Iraque: A violência não tem nome

Bagdá, 09/03/2006 – Predomina na imprensa mundial o alarme sobre o desenvolvimento de uma guerra civil no Iraque. Mas os iraquianos se fazem de surdos. Muitos sentem que não é apropriado utilizar esse termo para descrever o conflito interno que afeta o país. Depois do atentado com bomba na Mesquita Dourada, ou Al-Askariya, principal templo xiita da cidade de Samarra, no último dia 22, a Associação de Eruditos Muçulmanos e representantes de grupos xiitas liderados por Muqtada al-Sadr e pelo xeque Jawad Sheikh al-Khalisi se reuniram em Bagdá para negociar uma resposta. Da deliberação na mesquita de Abu Hanifa, no bairro de Adhamiya, surgiu um plano de 10 pontos para responder à violência e construir um futuro para o Iraque. Esse plano encontra-se em processo de implementação, com variado êxito. Um de seus propósitos fundamentais é "condenar as organizações de imprensa que tentaram fazer com que este problema entre sunitas e xiitas crescesse mais e mais, e temos todo o direito de levá-los a julgamento no futuro". Na reunião, os líderes xiitas tomaram decisões simples, como mecanismos para condenar o atentado em Samarra, todos os que ocorreram depois contra mesquitas sunitas e todas as operações terroristas. Foi significativo que representantes xiitas fossem convidados ao templo de Abu Hanifa, famoso local sunita em Bagdá e alvo recorrente de operações rebeldes.

"Os convidamos para ver como podemos por fim a este problema e parar a matança entre iraquianos", disse o dirigente sunita Salam al-Kubaisi. A reunião foi convocada "também para deter os ataques contra mesquitas sunitas e acabar com o derramamento de sangue iraquiano", acrescentou. "Este sangue é muito caro para nós e em um futuro poderemos reconstruir tudo, menos a vida humana", ressaltou. Os líderes decidiram compensar todas as vítimas da violência sectária depois do atentado de Samarra. Os representantes xiitas que foram à Abu Hanifa garantiram que suas congregações e organizações de fiéis não estavam diretamente envolvidas na violência. "Acusamos as forças de ocupação e o sectário governo iraquiano", disse à IPS o xeque Majid al-Saadi, um xiita que representa Al-Khalisi.

Muitos dos partidos iraquianos, particularmente os grupos sunitas, e o nacionalista Muqtada al-Sadr, pensam o mesmo. Os grupos colocaram duas declarações finais em seu acordo para assinalar o papel da ocupação na onda de violência. Sua declaração acusou a ocupação de "responsabilidade por tudo o que ocorre no Iraque: sectarismo, terrorismo e outros problemas", e demandou que as forças de ocupação "abandonem o Iraque o mais rápido possível e voltem para casa". Por fim, o acordo exorta o povo iraquiano a viver unido e em paz e em desafiar o que chama o desejo da ocupação de insuflar sectarismo e criar uma guerra civil.

"Pedimos aos iraquianos que não cooperem com os planos da ocupação, porque seu propósito é fazer uma guerra civil no Iraque. Segundo, como líderes muçulmanos, queremos mostrar ao mundo que estamos contra estes ataques que acontecem desde o atentado de Samarra", disse Salam al-Kubaisi. Muitos iraquianos parecem apoiar os resultados da reunião de Abu Hanifa. "Desde o primeiro dia da ocupação, o governo dos Estados Unidos manteve reuniões apenas com xiitas e curdos em Londres. Esses grupos fizeram um acordo sem os sunitas. Assim, começou o problema", disse à IPS Mohamed Kareem, um guarda de segurança de 37 anos.

Os responsáveis pelo ataque de Samarra ainda devem ser localizados, mas há inúmeros nomes de suspeitos. Os Estados Unidos e o atual conselho de governo iraquiano garantem que a organização terrorista Al Qaeda, do saudita Osama bin Laden, esteve envolvida. Mas nem todos apontam para a Al Qaeda. Depois do atentado ficou-se sabendo que o Ministério de Segurança Nacional do Iraque havia recebido informações de que os tempos xiitas eram alvo potencial de ataques terroristas. Na semana passada, o sunita independente Mithal al-Alusi exortou no sentido de se "estabelecer de imediato um comitê político-judicial encarregado de verificar tais informações".

Foi o amplo fracasso em investigar os ataques que se seguiram à explosão em Samarra que levou as imprensa mundial a declarar que o Iraque está à beira de uma guerra civil. Alguns partidos podem ter suas próprias razões para projetar uma guerra civil no Iraque. "Líderes xiitas iraquianos, especialmente os que chegaram do Irã depois da guerra, querem dividir o Iraque e ficar com a parte meridional", disse Kareem. "Os curdos também querem isto; sua intenção é ficar com o norte", acrescentou. "Além disso, o governo iraniano quer isto e apóia a guerra civil no Iraque mais do que qualquer um. Necessita que as tropas dos Estados Unidos estejam ocupadas no Iraque para que deixem o Irã em paz, porque espera que Washington os invada em seguida".

A intensa violência se concentrou em umas poucas províncias, especialmente na cidade de Bagdá. "A polícia iraquiana forçou os sunitas do deserto de Nahrawan a abandonar seus lares e agora estas famílias vivem no campo", disse um homem que se identificou apenas como Hussein. "Isso é injustiça, e agora estamos certos de que o governo iraquiano está cooperando com as milícias xiitas e as forças de ocupação contra os sunitas". Os xeques, contrários à ocupação, expressaram pontos de vista comuns com os iraquianos que se sentem abandonados pelo novo governo do Iraque e pelas promessas feitas pela ocupação dos Estados Unidos. "O governo iraquiano protege somente a si mesmo e não se importa com o povo do Iraque", disse al-Saadi. (IPS/Envolverde)

Isam Rashid

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