Santiago, 13/03/2006 – Ativistas que bloqueiam as pontes internacionais entre Argentina e Uruguai, em protesto pela instalação de duas fábricas de celulose na margem oriental do rio Uruguai, fronteira entre os dois países, tiveram reações diversas diante do acordo alcançado pelos dois governos. O presidente argentino, Nestor Kirchner, e o uruguaio, Tabaré Vázquez, acertaram no sábado, no Chile, uma trégua virtual no conflito relacionado à construção das fábricas por parte da empresa holandesa Botnia e da espanhola ENCE, que segundo ativistas e autoridades argentinas causarão graves prejuízos no ecossistema do rio Uruguai e em toda a região. A fórmula encontrada responde aos termos propostos por Kirchner no começo deste mês, no sentido de solicitar uma pausa de 90 dias na construção das fábricas e de pedir aos ativistas da província argentina de Entre Ríos que suspendam pelo mesmo prazo o bloqueio das pontes fronteiriças. Enquanto alguns manifestantes qualificaram o anúncio de "passo fundamental", outros ratificaram que continuarão com os bloqueios. De todo modo, esperavam um comunicado formal dos governos para definir uma posição. Kirchner e Vázquez viajaram ao Chile para a posse da presidente Michelle Bachelet.
A organização ambientalista internacional Greenpeace disse que o presidente chileno que deixou o cargo, Ricardo Lagos, havia exortado ambos a aproveitarem a oportunidade para buscar uma solução para o problema. Por outro lado, fontes em Montevidéu disseram à IPS que o encontro no Chile foi acertado esta semana entre o secretário da presidência do Uruguai, Gonzalo Fernández, e o chefe do gabinete argentino, Alberto Fernández. "Os contatos desta semana estiveram precedidos por uma série de reuniões reservadas dos dois funcionários na residência em Buenos Aires do embaixador uruguaio na Argentina, Francisco Bustillo", afirmaram.
Os governantes, ao anunciarem o acordo, apelaram "à solidariedade e irmandade" dos dois países sócios no Mercosul para buscar uma solução definitiva. Agora, resta convencer tanto as empresas quanto os ativistas a aceitarem a trégua e permitam que especialistas independentes de alto nível investiguem o potencial impacto ambiental das fábricas de celulose, insumo de alta demanda mundial para a fabricação de papel.
A negociação incluirá duas novas cúpulas, a primeira na residência presidencial uruguaia de Anchorena, a 30 quilômetros da cidade de Colônia, e o segundo na cidade argentina de Mar del Plata. No processo de obtenção da polpa de celulose a partir da madeira são utilizadas, além de grandes quantidades de água, várias substâncias químicas, como cloro e dióxido de cloro, soda cáustica (dioxinas e furanos), muito tóxicos, persistentes e com capacidade de acumular-se em organismos animais. As empresas asseguram que usarão a tecnologia mais avançada para reduzir os riscos de contaminação, mas a Argentina exige estudos independentes e insiste que recebeu toda informação necessária do Uruguai.
Por outro lado, integrantes da Assembléia Cidadã Ambiental de Gualeguaychú, em Entre Ríos, próxima do Uruguai, que concentra a maior resistência contra a instalação das fábricas, tiveram opiniões diversas sobre o anúncio. Alejandro Gahan, um dos moradores, disse à Rádio Mitre, da Argentina, que se tratava de "uma notícia fantástica" e "um passo fundamental" para resolver a diferença, mas outros ativistas como Alejandra Crimella, disseram à IPS que esperavam uma confirmação oficial dos governos, bem como a opinião das empresas, que ainda não haviam se manifestado.
"Embora condicionássemos o fim do bloqueio à paralisação das obras, agora dizemos que esta paralisação não é condição para suspender os bloqueios. Essa proposta não nos serve", afirmou Crimella. A Assembléia divulgou na noite de sexta-feira (prevendo que os presidentes fariam algum anúncio) no qual "rechaça a paralisação das obras como condição para flexibilizar os bloqueios" e confirma sua oposição à instalação das fábricas independente dos controles que forem adotados. Crimella disse à IPS que a Assembléia espera se reunir em breve para estabelecer uma posição quanto tiver informação concreta dos governos e souber a posição das empresas.
Na sexta-feira, a polícia deteve seis ativistas do Greenpeace que instalaram nas imediações do aeroporto internacional de Santiago uma faixa de 10 metros de altura convidando os dois presidentes a visitarem a zona do desastre ecológico causado no santuário natural do Río Cruces pelos resíduos de uma fábrica de celulose. Em Río Cruces, cerca de 840 quilômetros ao sul da capital chilena, houve desde o final de 2004 uma morte em massa de cisnes de pescoço negro (Cygnus melancoriphus) e de outras espécies, depois que os dejetos da empresa Celulose Arauco e Constitucioón (Celco) exterminaram uma alga que constitui seu principal alimento.
O Greenpeace e outras organizações ambientalistas acusam o governo de Ricardo Lagos de privilegiar neste caso os investimentos do grupo empresarial liderado pelo multimilionário Anacleto Angelini, em lugar de proteger as comunidades e o manguezal de Río Cruces em cumprimento às convenções internacionais. Depois de sucessivos fechamentos parciais e multas à Celco, as autoridades autorizaram em agosto de 2005 a reabertura da fábrica, desde que construísse um duto para jogar seus dejetos no mar, o que representa outro conflito com os moradores e pescadores artesanais da pequena enseada de Mehuín.
A repercussão internacional do desastre ecológico de Río Cruces, que abrigava a maior colônia de cisnes de pescoço negro na América Latina, com uma população entre quatro mil e seis mil animais, influiu na controvérsia desatada pela construção das fábricas no rio Uruguai. "Nos parece no mínimo vergonhoso que o presidente Lagos proponha debater aos presidentes uruguaio e argentino uma questão que se negou a examinar nos últimos anos de seu mandato", disse à IPS o ativista Samuel Leiva, porta-voz do Greenpeace no Chile. Para Leiva, foi "flagrante a falta de responsabilidade ambiental" com que Lagos tratou o caso Celco. "Esperamos que a presidente Bachelet possa não só abordar com mais urgência este tema, como também se preocupe em exigir soluções reais", acrescentou.
O Greenpeace, que participa das campanhas contra as fábricas da Botnia e da ENCE, reclama que Chile, Argentina e Uruguai adotem um Plano de Produção Limpa para a Indústria do Papel que fixe os mais exigentes padrões ambientais para a indústria da celulose.
* Com as colaborações de Marcela Valente (Buenos Aires) e Diana Cariboni (Montevidéu).

