesejáveis e de grande alcance". Apesar de Hansen se referir fundamentalmente ao impacto da elevação do nível do mar pelo derretimento das geleiras, os cientistas concordam que as mudanças climáticas, incluída as dos padrões de chuva, também serão dramáticas. Mantida a atual tendência, as chuvas na África subsaariana diminuirão 10% até 2050, o que originará uma grande escassez de água potável, calculou o cientista Anthony Nyong, da Universidade de Jos, na Nigéria.

O estudo da Universidade da Cidade do Cabo avança em relação ao trabalho de Nyong, ao aplicar os últimos modelos computadorizados para determinar como o calor afetará as chuvas e os sistemas de drenagem em regiões específicas da África. O estudo de Wit e Stankiewicz mostra um continente dividido, até o final do século, em três "regimes" climáticos: áreas secas, que recebem menos de 400 mm de chuva por ano e, portanto, carecem virtualmente de drenagem perene; áreas úmidas com mais de 800 mm anuais, e zonas intermediárias ou instáveis, nas quais cairão entre 400 e 800 milímetros. Segundo o estudo, a zona seca cobrirá virtualmente toda África setentrional, o deserto de Sahel e a maior parte do Chifre da África(região nordeste do continente), bem com a metade ocidental da África do Sul, Namíbia e a costa de Angola.

Tudo isso soma 41% da superfície do continente africano. Com exceção da Somália e de áreas próximas da Etiópia e do Quênia, onde as chuvas aumentarão entre 10% e 20%, a maioria da região sofrerá uma queda nas precipitações que chegará a 20% no norte e sudoeste. As áreas úmidas incluirão o centro do continente e boa parte do ocidente, ao redor do golfo da Guiné e estendendo-se às zonas orientais de Uganda, Sudão, Tanzânia, Moçambique e norte de Madagascar. A maioria dessas áreas registrará um aumento das chuvas de até 10%, segundo o estudo.

Vinte e cinco por cento do território africano estarão compreendidos por áreas instáveis, que supõem a maior preocupação, segundo os autores do estudo. A redução das chuvas terá aí um sério impacto no fornecimento de água, advertiram. Em algumas dessas zonas, especialmente no leste, provavelmente haverá aumento das precipitações de até 10%, mas em outras, como na África ocidental e meridional, haverá uma redução. A África do Sul estará "em uma situação muito perturbadora", alerta o informe. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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