Jerusalém, 14/03/2006 – A crescente indiferença da população árabe em Israel com relação às eleições gerais previstas para o próximo dia 28 revela o profundo sentimento de marginalização dessa comunidade. Em uma tentativa de resolver o problema, o governo do primeiro-ministro interior, Ehud Olmert, anunciou um plano de ação afirmativa. A iniciativa consiste em reservar 37,5% dos postos públicos durante os próximos três anos para essa e outras minorias em Israel. Além disso, qualquer repartição governamental que contratar um árabe receberá fundos adicionais para empregar outra pessoa sempre e quando pertencer a alguma minoria. O ressentimento dos 550 mil árabes em uma população de seis milhões de pessoas vem de longa data, e, segundo analistas, é exacerbada tanto pelos partidos árabes quanto pelos tradicionais israelenses. "Muitos árabes em Israel vêem o Knesset (parlamento unicameral) com uma espécie de pátio de recreio que pertence somente a judeus e onde o único idioma é o hebreu", disse à IPS o analista Mordechai Kedar, do Departamento de Árabe da Universidade Bar Ilan, na cidade israelense de Ramat Gan.
Por sua vez, Adman Sa?adi, professor na Universidade Ben Gurion, em Berrsheba, destacou que, ao longo dos anos, os principais partidos israelenses fizeram "grandes promessas à população árabe, mas depois das eleições as esqueceram. Não se pode, agora, esperar que votem nesses partidos", que não só descumpriram suas promessas, como também estimularam políticas nefastas para a comunidade árabe, como a demolição de casas em territórios palestinos ou a construção do "muro de segurança", que separa o território israelense da Cisjordânia e prejudica muitos árabes, afirmou Sa?adi à IPS.
"Estes líderes políticos israelenses não falam de paz, mas de retiradas unilaterais", acrescentou este analista israelense descendente de palestinos. Sa?adi disse que os árabes sempre foram considerados cidadãos de segunda ou terceira categoria. Por exemplo, nos controles de passaportes nos aeroportos são obrigados a esperar na fila de estrangeiros. "Não é bem-vindo ao país. Às vezes, se sente como um inimigo", ressaltou. O especialista também disse à IPS que a polícia freqüentemente hostiliza os árabes nos aeroportos, pontos de ônibus e outros locais públicos. A discriminação também se manifesta na distribuição dos benefícios da economia, acrescentou.
Há algumas semanas, a Suprema Corte bloqueou um plano educacional que priorizava as cidades e localidades de maioria judia. Mas a marginalização também pode ser constatada em coisas menores, como os sinais de trânsito. Apesar de a lei israelense estabelecer que estes devem estar escritos em hebreu, inglês e árabe, a tradução para esta última língua, em geral, é incompreensível. "Isto é verdadeiramente humilhante", disse Sa?adi. Por sua vez, Kedar atribuiu esta discriminação aos judeus pelo fato de estar rodeados por cerca de 300 milhões de árabes. Alguns vêem os palestinos que vivem em Israel como um fator de risco, pois são "potenciais colaboradores com os árabes de fora", explicou.
Os partidos árabes também são responsabilizados em grande parte pela indiferença de seu eleitorado. Muitos árabes-israelenses os criticam por se concentrarem em debates políticos e esquecer as necessidades dos povos e das cidades onde essa comunidade é maioria. Como resultado, muitos palestinos em Israel estão dispostos a votar nos partidos tradicionais como castigo aos membros árabes do Knesset, dos quais se sentem desamparados. "Ouvi isso de muitos estudantes", contou Kedar. Os grupos islâmicos também têm um papel importante no desinteresse árabe em relação às eleições deste mês. Estas organizações conclamam os palestinos a boicotar a votação, dizendo que a participação significa legitimar a existência de Israel sobre terra palestina. (IPS/Envolverde)

